No início da década de 1960, a televisão aportou em nossas vidas como quem chega trazendo um pedaço do futuro debaixo do braço. Era um objeto raro, caro, quase sagrado. Poucas famílias podiam exibir na sala aquela caixa mágica que prometia mostrar o mundo sem que saíssemos de casa. Para nós, meninos de rua tranquila e imaginação acesa, aquilo era simplesmente um milagre tecnológico.
As casas que possuíam televisão tornaram-se pontos de peregrinação. Surgiu então o neologismo espirituoso: “tele-vizinho”. Éramos nós — a vizinhança inteira — que nos espremíamos nas salas, sentávamos pelo chão, apoiávamos os cotovelos nas janelas, tudo para não perder um instante daquela novidade. Assistir televisão era um acontecimento coletivo.
Na nossa rua, no bairro de Jaguaribe, a preciosidade chegou primeiro à casa de Wilson Rufino, rádio-técnico habilidoso, homem respeitado por entender dos mistérios das válvulas e antenas. Era para lá que corríamos, movidos por uma curiosidade que beirava o encantamento. A imagem era em preto e branco, naturalmente. Mas alguém teve a engenhosa ideia de colocar uma película de celofane colorido sobre a tela — azul em cima, vermelho no meio, verde embaixo — para simular cores. E nós acreditávamos. Ou melhor: queríamos acreditar.
Outra casa acolhedora era a dos meus tios João Cunha e Detinha, na Avenida Trincheiras. Ali também nos aboletávamos, atentos e silenciosos, como se o menor ruído pudesse perturbar o frágil sinal captado pelas antenas.
A programação que chegava a João Pessoa vinha principalmente da TV Jornal do Comércio e da TV Rádio Clube. Do eixo Rio–São Paulo vinham os programas de auditório, com nomes que ganharam aura quase mítica: Blota Júnior, Bibi Ferreira, Airton Rodrigues. Pernambuco também produzia atrações próprias. Aos sábados, “A Noite de Black-Tie”, apresentado por Luís Geraldo, trazia o célebre quadro “Cadeira do Engraxate”, no qual Rui Cabral, caracterizado, entrevistava políticos com humor respeitoso — uma forma elegante de crítica em tempos que já ensaiavam sombras.
Aos domingos, Fernando Castelão comandava “Você Faz o Show”, reunindo música, variedades e sonhos anônimos.
Mas, para a gurizada, o que nos arrebatava mesmo eram os seriados. Vibrei com Batman, acompanhei as aventuras de Bat Masterson, torci por The Adventures of Rin Tin Tin e me emocionei com Lassie. Também prendia a respiração diante de O Fugitivo. E foi nesse período que surgiu a primeira série brasileira de grande repercussão, O Vigilante Rodoviário, prova de que também podíamos produzir nossos próprios heróis.
A Copa do Mundo de 1962 nós assistíamos com atraso de dois ou três dias. Já sabíamos os resultados pelo rádio, mas mesmo assim nos reuníamos para ver as imagens gravadas em videotape — outra inovação espantosa para aquele tempo em que ainda não existiam transmissões via satélite.
Hoje, quando cada pessoa carrega no bolso uma tela infinitamente mais potente do que aquelas primeiras televisões, custa acreditar que tudo começou assim: coletivo, improvisado, solidário. A televisão nasceu, para nós, como experiência comunitária. Não era apenas um aparelho; era ponto de encontro, motivo de convivência, exercício de partilha.
Essas lembranças não são apenas nostalgia. São fragmentos da história da televisão brasileira e da nossa própria formação. O “tele-vizinho” talvez tenha desaparecido, mas permanece como símbolo de um tempo em que o encanto era dividido — e o futuro cabia inteiro dentro de uma sala cheia de gente.