As dificuldades financeiras estão adoecendo a mente dos brasileiros. Uma pesquisa realizada pela Associação Brasileira dos Educadores Financeiros (ABEFIN), em parceria com o Instituto Axxus, revela que 81,9% das pessoas diagnosticadas com transtornos mentais apontam os problemas com dinheiro como um fator relevante no desenvolvimento ou agravamento do seu quadro psicológico.
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O levantamento ouviu 1.000 brasileiros de todas as regiões do país com diagnóstico formal de ansiedade, depressão, estresse crônico ou síndrome de Burnout. As entrevistas presenciais em profundidade foram conduzidas por psicólogos especializados, com o objetivo de compreender os fatores que os participantes associam ao surgimento de seus transtornos.
Os resultados mostram que, para 27,1% dos entrevistados, as dificuldades financeiras foram a causa exclusiva do adoecimento mental. Outros 32,4% afirmaram que elas representaram a causa predominante entre diversos fatores envolvidos. Já 22,4% apontaram as finanças como uma das principais causas de seus problemas emocionais. Somadas, essas três categorias representam 81,9% da amostra.
Além disso, quando questionados sobre qual foi o principal gatilho para o surgimento do transtorno, 34,6% apontaram as dificuldades financeiras, percentual superior ao registrado para problemas relacionados ao trabalho (20,5%), relacionamentos (11%), separação (10,9%), doenças (8,3%) e luto (5%).
Para o presidente da Associação Brasileira dos Educadores Financeiros (ABEFIN), Reinaldo Domingos, os números evidenciam uma realidade que precisa ser encarada de forma mais ampla pela sociedade. “A pesquisa mostra que a saúde financeira e a saúde mental estão profundamente conectadas. Quando uma pessoa vive sob pressão constante para pagar contas, lidar com dívidas, enfrentar a falta de recursos ou a insegurança sobre o futuro, isso inevitavelmente produz impactos emocionais. O que os dados revelam é que o dinheiro deixou de ser apenas uma questão econômica e passou a ocupar um papel central na qualidade de vida e no bem-estar das pessoas”, afirma.
O estudo também revela um cenário de fragilidade financeira entre os entrevistados. Entre os principais desafios enfrentados atualmente estão a dificuldade para pagar contas básicas (69,4%), a existência de dívidas (61,2%), a renda insuficiente para cobrir as necessidades do dia a dia (53,6%) e o desemprego (31,1%).
Os reflexos desse cenário vão muito além do orçamento doméstico. O lazer foi prejudicado para 64,9% dos participantes, seguido por impactos no humor (61,9%), nas relações familiares (60,1%), na qualidade do sono (56,1%), no desempenho profissional (42,8%) e nas amizades e relações sociais (39,8%).
Impacto atinge diferentes perfis sociais
Ao contrário do que muitos imaginam, o sofrimento relacionado às finanças não está restrito às camadas mais vulneráveis da população. A pesquisa identificou que 49,1% dos entrevistados da Classe A apontaram os problemas financeiros como principal gatilho para o adoecimento mental, percentual superior ao observado em outras classes sociais.
Segundo Reinaldo Domingos, o resultado demonstra que a pressão financeira assume formas diferentes conforme a realidade de cada indivíduo. “Muitas vezes se associa a dificuldade financeira apenas à falta de renda. Mas existe também a pressão para manter patrimônio, padrão de vida, compromissos financeiros e expectativas futuras. O medo de perder aquilo que foi conquistado pode gerar um nível de estresse tão significativo quanto a escassez de recursos. O sofrimento emocional relacionado ao dinheiro não escolhe classe social”, explica.
Diferenças regionais e geracionais
A pesquisa também identificou comportamentos distintos entre regiões do país. Os maiores índices de ansiedade foram registrados no Norte (53,4%) e no Nordeste (50,6%). Já o Sudeste apresentou a maior incidência de síndrome de Burnout, atingindo 31,2% dos entrevistados.
No Sul e no Centro-Oeste foram observados os maiores percentuais de pessoas que apontaram os problemas financeiros como principal gatilho para seus transtornos mentais, com 37% e 37,5%, respectivamente. Entre os jovens de 18 a 30 anos, a ansiedade alcança 52,3%, o maior índice registrado no estudo. Já entre as pessoas com mais de 60 anos, a depressão chega a 42,1%.
Pessimismo financeiro supera preocupação com a saúde mental
Outro dado que chama atenção é a percepção sobre o futuro. Enquanto 35,9% dos entrevistados demonstram otimismo em relação à melhora de sua saúde mental, apenas 20% acreditam que sua situação financeira irá melhorar.
Por outro lado, 67,2% afirmam ter uma visão pessimista ou muito pessimista em relação ao próprio futuro financeiro. Apesar da forte relação identificada entre finanças e saúde mental, quase metade dos entrevistados (48,5%) nunca buscou orientação profissional em educação financeira.
Para Reinaldo Domingos, os resultados reforçam a necessidade de uma atuação conjunta para enfrentar o problema. “Estamos diante de um desafio que exige ações em várias frentes. É preciso ampliar a educação financeira nas escolas, fortalecer programas de orientação para famílias, incentivar políticas públicas de inclusão financeira, promover ambientes corporativos mais saudáveis e aproximar profissionais da saúde mental das questões financeiras que afetam seus pacientes. Não estamos falando apenas de dinheiro, mas de qualidade de vida, segurança emocional e prevenção do adoecimento. Quanto mais cedo a sociedade compreender essa relação, maiores serão as chances de reduzir seus impactos”, conclui.

