Correios devem fechar 2026 com o pior prejuízo da história, projeta ministra Esther Dweck

O plano de recuperação dos Correios envolve a absorção de custos elevados no presente para garantir fôlego operacional e novos contratos no médio prazo.
Foto: Reprodução

Os Correios devem ter o pior resultado de sua história no encerramento de 2026. A afirmação foi feita pela ministra da Gestão e Inovação em Serviços Públicos, Esther Dweck, em entrevista ao O Globo. No entanto, Dweck acrescentou que esse desempenho integra o plano de reestruturação da estatal e que deve voltar a apresentar resultados positivos nos próximos anos.

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A ministra também destacou que o prejuízo de R$ 3,2 bilhões registrado no primeiro trimestre deste ano já estava previsto no planejamento da estatal. Já o resultado anual deve ser ainda pior, superando o prejuízo recorde de R$ 8,5 bilhões registrado em 2025.

“Sim, era esperado. O plano de reestruturação da empresa já previa que este ano teria o pior resultado. E esperamos que seja o pior resultado da história para a partir de então voltar a ter bons resultados”, afirmou a ministra.

Dweck destacou que, apesar do cenário adverso, o resultado do primeiro trimestre ficou melhor do que o previsto pela atual gestão dos Correios. De acordo com ela, o presidente da estatal, Emmanoel Rondon, informou que os números vieram acima da expectativa inicial para o período.

A ministra explicou que o déficit primário da empresa também deve crescer em 2026. Esse indicador, segundo ela, tem impacto nas contas públicas, mas não corresponde necessariamente ao resultado operacional completo da estatal. No caso dos Correios, o aumento do déficit está relacionado ao empréstimo de R$ 12 bilhões obtido no fim de 2025, cujos recursos começaram a ser usados ao longo deste ano.

“Como o empréstimo só saiu muito no fim do ano, entrou o dinheiro em 30 de dezembro na conta dos Correios, e eles não gastaram. O pagamento que eles estão fazendo esse ano é com base em renegociação com os credores, com fornecedores, para poder reduzir custos. Então neste ano o prejuízo deve ser alto, e o déficit deve ser muito alto. Mas não é um descontrole, não é algo não previsto. O plano de recuperação está indo muito bem”, declarou.

A ministra também foi questionada sobre resultados abaixo do esperado em algumas medidas da reestruturação, como o Plano de Demissão Voluntária (PDV). Ela afirmou que a adesão ao programa já tinha uma estimativa e que havia planos de contingência para o caso de o número de adesões não ser tão elevado. “Mas o PDV tem uma estimativa. Tem outros planos associados de contingência, sabendo que não necessariamente a adesão será tão grande. Isso já era esperado”, disse.

Segundo Dweck, a estatal tem buscado novas parcerias, recuperado contratos e melhorado sua capacidade operacional. Ela afirmou que a receita está acima do previsto e que os Correios vêm conseguindo reduzir prazos de entrega, o que pode ampliar a possibilidade de novos contratos.

A ministra citou ainda uma parceria em negociação com a Receita Federal, voltada à área logística. A ideia é que os Correios assumam parte da operação relacionada a materiais apreendidos pela Receita, o que, segundo ela, reduziria custos para o órgão e geraria novas receitas para a estatal.

“Está ligada à parte logística de galpões. Porque a Receita tem apreensões e acaba tendo que fazer a logística desse material. A ideia é que isso passe para os Correios. Vai reduzir custo da Receita e gerar receita para os Correios”, afirmou.

Ao comentar o resultado das estatais federais, Dweck disse que 15 empresas passam por processos de reestruturação, mas ressaltou que os maiores impactos sobre o déficit vêm dos Correios e da Emgepron, estatal ligada a projetos navais.

De acordo com a ministra, o caso dos Correios é diferente porque a falta de receita diante das despesas se transforma em prejuízo efetivo. Já a Emgepron, segundo ela, teve déficit elevado, mas também lucro e investimentos expressivos. “Correios, porque de fato é uma falta de receita frente às despesas e é um déficit que se transforma num prejuízo efetivamente. E Emgepron, que tem um déficit grande, porém um lucro grande também”, disse.

Dweck também tratou da discussão sobre os chamados penduricalhos nos Poderes. Ela afirmou que o governo já tem uma linha geral para um projeto sobre o tema, mas pretende dialogar com os demais Poderes antes de definir o momento de envio ao Congresso. “A gente internamente no governo já tem uma linha geral do nosso projeto, mas ainda pretendemos fazer uma conversa com os outros Poderes e avaliar o momento ideal de enviar o projeto para o Congresso”, afirmou.

A ministra demonstrou preocupação com um eventual aumento expressivo do teto salarial do funcionalismo, atualmente em R$ 46,3 mil. Segundo ela, reajustes podem ocorrer, mas o governo espera que fiquem dentro de parâmetros inflacionários, sem criar espaço para acomodar pagamentos considerados inadequados fora do teto.

“Temos muita preocupação, por exemplo, com o aumento do teto. Reajustes no teto acontecem e a imaginamos que no próximo período vai acontecer, mas esperamos que seja um reajuste dentro das questões inflacionárias e não um grande aumento para acomodar coisas que são pagas extrateto de forma equivocada”, disse.

