O setor público consolidado registrou superávit primário de R$ 103,7 bilhões em janeiro, segundo dados divulgados nesta sexta-feira (27) pelo Banco Central do Brasil. O resultado reúne as contas do governo federal, dos estados, dos municípios e das empresas estatais.
O superávit primário ocorre quando as receitas com impostos e tributos superam as despesas, desconsiderando os juros da dívida pública. Caso as despesas fiquem acima das receitas, o resultado é um déficit primário.
No início de 2026, houve leve piora em comparação a janeiro de 2025, quando o resultado positivo somou R$ 104,1 bilhões (sem ajuste pela inflação). Tradicionalmente, o primeiro mês do ano concentra forte arrecadação federal, o que costuma impulsionar o desempenho das contas públicas nesse período.
Como cada ente contribuiu
O resultado de janeiro foi puxado principalmente pelo governo federal, que apresentou superávit de R$ 87,3 bilhões. Estados e municípios também contribuíram, com saldo positivo de R$ 21,3 bilhões. Já as empresas estatais registraram déficit de R$ 4,9 bilhões no mês.
Quando se incluem os juros da dívida, conceito conhecido no mercado como resultado nominal e utilizado em comparações internacionais, o setor público apresentou superávit de R$ 40,1 bilhões em janeiro.
Entretanto, no acumulado de 12 meses até janeiro, o resultado nominal foi negativo em R$ 1,09 trilhão, equivalente a 8,5% do Produto Interno Bruto (PIB). Esse indicador é acompanhado de perto por agências de classificação de risco e investidores, pois influencia a percepção sobre a capacidade de pagamento do país.
Segundo o Banco Central, as despesas com juros nominais somaram R$ 1,03 trilhão (8,1% do PIB) no período de 12 meses encerrado em janeiro. O resultado nominal também é impactado pelas operações do BC no câmbio e pela taxa básica de juros, a Selic, atualmente em 15% ao ano, o nível mais alto em quase duas décadas.
Dívida permanece elevada
Mesmo com o superávit primário expressivo no mês, a dívida bruta do setor público consolidado ficou estável em 78,7% do PIB, o equivalente a R$ 10,1 trilhões. Esse é o maior patamar desde novembro de 2025, quando atingiu 79% do PIB (dado revisado).
Na gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a dívida avançou 7,1 pontos percentuais em pouco mais de três anos, movimento associado principalmente à expansão dos gastos públicos.
Pelo critério adotado pelo Fundo Monetário Internacional, que inclui títulos públicos na carteira do Banco Central, o endividamento brasileiro foi ainda maior em janeiro: 92,7% do PIB. Nesse nível, acima de 90%, o Brasil supera a média de países emergentes, de nações sul-americanas e também da Zona do Euro, conforme dados do organismo internacional.
Estatais têm pior desempenho da série histórica
O ponto de maior deterioração nas contas foi o resultado das estatais federais. Em janeiro, o déficit somou R$ 3,33 bilhões, o pior desempenho desde o início da série histórica do Banco Central, em dezembro de 2001 (sem correção pela inflação).
Em relação ao PIB, o rombo atingiu 0,33%, o maior percentual desde maio de 2009, quando ficou em 0,36% do PIB.
O Banco Central não detalha os números por empresa, mas o resultado ocorre em meio à crise financeira enfrentada pelos Correios, que passam por deterioração contábil. A estatal detém monopólio em serviços como envio de cartas, cartões-postais e emissão de selos.
Nesta semana, o governo ampliou o limite para que os Correios possam contratar empréstimos com garantia da União, permitindo nova captação de até R$ 8 bilhões. No fim do ano passado, a empresa já havia obtido R$ 12 bilhões em financiamentos.
A série do Banco Central sobre estatais federais exclui a Petrobras, a Eletrobras e instituições financeiras públicas. Essas companhias foram retiradas do cálculo em 2009, com revisão retroativa dos dados a partir de 2002.
Entram na conta empresas como Emgepron, Hemobrás, Casa da Moeda, Infraero, Serpro, Dataprev e Emgea.