A CPMI que apura as fraudes no INSS nasceu com uma missão clara: investigar, com rigor técnico e espírito republicano, o esquema de descontos indevidos nos benefícios de aposentados e pensionistas, identificando responsabilidades, cadeias de intermediação, participação de bancos e entidades associativas, além de eventuais falhas administrativas. No entanto, o que deveria ser um espaço de apuração criteriosa vem, aos olhos da opinião pública, assumindo contornos de palanque eleitoral.
O tema é grave demais para ser capturado por disputas narrativas. Milhares de aposentados — justamente os mais vulneráveis — foram atingidos por descontos que, em muitos casos, sequer autorizaram. Trata-se de um problema estrutural que exige investigação técnica, coleta de provas, cruzamento de dados, oitivas responsáveis e conclusões fundamentadas. Quando o foco se desloca da apuração para o espetáculo político, perde-se a oportunidade de produzir respostas concretas à sociedade.
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É perceptível que parte da oposição utiliza a CPMI como instrumento de desgaste ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, antecipando a polarização que tradicionalmente marca o ambiente pré-eleitoral. O debate passa a girar em torno de discursos inflamados, recortes estratégicos e construção de narrativas partidárias, em vez de se concentrar na identificação objetiva dos responsáveis, independentemente de filiação política.
Entretanto, é preciso reconhecer que CPIs e CPMIs, pela própria natureza parlamentar, sempre carregam tensão política. O desafio está em equilibrar o embate legítimo com a responsabilidade institucional. Investigar não é condenar previamente, nem absolver por conveniência. Tampouco é transformar depoimentos em peças de marketing eleitoral.
Se a comissão deseja preservar sua credibilidade, precisa resistir à tentação do espetáculo e concentrar-se naquilo que justificou sua criação: esclarecer os fatos, apontar responsabilidades e propor medidas que impeçam a repetição das fraudes. O país não precisa de mais um capítulo de guerra retórica; precisa de respostas concretas e soluções estruturais.
A sociedade brasileira, especialmente os aposentados lesados, espera menos performance e mais compromisso com a verdade.