Montadoras pressionam Lula para acabar com isenção de carros elétricos importados

(Foto: AP Photo/Ng Han Guan)

As principais montadoras do país enviaram uma carta ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva cobrando o fim de benefícios fiscais para a importação de veículos elétricos desmontados. Os executivos alegam que a prorrogação desses incentivos cria concorrência desleal e ameaça diretamente os investimentos na indústria nacional.

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O documento, segundo a Folha de São Paulo, é datado de 16 de janeiro de 2026 e foi assinado por Ciro Possobom, presidente da Volkswagen do Brasil; Herlander Zola, presidente da Stellantis Automóveis do Brasil; Evandro Maggio, presidente da Toyota do Brasil; e Santiago Chamorro, presidente da General Motors do Brasil.

Carta ao presidente

Na carta enviada a Lula e também compartilhada com ministros do governo, os executivos questionam a redução temporária do imposto de importação para kits CKD e SKD, criada em agosto do ano anterior e válida até 31 de janeiro deste ano. Para eles, o incentivo favorece empresas que não mantêm um processo industrial completo no país, utilizando o Brasil apenas como etapa final de integração de componentes produzidos no exterior.

“Esta não é uma discussão sobre fechar o mercado ou resistir à concorrência. Trata-se de assegurar coerência entre o discurso de fortalecimento da indústria nacional e os instrumentos efetivos de política pública”, afirmam os presidentes das montadoras no documento.

Críticas à isenção para kits importados

Os executivos sustentam que a importação deve ter caráter transitório, restrito a situações como introdução de novos produtos ou testes de mercado. “O país conhece bem o custo de decisões tomadas sem visão de longo prazo e, no cenário atual, não seria positivo enviar ao ambiente de negócios o sinal de que importar se torna mais estratégico do que produzir no Brasil”, escreveram.

Eles também alertam para os impactos de longo prazo das decisões em debate. “As consequências das escolhas feitas agora não serão imediatas, mas serão duradouras”, afirmam.

Diferenças entre CKD e SKD

Os kits CKD e SKD são conjuntos de peças utilizados pelas montadoras para montagem local de veículos a partir de componentes importados. No modelo CKD, o automóvel chega totalmente desmontado, exigindo etapas industriais mais complexas no país de destino, como soldagem, pintura e integração final. Já no SKD, o veículo vem parcialmente montado, com grandes conjuntos prontos, reduzindo o número de processos produtivos locais. Segundo o setor, quanto mais próximo do modelo SKD, menor é a geração de empregos e a participação de fornecedores nacionais na cadeia produtiva.

Investimentos da BYD no Brasil

Em 2025, a BYD anunciou a implantação de uma planta industrial em Camaçari, na Bahia, utilizando kits CKD. A empresa assumiu a antiga fábrica da Ford e anunciou um investimento estimado em R$ 5,5 bilhões, com capacidade inicial para produzir 150 mil veículos por ano, podendo chegar a 600 mil unidades anuais em etapas futuras.

O benefício fiscal em discussão permitiu isenção total de importações dentro de um limite de até US$ 463 milhões por um período de seis meses. Até o momento, não houve pedido formal de renovação do incentivo.

Divergências dentro do governo

O tema ganhou relevância adicional diante da previsão de uma reunião no Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio com Tyler Li, presidente da BYD. No setor automotivo, é corrente a avaliação de que os interesses da montadora chinesa contam com apoio do ministro da Casa Civil, Rui Costa, em razão dos investimentos anunciados na Bahia. Já o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, tem demonstrado resistência à extensão do benefício.

Os executivos destacam ainda a dimensão da cadeia automotiva brasileira, que emprega mais de 1,3 milhão de trabalhadores e sustenta centenas de fornecedores. “Essa base produtiva não se construiu de uma hora para outra e tampouco se preserva sem coerência nas decisões de política pública”, afirmam.

Procuradas, as empresas citadas e o governo federal se manifestaram de forma limitada. Em nota, a Volkswagen do Brasil declarou que a não renovação do benefício “é fundamental para preservar a isonomia e competitividade da indústria nacional, fomentar a empregabilidade, estimular a cadeia produtiva nacional e assegurar a previsibilidade regulatória para a transição tecnológica e sustentável do setor automotivo brasileiro”. As demais montadoras, incluindo a BYD, e o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio não se manifestaram até a publicação da reportagem.

Crédito: Brasil 247

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