Nesta manhã de domingo, Dia Internacional das Mulheres, acordei e coloquei em minha playlist daquele famoso aplicativo apenas compositoras e intérpretes que transformaram a música popular brasileira nas últimas décadas.
Dessa seleção, posso destacar grandes mulheres, a exemplo de Elza Soares, Gal Costa, Alcione, Simone, Maria Bethânia, Cátia de França, Cássia Eller, Val Donato, Ivone Lara, Leci Brandão, Vanusa, Liniker, Marinez, Amelinha, Fafá de Belém, dentre tantas outras divas da MPB e da cena cultural da nossa Paraíba.
Todavia, sem dúvidas, uma intérprete que me faz “virar a cabeça” e me “tira do sério” é a Marrom, a cantora Alcione, com sua voz marcante e seus sambas que evidenciam que a força e a coragem das mulheres é para ser ouvida todos os dias.
Ao escutar Alcione, me recordo das noites de boemia, seja no antigo karaokê da Lagoa ou no Bar da saudosa Jane, em Tambaú. Contudo, um samba emblemático na luta pelos direitos das mulheres foi gravado pela Marrom em 2007, intitulado “Maria da Penha”, uma composição de Paulinho Rezende. A música, como é possível deduzir, presta uma homenagem à lei de combate à violência contra as mulheres e faz parte do álbum “De tudo que eu gosto”.
A Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006) é fruto da luta pelos direitos das mulheres e foi sancionada pelo Presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2006. Há 20 anos, as mulheres conquistaram esse dispositivo legal que provocou uma ruptura de paradigmas em todos os setores da nossa sociedade.
Essa conquista deve-se ao esforço, à força e à resiliência da ativista de direitos humanos e farmacêutica por formação de nome Maria da Penha Maia Fernandes, cuja dor soube transformar em luta pela vida de todas as mulheres brasileiras. Sobrevivente da violência doméstica e de duas tentativas de feminicídio em 1983, Maria da Penha sofreu lesão medular, perdeu seus movimentos e hoje é uma pessoa com deficiência.
A história de vida de Maria da Penha me faz recordar a resistência e o canto de Elza Soares. Muito embora tenha nos deixado em 2022, seu grito por liberdade continua ecoando por todos os lares brasileiros. Mulher negra de origem pobre e periférica, Elza foi uma das maiores intérpretes da nossa música e conquistou o mundo pela sua versatilidade e pelo poder da sua voz inconfundível – escolhida, vale o registro, a Voz do Milênio pela Rádio BBC de Londres, em 2000.
O último álbum de Elza Soares foi “No tempo da intolerância”, lançado em sua homenagem em 2023 e gravado pouco tempo antes de sua passagem deste plano terrestre. Elza, infelizmente, também foi vítima de violência doméstica praticada por homens que, em média, segundo dados do relatório da Human Rights Watch publicados mês passado, matou quatro mulheres por dia no nosso país em 2025. Ela Soares fez da sua voz a sua maior arma para enfrentar e denunciar a violência que tira das mulheres o seu direito à vida, assim como também lutou contra toda e qualquer forma de discriminação. Na música que tocou em minha playlist, a cantora pedia que a deixassem cantar até o fim. O grito afinado e profundo embalado pelos acordes da canção revela que a mulher do flm do mundo possuía uma força ancestral.
Ao me lembrar de Elza, também me lembro da garra e persistência de uma outra mulher negra que luta por emancipação, respeito e dignidade das mulheres com deficiência. Eu me lembro de Carolina Vieira, publicitária e defensora dos direitos das pessoas com deficiência.
Carol, como carinhosamente a conhecemos, é uma mulher de coragem surreal. Vítima de um acidente de trânsito que a tornou uma mulher com deficiência em 2007, Carolina costuma dizer que saiu do luto e foi para a luta.
O gene do qual Carol foi feita é o mesmo que moldou as grandes lutadoras pelo reconhecimento de direitos e pelas políticas públicas para as mulheres em João Pessoa e no estado da Paraíba. É indispensável dizer que Carolina é filha de Douraci Vieira, uma educadora popular e assistente social que sempre esteve à frente do seu tempo. Sua filha é herdeira do seu legado de defesa das mulheres e das minorias sociais.
Carolina Vieira carrega em seu corpo diversos marcadores sociais, já que é uma mulher negra, PcD, oriunda da periferia e que enfrenta diariamente o preconceito e a discriminação pelo fato de ser uma mulher cadeirante. No cotidiano, como outras milhares de mulheres com deficiência, Carol enfrenta condicionantes que poderiam tirá-la da cena pública. Contudo, ela aprendeu a ressignificar a sua dor e os seus obstáculos, sejam eles físicos ou humanos, e segue em frente todos os dias.
Carol é uma mulher inquieta e muito atuante na defesa dos direitos humanos. Hoje, preside a Associação Atlética das Pessoas com Deficiência da Paraíba (AAPD-PB), coordena o Fórum Paraibano de Pessoas com Deficiência, é modelo, consultora de políticas inclusivas e conselheira do Conselho Municipal de Saúde de João Pessoa/PB. Recentemente, tomou posse como vice-presidente do Conselho Estadual em Defesa das Pessoas com Deficiência da Paraíba (CEDPD/PB).
Carolina Vieira tornou-se um símbolo da luta das pessoas com deficiência na Paraíba e no Brasil, e hoje é um dia para celebrarmos todas as mulheridades. Daí a importância de escutarmos canções e vozes como a da cantora Liniker, uma mulher trans que exalta em uma de suas músicas que não quer mais um pouco, quer voar. E Liniker voou com força no ano passado, ganhando o Grammy Latino 2025 de melhor álbum pop contemporâneo para o projeto Caju e de melhor canção em língua portuguesa para Veludo Marrom, além de ter garantido uma terceira estatueta na categoria de melhor interpretação urbana.
Que mais mulheres negras, trans, periféricas e PcDs como a militante Carolina Vieira, a cantora Bixarte, a assistente social Gabi Benvenutty e tantas outras lutadoras do nosso povo e da nossa gente possam esperançar por dias melhores para todas as mulheres.
Por Cleudo Gomes
Educador Popular, Pedagogo e Doutor em Educação pela UFPB