O tema volta ao palanque eleitoral, colocado como bandeira pela extrema-direita nacional. Trata-se da velha prática da antipolítica, que transfere deveres do Estado às famílias e restringe os espaços para o exercício da cidadania. Ao fazer com que crianças e adolescentes sejam excluídos da vida coletiva, a proposta os expõe a potenciais violações de direitos e a um ensino alienante, além de dificultar a fiscalização de casos de violência doméstica e de evasão escolar.
Os defensores da educação domiciliar apoiam-se, muitas vezes, em motivações religiosas e políticas para reivindicar a liberdade de escolha na educação dos filhos. Proclamam que a maioria dos professores tem vinculação a linhas ideológicas de esquerda e adota conteúdos filosóficos que interferem nos valores de suas crenças religiosas. Essas suposições, contudo, não encontram base na realidade; portanto, a denúncia de “doutrinação” no ambiente escolar mostra-se fantasiosa.
É inegável que a escola propicia uma socialização plural que a família, isoladamente, não tem condições de promover. Conviver com a diferença e a adversidade é um processo de aprendizagem no qual a instituição de ensino desempenha um papel fundamental. Além disso, educar é uma tarefa de profissionais, que envolve metodologias científicas, didática e formação continuada. Por mais que os pais tenham um bom nível de escolaridade, eles dificilmente conseguirão suprir esse tipo de especialização, visto que não possuem o preparo pedagógico transdisciplinar necessário para mediar o conhecimento em todas as áreas e etapas do desenvolvimento cognitivo.
O senador Flávio Bolsonaro, figura central na articulação política da extrema direita, atuou ativamente para tentar regulamentar a prática no Congresso, incluindo emendas polêmicas que vinculavam o ensino em casa a regulações de escolas comunitárias, uma causa abraçada por seu pai, Jair Bolsonaro, desde quando este exercia o mandato de deputado federal. Ao assumir a Presidência da República no passado, o governo da época tornou a educação domiciliar uma de suas principais pautas educacionais, chegando a estabelecê-la como meta para os primeiros cem dias de gestão. Porém, seu desejo não conseguiu ter efetividade.
O tema, portanto, é tratado não apenas como uma proposta de gestão pedagógica, mas como uma forte bandeira de mobilização eleitoral pela base bolsonarista, funcionando como ferramenta de contraposição à esquerda. Setores progressistas, entidades estudantis e especialistas em educação veem a proposta com extrema cautela, argumentando que ela enfraquece o papel da escola pública e reduz o contato dos estudantes com a diversidade social, essencial para a formação democrática.

