Mulheres ocupam apenas 19% das vagas em TI no Brasil, apesar do crescimento do setor

Especialistas e profissionais da área defendem ações concretas para ampliar a participação feminina na tecnologia

Mesmo estando entre os setores que mais crescem no Brasil, a área de Tecnologia da Informação (TI) ainda apresenta uma baixa participação feminina. De acordo com o estudo W-Tech 2025, do Observatório Softex, apenas 19,2% dos profissionais de tecnologia são mulheres, o que representa cerca de 90 mil trabalhadoras em um universo de quase 500 mil pessoas empregadas no setor. 

Para a especialista de marketing Samyra Ramos, da Higlobe, fintech de pagamentos voltada a profissionais brasileiros que atuam remotamente para empresas dos Estados Unidos, o cenário exige mudanças estruturais por parte das companhias. 

“Não é mais uma novidade a corrida das empresas por aprimorar seus requisitos de contratação. Mesmo que ainda haja certa distância do número ideal, mulheres têm se inserido em novos espaços, encontrando novas formas de contratações, presenciais ou remotas para o exterior”, afirma Samyra.

Na prática, porém, a desigualdade ainda é evidente. A desenvolvedora fullstack, Jasmine Maria Ribeiro, avalia que a principal barreira para a entrada de mulheres em TI está na falta de oportunidades reais. 

“Muitas empresas falam sobre inclusão, mas na prática ainda contratam majoritariamente homens ou não criam ambientes verdadeiramente acolhedores. Além disso, existe um desestímulo desde cedo, com a ideia de que tecnologia não é para mulheres”, comenta Jasmine.

Mesmo antes da inserção no mercado de trabalho, ela relata que a desigualdade já se manifesta. “Mesmo sem experiência profissional formal, já presenciei situações acadêmicas e sociais em que mulheres na tecnologia são questionadas quanto à sua capacidade, enquanto homens raramente passam pelo mesmo tipo de desconfiança”, relata.

Outro ponto é a falta de representatividade feminina em cargos técnicos e de liderança. Para Jasmine, essa ausência influencia diretamente a permanência das mulheres no setor. “Quando não vemos outras mulheres ocupando espaços, cargos técnicos ou posições de liderança, é mais difícil acreditar que aquele também pode ser o nosso lugar. A representatividade funciona como incentivo”, explica.

Apesar do discurso crescente sobre diversidade, a Coordenadora de Ciência e Tecnologia da Informação do PT-PB, Eva Maria Lima, avalia que muitas empresas ainda tratam o tema de forma superficial. “Muitas iniciativas se limitam a discursos institucionais, campanhas pontuais ou metas numéricas de contratação, remodelar as estruturas que sustentam a exclusão. Falta compromisso com políticas de permanência, promoção e participação real de mulheres nos espaços de decisão”, afirma.

De acordo com Eva, as situações de discriminação ainda são mais corriqueiras quando se tratam de pessoas negras e trans. “Enquanto travesti que ocupa espaços de decisão, é necessário me impor e seguir reafirmando minha legitimidade e minha competência. A presença de corpos como o meu nesses lugares ainda é vista como um desvio, o que nos obriga a adotar uma postura constante de enfrentamento para garantir que nossas vozes sejam ouvidas e respeitadas”, destaca.

Com base na experiência no setor, Samyra Ramos aponta quatro práticas que podem ajudar a ampliar a presença feminina na tecnologia: a criação de vagas afirmativas, a oferta de oportunidades para profissionais em início de carreira, a valorização de habilidades construtivas nos processos seletivos e a busca por talentos em ambientes diversos, como comunidades e organizações voltadas à inclusão de mulheres em TI.

A especialista destaca que mulheres tendem a se candidatar menos quando não atendem a todos os requisitos técnicos exigidos. Dados do LinkedIn indicam que elas se candidatam a 20% menos vagas do que os homens, o que reforça a necessidade de processos seletivos mais inclusivos.

Para quem deseja ingressar ou permanecer na área, Eva deixa uma recomendação. “ Temos que nos fortalecer enquanto mulheres, apoiar iniciativas feitas por e para mulheres e ocupar esses espaços juntas é um caminho potente não só para permanecer, mas para transformar a tecnologia a partir de outras lógicas”, diz.

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