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Eraldo Souza transforma versatilidade musical em identidade artística entre palcos, ensino e experiências internacionais

O multiinstrumentista, produtor musical e educador Eraldo Souza construiu a própria trajetória longe de caminhos lineares. Entre bandas marciais, igrejas, bailes, conservatórios, universidades e experiências internacionais, o músico paraibano transformou a multiplicidade de vivências em uma identidade artística marcada pela versatilidade, pela escuta e pela capacidade de transitar entre diferentes universos sonoros.

 

Em entrevista ao Papo Pop, Eraldo refletiu sobre a própria formação e afirmou que, no início da carreira, a diversidade musical surgiu muito mais como necessidade do que como planejamento.

 

“No início da carreira, não tem muita escolha. Eu apenas aproveitei as oportunidades que apareceram, eu sempre estive em ambientes musicais bem diferentes”, afirmou.

 

Segundo ele, a experiência em igrejas e bandas baile foi decisiva para desenvolver flexibilidade musical e ampliar repertórios. “A minha base foi tocando na igreja e bandas baile, onde temos uma diversidade musical gigante, tocamos todos os ritmos e estilos possíveis”, disse.

 

Com o tempo, os diferentes caminhos passaram a fazer sentido dentro de uma construção artística mais ampla.

 

“Hoje vejo que realmente todos os caminhos que trilhei me ajudaram com a minha identidade musical e toda diversidade, virou bagagem musical”, declarou.

 

Formação entre teoria, prática e estrada

A trajetória de Eraldo também passou pelo ensino formal da música, conciliando conservatório, universidade e experiências práticas no Brasil e no exterior. Para ele, a construção de um músico completo exige múltiplas habilidades.

 

“Uma vez me disseram que seu eu quisesse viver de música, teria que ser um músico completo, ou seja, ‘tocar de ouvido’, ler partitura e saber falar outras línguas”, relatou.

 

O artista afirma que o contato com diferentes culturas ampliou sua percepção sobre música, educação e produção artística.

 

“A universidade, a noite e as experiências por todos os lugares do Brasil e do mundo, me fizeram experienciar as diversas culturas, o que me deu um leque e abriu a minha mente”, disse.

 

Cruzeiros, Broadway e a experiência internacional

A experiência internacional em cruzeiros e produções ligadas à Broadway também marcou profundamente sua carreira. Eraldo revelou que o desejo de viajar o mundo através da música surgiu ainda na juventude.

 

“Desde muito novo tinha o desejo no meu coração de viajar o mundo”, contou. Segundo ele, o ambiente dos cruzeiros exigiu domínio técnico, adaptação e capacidade de atuar em diferentes contextos musicais. “Realmente a versatilidade, tocar vários instrumentos e ter um Inglês bom, fez toda diferença”, afirmou.

 

O músico destacou ainda que as experiências internacionais transformaram sua postura profissional.

 

“Posso dizer que essa experiência me fez ter outra visão como músico e me tornar um músico melhor. Minhas condutas realmente mudaram após esta experiência”, declarou.

 

“A música precisa ser maior que quem está no palco”

Atuando como multiinstrumentista, sideman, arranjador e diretor musical, Eraldo defende uma visão coletiva da música e afirma que o ego não pode estar acima da construção artística.

 

“Sempre digo isto, para todos quem me cercam, não adiantar querer ser maior que a música”, afirmou. Para ele, o papel do músico muitas vezes está na capacidade de compreender o momento certo de aparecer ou recuar. “Silenciar o ego não significa se anular, mas compreender qual é a necessidade daquele momento musical e servir a ela com muita sensibilidade”, explicou.

 

Segundo Eraldo, sua assinatura artística está nos detalhes e na construção coletiva dos projetos. “A assinatura artística não está apenas no protagonismo, mas na intenção, no cuidado com os detalhes e na forma como se constrói o som no coletivo”, disse.

 

Ensino musical entre tradição e inovação

Além dos palcos, Eraldo também atua como educador musical na Escola de Música Antenor Navarro (EEMAN), onde trabalha com alunos de diferentes idades. Ele defende que o ensino preserve a essência humana da música, mas acompanhe as transformações das novas gerações.

 

“Acredito que o ensino da música precisa preservar a essência humana do fazer musical”, afirmou. Ao mesmo tempo, ele avalia que os modelos tradicionais precisam dialogar com novas formas de aprendizado e consumo cultural.

 

“Os alunos de hoje chegam com outras referências, outras maneiras de consumir música e outras expectativas sobre o próprio futuro profissional”, destacou.

 

O músico afirma utilizar metodologias mais dinâmicas e menos tradicionais em sala de aula. “Minhas aulas tanto de instrumento quanto das aulas em coletivo, eu vou pelo lado da sala de aula invertida e fujo da forma tradicional”, explicou.

 

Crítica à estrutura cultural e esperança na nova geração

Ao comentar o cenário musical paraibano, Eraldo reconheceu a força cultural do estado, mas apontou dificuldades estruturais que ainda limitam artistas locais. “O talento nunca foi o problema”, afirmou.

 

Segundo ele, muitos músicos ainda enfrentam obstáculos ligados à profissionalização, acesso a oportunidades e valorização do próprio trabalho.

 

“Muitos músicos são altamente preparados musicalmente, mas falta preparo artístico, sabe escrever um projeto, valorizar o seu trabalho na hora que cobrar o seu cachê”, disse.

 

Apesar disso, ele enxerga uma nova geração mais consciente e preparada para ampliar o alcance da música produzida na Paraíba.

 

“Tenho esperança porque vejo uma geração cada vez mais consciente”, afirmou.

 

Legado além dos palcos

Ao falar sobre legado, Eraldo Souza disse que deseja ser lembrado menos pelos palcos e mais pelas pessoas que ajudou a formar ao longo da trajetória.

 

“Quando penso em legado, não imagino algo ligado apenas às conquistas ou aos palcos que passei, mas às pessoas que, de alguma forma, seguirão fazendo música com mais consciência e confiança”, declarou.

 

Para ele, a música precisa ser encarada como profissão, expressão artística e instrumento de transformação social.

 

“Meu desejo é que as novas gerações se sintam preparadas não apenas para tocar bem, mas para pensar a música como profissão, como expressão e como transformação social”, concluiu.

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