Rui Leitão: Infância submetida ao funil social

(Foto: Reprodução)

Durante cerca de quarenta anos, o sistema educacional brasileiro submeteu crianças a um ritual de seleção precoce: o exame de admissão ao ginásio, exigido após a conclusão do curso primário. Até 1971, meninos e meninas entre 10 e 12 anos eram lançados a uma lógica de competição e exclusão que revelava, desde cedo, o caráter profundamente desigual da escola brasileira.

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Era uma espécie de vestibular infantil — um ENEM antecipado, quando o Estado ainda se recusava a assumir a educação como direito universal. As vagas no curso ginasial eram poucas, e, em vez de expandir a oferta, optava-se por filtrar, selecionar, excluir. O exame de admissão funcionava como uma barreira social: quem vinha das camadas populares, sem acesso a boas escolas primárias, ficava pelo caminho. A escola, assim, deixava de ser instrumento de emancipação para se transformar em mecanismo de reprodução das hierarquias sociais.

Prosseguir nos estudos não era um direito; era um privilégio conquistado a duras penas. A meritocracia precoce escondia a desigualdade de condições e naturalizava o fracasso escolar como incapacidade individual, quando, na verdade, se tratava de uma política deliberada de restrição do acesso ao saber.

Tendo saído do Seminário, onde cursei os últimos anos do primário, transpus com relativa facilidade essa etapa da minha vida estudantil. Os seminários católicos, por razões próprias, investiam na formação intelectual rigorosa, o que contrastava com a precariedade da escola pública oferecida pelo Estado. Ainda no primário, estudávamos latim, o que facilitava o domínio da língua portuguesa. O Seminário foi, portanto, uma base decisiva para que eu pudesse enfrentar um sistema educacional concebido para poucos.

Ao perceber que não possuía vocação sacerdotal, dispus-me a prestar o exame de admissão no Colégio Pio XII, também pertencente à Arquidiocese da Paraíba, instalado ao lado da Igreja de São Francisco. O Seminário funcionava nos fundos da igreja, numa geografia simbólica em que a Igreja supria, em parte, as omissões históricas do poder público no campo educacional.

O exame consistia em provas escritas de Português, Matemática, História, Geografia e Ciências. O nervosismo era coletivo: entre os candidatos e entre as famílias, que depositavam naquele teste a esperança de romper o ciclo de exclusão. A educação era tratada como uma porta estreita, não como política pública universal.

Somente no início da década de 1970 o governo decidiu extinguir o exame de admissão ao ginásio. A medida, ainda que tardia, reconhecia implicitamente que submeter crianças a um funil seletivo era uma violência pedagógica e social. A educação não deveria ser uma corrida de obstáculos, mas um direito garantido pelo Estado.

Relembrar o exame de admissão é, portanto, recordar uma pedagogia da exclusão. É também lembrar que a democratização do ensino no Brasil sempre foi resultado de lutas, não de concessões espontâneas. A escola pública, gratuita e universal é uma conquista política, e toda tentativa de restringi-la, seletivizá-la ou mercantilizá-la precisa ser denunciada como aquilo que é: um projeto de negação do futuro para as maiorias populares.

Rui Leitao

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