OPINIÃO ‘O último homem: o que temos a re(aprender) na relação Economia e o meio ambiente?’, por Márcia Batista da Fonseca

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O último homem: o que temos a re(aprender) na relação Economia e o meio ambiente? 

“Onde estava a praga? ‘Aqui – em todos os lugares!’, Exclamou uma voz de horror e consternação, quando, nos dias agradáveis de um ensolarado maio, o Destruidor do homem pairava novamente sobre a terra, forçando o espírito a abandonar sua crisálida orgânica, a entrar e a viver sem experimentar. Com uma poderosa varredura de sua arma potente, toda cautela, todo cuidado, toda prudência foram reduzidas: a morte sentou-se às mesas dos grandes, reprimiu o homem corajoso que resistia: o desânimo entrou em todos os corações, a tristeza obscureceu todos os olhos”, trecho de “O último homem” de Mary Shelley, 1826. 

Mary Shelley, é muito conhecida por sua obra Frankenstein, publicada oito anos antes de “O último homem” que veio a conhecimento público pela primeira vez em 1826. O texto gótico, apocalíptico, trata de uma pandemia provocada por uma peste que afeta Londres, Europa, Américas e o resto do mundo, no século XXI. A medicina não consegue, verão após verão, encontrar uma solução e os homens vão morrendo consecutivamente acometidos pela praga. E enquanto os homens desaparecem a natureza volta com toda sua força a se mostrar bela, com cidades sendo tomadas por espécies que não estariam ali se o homem continuasse a existir, na mesma proporção. 

O romance foi escrito em plena revolução industrial, exploração do trabalho e destruição desenfreada do ambiente natural. As espécies da natureza se adaptando a mudança sob a égide do Darwinismo, onde só os fortes sobrevivem. A poluição do ar, da água, dos rios, passa a chamar a atenção dos grandes centros na Europa, e a teoria econômica mostra que o homem deveria retirar da natureza todos os recursos que necessitasse e que não haveria produção sem degradação. Na verdade, para equacionar o problema de escolha, encontra-se o conceito de externalidade, formulado originalmente por Pigou (1920) que mostra que apesar de ocorrerem no processo produtivo, as externalidades negativas, poderiam ser internalizadas para resolver a falha do mercado a partir de instrumentos regulatórios ou econômicos que provocassem uma alocação mais eficiente dos recursos. 

Esse trade off entre economia e meio ambiente vigora até os dias atuais, mesmo com a internalização das externalidades, em pleno século XXI as questões ambientais continuam sendo relegadas a segundo plano. O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) afirmou em relatório de 2016 a medida que habitats selvagens são destruídos pela ação humana e há grande probabilidade de que ocorram pandemias, mais objetivamente, ameaças aos ecossistemas e à vida selvagem, entre elas, a redução e fragmentação de habitats, a poluição, a proliferação de espécies invasoras e, cada vez mais, as mudanças climáticas, estão diretamente relacionadas a existência de pandemias. O enfoque do One Health preconizado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), aparece como uma solução transversal relacionando sociedade e natureza na implementação de programas, políticas, legislação e pesquisa nas quais vários setores se comunicam e trabalham juntos para alcançar melhores resultados de saúde pública nos países. 

Voltando-se especialmente para o caso do Brasil e a situação provocada pela pandemia, o país caminha para ser o novo epicentro da covid-19 no mundo devido a velocidade da evolução dos casos. Entre março e maio de 2020 acumulam-se 17000 mortes por covid-19 no Brasil. Segundo dados da OMS, o país já é o 18º no mundo em maior número de casos de mortes por milhão de habitantes, tendo 76 mortes por mil/hab, ficando acima da média mundial de 39 casos e bem acima de seus parceiros no Mercosul, Argentina com 8,1, Uruguai com 5,6 e Paraguai 1,5 casos de mortes por milhão de habitantes provocadas pela Covid-19. Por outro lado, as restrições ambientais estão sendo afrouxadas, desrespeitam-se acordos e convenções internacionais, e a economia caminha em passos largos para profunda derrocada. Numa situação dessas pergunta-se qual o caminho? Existe caminho? 

Sim, e vem sendo protagonizado por iniciativas tais como a da economista inglesa Kate Raworth que em 2017 criou o Modelo Donut. Este, tem como objetivo a busca do equilíbrio entre as necessidades econômicas de países, cidades e pessoas e os recursos ambientais disponíveis. Segundo a autora, vive-se em um cenário de constante crise financeira, desigualdade econômica extrema e a produção de bens e serviços que provoca constante pressão sobre o meio ambiente. O modelo econômico atual não promove o desenvolvimento sustentável. Nesse horizonte, em maio de 2020 os Países Baixos começam a retornar a vida pós covid-19, com o relaxamento das restrições de isolamento social e Amsterdam será a primeira cidade no mundo a implantar o modelo Donut. Pioneiros que são, os neerlandeses, pretendem usar sua capital para testar o modelo que prevê uma vida com menos consumo e mais respeito as condições ambientais, dando ênfase a elementos, estabelecidos de acordo com os objetivos de desenvolvimento sustentável da Organização das Nações Unidas (ONU), como água, alimento e saúde, passando também por educação, igualdade de gênero e voz política. Para nossa realidade “estes ainda são loucos sonhos”, frase contida na última página da de “O último homem” de Marry Shelley! 

Márcia Batista da Fonseca é professora associada do Departamento de Economia, Universidade Federal da Paraíba.

Escrito por: Edney Oliveira

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