Energia solar e agroecologia transformam rotina de famílias no Sertão paraibano

Projeto Comunidades Solares ressignifica relação com o sol, forma jovens em energias renováveis e fortalece agricultura sustentável em Poço Dantas e Poço de José de Moura

Foto: Elidon Silva

No Sertão paraibano, o sol, por muito tempo associado à seca e às dificuldades, tem ganhado um novo significado. Em Poço Dantas e Poço de José de Moura, moradores veem a chegada da energia solar e de práticas agroecológicas como um divisor de águas nas rotinas. A mudança é impulsionada pelo Projeto Comunidades Solares, iniciativa da ONG Pisada do Sertão.

O agricultor Elidon Silva, da comunidade de Lages, comenta que desde que passou a utilizar sistemas solares em sua produção, conseguiu reduzir em 80% o gasto com energia elétrica, usando o recurso para irrigar hortas sem comprometer o orçamento familiar. “Foi uma experiência muito boa, uma energia potente e uma redução do custo de energia de 80%. Agora posso usar bomba para irrigar as hortas sem pesar no bolso”, contou.

Formação para agricultores e jovens

Coordenado pelo tecnólogo em agroecologia Pedro Alves, o projeto atua em duas frentes principais. A primeira oferece cursos para 60 famílias agricultoras, com temas como manejo ecológico do solo, produção sustentável, convivência com o semiárido, organização social e liderança comunitária. A segunda prepara cerca de 80 adolescentes de 14 a 17 anos por meio de um curso de energias renováveis com teoria, prática e experimentação científica.

“Durante muito tempo, o sol foi visto como problema, mas hoje se revela como fonte de energia. O projeto vem trazendo esse novo olhar para dentro das comunidades”, afirma Pedro. Segundo ele, a juventude tem se mostrado especialmente engajada ao perceber a presença concreta da energia solar no dia a dia local. “Eles aprendem como a energia solar funciona, seus benefícios e como essa tecnologia pode gerar oportunidades num futuro mercado de trabalho”, disse.

Agroecologia e pertencimento

As oficinas têm provocado mudanças significativas no comportamento e nas práticas produtivas. Agricultores passaram a adotar técnicas livres de agroquímicos, criaram hortas mais diversas e saudáveis e intensificaram a troca de conhecimentos entre vizinhos. Nos últimos três meses, um dos resultados mais simbólicos foi o plantio de 170 árvores.

Elidon diz que as formações mudaram sua forma de lidar com a terra. Ele relata ter aprendido a fazer compostagem, manejar pragas de forma natural, criar minhocários e estruturar sistemas produtivos mais sustentáveis. Além disso, passou a criar abelhas sem ferrão, tecnologia incentivada pelo projeto por fortalecer a polinização e inserir novas possibilidades produtivas, como a fabricação de mel para remédios naturais. “Com o conhecimento adquirido, agora posso produzir alimentos mais saudáveis, como as hortaliças”, afirma.

O Comunidades Solares conta com apoio das prefeituras locais e do Instituto Federal da Paraíba (IFPB), Campus Sousa e Campus Cajazeiras, considerados por Pedro peças fundamentais para consolidar a iniciativa. Apesar do avanço, o coordenador reconhece obstáculos, como a forte influência da agricultura convencional, a resistência a novos hábitos e a falta de investimentos específicos. “Na agroecologia, o processo é mais lento; é preciso tempo e vivência prática para provar que dá certo”, afirma.

Entre os jovens, o interesse existe, mas a permanência no campo ainda enfrenta barreiras como baixa remuneração, falta de crédito e poucas opções culturais. “Eles se interessam e se empolgam com o que veem, mas precisamos fortalecer a agricultura familiar para que encontrem oportunidades aqui”, avalia Pedro.

Ressignificando o Sertão

Para além do impacto produtivo, o projeto tem contribuído para transformar a visão da própria população sobre a região onde vive. “As pessoas começam a entender que o Sertão não é só escassez. É um território estratégico para energias renováveis e cheio de potencial”, afirma Pedro.

Ele diz que o envolvimento com a iniciativa tem significado pessoal e político. “Esse projeto me dá a chance de devolver algo à minha terra. É como ver um sonho se tornando realidade, junto com as famílias que confiam no nosso trabalho”, destacou. Para o coordenador, ver o sol deixar de simbolizar dificuldade e se tornar fonte de vida, energia e novas possibilidades resume a missão do Comunidades Solares.

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