A pejotização, prática em que profissionais são contratados como pessoa jurídica em vez de carteira assinada, vem se intensificando no Brasil. De acordo com dados do eSocial, entre janeiro de 2022 e julho de 2025, cerca de 5,5 milhões de trabalhadores demitidos mudaram para a condição de pessoa jurídica.
A pejotização altera a lógica das relações trabalhistas, tirando do trabalhador garantias como férias, 13º salário, FGTS e aviso prévio. Em entrevista exclusiva ao Portal WSCOM, o desenvolvedor web, Carlos Penaforte, explica que escolheu trabalhar no regime CLT principalmente pela estabilidade. “A segurança de ter um contrato formal, com benefícios e garantias, pesou mais do que a flexibilidade que o modelo PJ poderia oferecer”, disse.
Ele destaca também que já recebeu propostas para trabalhar como PJ, principalmente em formato freelancer, e apesar de ter aceitado algumas, quando se tratavam de projetos pontuais, Carlos afirma que prefere manter o vínculo CLT no dia a dia por conta da previsibilidade.
“Quando colocamos na ponta do lápis os benefícios, como seguro-desemprego, 13º salário e um terço de férias, muitas vezes o regime CLT acaba sendo economicamente mais vantajoso. Muita gente pensa que o PJ sempre ganha mais, mas, na prática, o custo dos direitos trabalhistas faz diferença, principalmente em momentos de instabilidade”, ressaltou Carlos.
O desenvolvedor de web comentou também sobre o aumento nítido da pejotização no setor de tecnologia. “ Muitas empresas estão propondo modelos PJ que, na prática, reproduzem uma relação de subordinação típica de CLT. Isso acaba precarizando o vínculo e colocando todos, inclusive os CLTs, em uma posição mais vulnerável, pois pressiona por condições menos equilibradas”, explicou.
Apesar disso, o contrato PJ ainda pode ser visto como benefício para outros trabalhadores. O programador, Lucas de Lucena Siqueira, é um exemplo. Antes contratado como CLT por uma empresa de software em Belo Horizonte, ele se tornou PJ quando surgiram novas oportunidades no mercado de marketing digital, momento em que percebeu vantagens financeiras e maior liberdade de trabalho.
“A decisão foi minha. Vi que havia oportunidades e riscos, mas resolvi assumir. A maior diferença que senti foi a tributação. Como CLT, metade do que entra é imposto. Como PJ, tenho mais liberdade e posso faturar mais, mas assumo todos os riscos”, afirma ele.
Lucas destaca que a flexibilidade é um atrativo para desenvolvedores: demandas são entregues por tarefa, e não por carga horária. Para ele, isso aumenta a produtividade e melhora a relação com os prazos, embora exija organização e disciplina.
“Com CLT, a empresa paga férias, 13º, FGTS. Isso enxuga a margem de lucro. Se a margem cai abaixo de 30%, muitas empresas deixam de ser viáveis. Contratar PJ reduz tributos e aumenta a chance de a empresa sobreviver”, disse.
Se por um lado há aumento potencial de renda e liberdade, por outro há riscos permanentes. Lucas relata que o maior impacto é a inexistência de proteção trabalhista.“Quando você é PJ, você não tem 13º, férias, FGTS. A única desvantagem é o risco, se você não fizer sua parte, ninguém vai te proteger”, ressaltou.