Dweck afirmou que, no Executivo, cerca de 1% de servidores ativos, pensionistas e inativos têm abatimento pelo teto constitucional. Ela disse ainda que os pagamentos indenizatórios no Executivo possuem base legal, diferentemente de práticas adotadas em outros Poderes com base em decisões administrativas.

A ministra também comentou a regra de transição do Supremo Tribunal Federal que trouxe de volta o quinquênio no Judiciário. Para ela, a medida cria distorções entre os Poderes, mas é menos problemática para o Executivo do que um aumento amplo do teto salarial.

“Gera uma distorção entre um Poder e outro. Mas, enquanto não afetar nenhuma carreira do Executivo, conseguimos segurar a pressão no Executivo. Para nós, isso é melhor do que um aumento simplesmente do teto”, declarou.

Outro tema abordado foi a decisão do ministro Flávio Dino, do STF, sobre a Comissão de Valores Mobiliários (CVM). No mês passado, o magistrado determinou que pelo menos 70% da arrecadação da taxa de fiscalização dos mercados de títulos e valores mobiliários sejam destinados à autarquia. Também determinou que a União apresentasse um plano de reestruturação da fiscalização do setor para 2026 e um projeto complementar de médio prazo.

Dweck classificou como “muito ruim” a interferência judicial que determina contratações específicas em órgãos públicos, porque, segundo ela, isso interfere no planejamento geral do Executivo e pode deslocar recursos de áreas ainda mais carentes.

“É muito ruim quando vem uma decisão mandando contratar naquele órgão, porque às vezes eu estou deixando de contratar no outro, que está com problemas ainda maiores. E o limite orçamentário está dado”, afirmou.

A ministra disse que a situação da CVM reflete o quadro encontrado pelo governo em diferentes órgãos públicos após o período de 2016 a 2022. Segundo ela, havia carência de pessoal, orçamento e estrutura em várias áreas do Estado.

“Quando chegamos, a realidade de todos os órgãos era de carência de pessoal, orçamento, estrutura. Na CVM, aumentamos os cargos de comissão para poder ter estrutura, criamos áreas novas, autorizamos o concurso, chamamos excedentes do concurso e houve aumento de orçamento”, afirmou.

Apesar disso, Dweck reconheceu que as medidas adotadas ainda não foram suficientes. Ela citou também Banco Central e Ibama como exemplos de órgãos que enfrentam deficiências estruturais. Para a ministra, a recomposição precisa respeitar as regras fiscais e os limites orçamentários.

“Teve uma reestruturação, mas não foi suficiente, assim como não foi suficiente na grande maioria das áreas. Temos restrições fiscais, limites do que podemos fazer. A gente está recompondo dentro das regras fiscais”, disse.

Ao comentar a manifestação da CVM em audiência pública, a ministra afirmou que a autarquia apresentou informações equivocadas ao dizer que não havia concurso nem reestruturação. Ela, no entanto, rejeitou a ideia de insubordinação.

“Não é insubordinação. Todo gestor olha para o dele. E está com dificuldade. Não nego isso”, declarou.

Dweck afirmou que o governo tem feito um “trabalho hercúleo” para recompor a capacidade do Estado, mas dentro das limitações fiscais. Segundo ela, o Executivo conseguiu manter estável o percentual do PIB destinado a gastos com pessoal.

“Estamos fazendo um monte de coisa para reestruturar a capacidade do Estado de fazer entregas e precisamos trabalhar dentro dos limites orçamentários. Conseguimos manter o mesmo percentual do PIB no gasto com o pessoal no Executivo. Estamos fazendo um trabalho hercúleo de reestruturação diante da destruição que foi feita antes”, disse.

Sobre o Banco Central, a ministra afirmou que há uma proposta para dar autonomia financeira à instituição sem alterar sua natureza jurídica, o regime dos servidores nem a relação entre o BC e o Tesouro. A ideia, segundo ela, é permitir mais flexibilidade em investimentos e contratações na área de tecnologia da informação.

“É uma lógica de autonomia financeira para que o BC possa fazer investimento e ter algum tipo de flexibilidade de contratação até na área de TI”, afirmou.

Dweck também rejeitou a ideia de que uma ampla Reforma Administrativa dependa de uma única medida. Para ela, a modernização do Estado deve ser construída de forma contínua, com ações em diferentes frentes, como pessoal, transformação digital e organização administrativa.

“Não existe uma bala de prata para a Reforma Administrativa. Esse é um processo que precisa ser trabalhado quase cotidianamente”, afirmou.

Segundo a ministra, o governo já fez mais de 50 medidas nas áreas de pessoal, digitalização e organização do Estado, algumas com ganhos orçamentários e financeiros. Ela defendeu ainda a ampliação da cooperação entre União, estados e municípios na agenda de governo digital.

“A parceria que a gente está fazendo de governo digital com os estados e municípios já têm um potencial gigantesco de economia, de custo, de melhora de serviço e de ter um Estado mais moderno e atuante”, disse.

Crédito: Brasil 247

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