Alckmin: “Para o Brasil, voar não é luxo, é necessidade”

Vice-presidente abre assembleia geral da IATA lembrando pioneiros Bartolomeu de Gusmão e Santos Dumont - e também cortes de impostos para o setor aéreo

Geraldo Alckmin discursa durante assembleia anual da IATA realizada no Rio de Janeiro.
Geraldo Alckmin, 3 de junho de 2026 (Foto: Cadu Gomes/VPR)

BRASIL 247 – O vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, prestigiou a assembleia geral anual da IATA – International Air Transport Association – lembrando, em pronunciamento presencial na manhã deste domingo (7), que o Brasil tem não apenas um, mas dois pioneiros da aviação global. “Antes de Santos Dumont, o jesuíta Bartolomeu de Gusmão, nascido em Santos, no século 17, já era conhecido como o ‘padre voador’, em razão de ter feito um balão de ar quente que voou diante da população reunida”, lembrou. “O Brasil está, portanto, na base desta indústria que mudou o mundo.”

A assembleia geral anual da IATA está sendo realizada no Brasil depois de 27 anos de o evento ter ocorrido no país pela última vez. A Latam Airlines Group é anfitriã e organizadora do encontro, que reúne no Rio de Janeiro, até a segunda-feira (8), centenas dirigentes das principais companhias globais do setor. “Nestes 27 anos, a aviação, o Brasil e o mundo mudaram para melhor”, assinalou o vice-presidente.

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Muito aplaudido, Alckmin afirmou que, para um país com as dimensões continentais como o Brasil, “o avião não é um luxo, mas uma necessidade, sendo um instrumento de integração nacional”. Ele sublinhou que “o governo do presidente Lula compreende a aviação como política de estado. “Desde 2024, já realizamos 42 obras de modernização em mais de 30 aeroportos, com investimentos de 3,2 bilhões de reais”, contabilizou. “Trabalhamos com o sentido de integrar aeroportos regionais e ampliar o acesso a voos”.

Na área tributária, Alckmin lembrou que o governo federal reduziu a zero a cobrança de PIS e Cofins sobre o transporte regular de passageiros. “Igualmente, estamos reduzindo progressivamente o IRRF sobre o leasing de aeronaves, possibilitando economia de centenas de milhares de reais para as companhias aéreas.”

Um ponto alto do pronunciamento foi o destaque dado por Alckmin à capacidade de o Brasil produzir o combustível sustentável para a aviação (SAF). “Temos uma vantagem comparativa sobre o mundo”, afirmou. “Produzimos a matéria prima e a nossa agroindústria sabe fazer o SAF, que irá atender a crescente, legítima e urgente necessidade pela descarbonização da aviação.”

O vice-presidente sublinhou, ao fechar seu pronunciamento, os valores civilizatórios da aviação global. “Voar promove aproximações, democratiza oportunidades  e promove a integração global”, definiu.

A dura mensagem do diretor-geral da IATA

Em um auditório a 50 passos da ensolarada praia da Barra da Tijuca, a mensagem emitida pelo executivo irlandês Willie Walsh não teve nada de sombra e água fresca na direção de governos, fabricantes de aeronaves e integrantes da cadeia logística da aviação global. Às vésperas de deixar o cargo de diretor-geral da IATA – International Air Transport Association -, Walsh fez na manhã deste domingo (7) um discurso duro e objetivo aos cerca de dois mil representantes de companhias aéreas presentes à 82ª Assembleia Geral Anual da entidade.

Apoiado em números, informações públicas e de bastidores, ele classificou como “desonestas e inaceitáveis” diferentes posturas existentes no universo bilionário e intrincado à volta dos voos domésticos e internacionais no mundo. “As companhias aéreas têm o compromisso de neutralizar a emissões de carbono até 2050”, lembrou o executivo. “Ainda tenho esperança de que isso possa acontecer, mas certamente não conseguiremos fazer sozinhos, disse ele.

