Em 1953, no programa Calouros em Desfile, da Rádio Tupi, apresentado por Ary Barroso, nascia uma das mais brilhantes cantoras da música brasileira, Elza Soares. Naquele momento, surgia não apenas aquela que seria consagrada como a “voz do milênio”, mas também uma artista que, ao longo de sua trajetória, fez do canto uma forma de denúncia da violência contra a mulher e de afirmação das pautas femininas sob uma perspectiva profundamente política.
O episódio que marcou sua primeira aparição pública fez com que, aos 13 anos, ela pronunciasse uma frase de enorme densidade simbólica e política. Desesperada com o filho doente e sem dinheiro para comprar remédios, decidiu inscrever-se no programa. Deparou-se, então, com um problema aparentemente banal, mas revelador das desigualdades sociais: não possuía roupa adequada para a apresentação. Mesmo assim, sabia que aquela era sua única chance de evitar uma tragédia iminente.
Quando chamada ao palco, foi recebida com deboche pelo apresentador e com gargalhadas irônicas do auditório. Aquela garota negra, favelada e franzina trajava um vestido emprestado da mãe, que pesava 60 quilos, enquanto ela pesava apenas 32. A roupa foi ajustada ao corpo com alfinetes, o que despertou a curiosidade e o escárnio de Ary Barroso e do público.
O apresentador perguntou: “O que você veio fazer aqui, menina?”. Ela respondeu, com voz altiva: “Vim cantar”. Em seguida, ele provocou: “Mas me diga, de que planeta você veio?”. Sem hesitar, ela pronunciou a frase que se tornaria sua primeira manifestação política: “Vim do planeta fome”. Que resposta! Cantou a música Lama, composto por Paulo Marques e Alice Chaves, que fazia sucesso interpretada por Núbia Lafaiete e ganhou o prêmio.
A partir dali, além de tornar-se uma estrela da música popular brasileira, fez de sua voz uma arma contra as injustiças sociais, cantando o desassossego dos desvalidos. Em seu vasto repertório, combateu o racismo, a violência contra a mulher e a desigualdade social. Em uma entrevista, afirmou: “Precisava gritar mais, falar um pouco mais. E a música me deu esse direito, me deu essa liberdade de cantar e viver o que sinto. É isso que me dá orgulho também”. Foi, sem dúvida, uma figura emblemática da música brasileira.
Sua voz inigualável continua nos brindando com músicas inesquecíveis, que permanecem como legado artístico e político. Sua versatilidade e personalidade tornaram-se símbolos de resistência, transformando dores pessoais em luta coletiva contra a violência doméstica, a pobreza e o preconceito de raça e gênero, vivenciados pela mulher negra brasileira. Ícone do feminismo negro, essa mulher pobre e periférica deu voz a quem nunca teve, tornando-se a “mulher do fim do mundo”, desafiando padrões até o fim da vida.
Elza Soares não apenas interpretou: ela viveu a política. Afirmava que sua voz era sua arma e que sua própria existência já era um ato político.