“A cadeia de suprimentos da aviação continua falhando na entrega de aeronaves e motores mais eficientes e sustentáveis”, apontou Walsh. “Há uma profunda decepção entre os clientes”, frisou. “Parem de nos enganar e voltem a entregar, de uma vez por todas, motores de excelência. Prolongar isso para a próxima década é inaceitável”.

O dirigente apontou a tributação excessiva por parte de administrações nacionais, a leniência de fabricantes de aviões e interesses corporativos e comerciais como fatores de atraso para a evolução sustentável do setor aéreo. A reclamação é compreensível. Segundo os dados da IATA, as empresas aéreas estão avançando em eficiência e sustentabilidade, mas esse esforço não está sendo correspondido pela cadeia de suprimentos da aviação. No ano passado, ganhos de eficiência operacional alcançados pelas aéreas, calculados em US$ 11 bilhões, foram perdidos pelas companhias em razão de aumentos em tributos nacionais, incentivos à produção de combustíveis poluentes e interesses corporativos.

“Os subsídios existentes no mundo para os combustíveis fósseis são irresistíveis”, criticou Walsh. “Por outro lado, o boicote de muitos países ao Corsia é desonesto e inaceitável”, agregou, referindo-se ao Esquema de Compensação e Redução de Carbono para Aviação Internacional, na sigla em inglês. “A demanda das nossas companhias por SAF (Combustível Sustentável de Aviação) é crescente, mas não há incentivos para que a produção aumente no ritmo necessário”. Para ele, “a decisão política de incentivar a SAF parece óbvia, mas o populismo de muitos governos vai em outra direção.”

Interesses corporativos existentes nos principais aeroportos do mundo foram apontados como mais um elemento de atraso para a maior eficiência do setor aéreo. “Chegamos ao absurdo, no aeroporto de Bruxelas, de operadores de tráfego aéreo conseguirem barrar a construção de uma torre digital que iria tornar o tráfego mais seguro e limpo”, nomeou. A crítica se estendeu a um dos aeroportos mais movimentados do mundo, em Londres. “Heathrow anseia por crescimento, mas administradores e acionistas têm feito planos em que os lucros estão em primeiro lugar. É ultrajante”. Ele projetou que o aeroporto da Cidade do México deverá sofrer com o aumento da demanda provocado pela Copa do Mundo, que começa no próximo sábado (14), em razão de falta de melhorias em sua infraestrutura.

O aumento nos preços do petróleo está custando, até aqui, acréscimos de US$ 100 bilhões nos orçamentos das companhias aéreas. A demanda por voos comerciais está crescendo abaixo do esperado, em pouco mais de 2,1%. Com isso, os ganhos somados cairão, neste ano, para projetados US$ 23 bilhões, contra US$ 45 bilhões no ano passado. As margens estão espremidas, caindo de 4% para 2% no atual exercício.

Apesar do aperto, Walsh demonstrou que, na ampla cadeia da aviação, as companhias aéreas estão em alta com o público. “Pesquisas da IATA no ano passado revelaram que 97 por cento dos passageiros se sentiram satisfeitos em seu último voo”, contabilizou. “E 70 por cento consideraram que receberam um tratamento justo das companhias durante suas viagens”. No entanto, os ganhos das aéreas não têm acompanhado esses índice de satisfação.

“A globalização existe porque nós, companhias aéreas, existimos”, definiu o dirigente. “No ano passado, transportamos 5 bilhões de pessoas, que participaram de negócios com valor estimado em 4 trilhões de dólares. Esse é o serviço que prestamos ao mundo.”

Neste momento, a IATA realiza gestões na ONU para modificar o sistema de tributação sobre a aviação, no sentido criar padrão global de cobranças. “O modelo de tributar uma companhia aérea pelo endereço da sua sede é anacrônico”, julgou. “Na Tailândia, os tributos representam mais de 80 por cento do preço das passagens. “No Brasil, o imposto de 26,5% encarece o valor médio das passagens em 195 dólares”, pontuou. “É preciso entender que voar não tem de ser visto como um luxo, mas como uma necessidade”, comparou. “A aviação torna o mundo um lugar melhor”.

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