É impressionante como Flávio Bolsonaro muda de opinião conforme a conveniência eleitoral. Ultimamente, tem assumido compromissos de manter o Bolsa Família e até aumentar o valor do benefício. É o discurso de palanque, calculado para conquistar votos entre milhões de brasileiros que dependem desse programa social.
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A internet, no entanto, expõe declarações que contradizem essa imagem de preocupação com os mais pobres. Circula nas redes sociais uma mensagem atribuída a Flávio, enviada a um amigo há alguns anos, na qual ele afirma ter apresentado diversas emendas para modificar o programa, que chamava pejorativamente de “Bolsa Farelo”. Lamentava, inclusive, que seus próprios colegas parlamentares não tivessem compreendido o objetivo de suas propostas.
No embate da Band, que dificilmente pode ser classificado como um debate presidencial à altura da importância do momento, Lula questionou Flávio sobre a suposta influência de Javier Milei em seu eventual governo. A pergunta envolvia Daniela Marques, ex-presidente da Caixa Econômica Federal durante o governo de Jair Bolsonaro e apontada como responsável pela coordenação das políticas econômicas de sua candidatura.
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Flávio, mais uma vez, desviou-se do assunto. Não respondeu objetivamente ao questionamento nem afastou categoricamente a possibilidade de adotar o modelo argentino como referência. Preferiu elogiar a capacidade técnica de sua assessora, deixando sem esclarecimento uma questão fundamental para os eleitores: qual seria, afinal, o projeto econômico e social de seu eventual governo?
Daniela Marques já manifestou publicamente sua admiração pela condução da política econômica de Milei e sua intenção de tomá-la como referência. Essas declarações, segundo os registros divulgados, estão documentadas e merecem ser confrontadas com as promessas feitas durante a campanha.
Mas o episódio mais revelador veio ontem, durante uma reunião com empresários na Bahia. Segundo as declarações de Daniela, o Bolsa Família passaria por um período de transição de dois anos, ao longo do qual os beneficiários receberiam treinamento para serem absorvidos pelo mercado de trabalho. Ao final desse processo, o programa seria extinto.
Essa proposta estaria associada à ideia de criação de um Ministério da Prosperidade, sugerida por Pablo Marçal e defendida por Flávio Bolsonaro. O nome pode até soar promissor, mas não elimina a pergunta essencial: que prosperidade pode ser construída à custa da retirada de uma política de proteção social sem garantias concretas de emprego e renda para seus beneficiários?
É aqui que o discurso de campanha entra em choque com o planejamento anunciado para um eventual governo. De um lado, Flávio promete preservar e ampliar o Bolsa Família para conquistar a confiança dos eleitores. De outro, as declarações atribuídas à sua assessora apontam para a extinção do programa em dois anos.
Não se trata de uma divergência secundária. Estamos falando da segurança alimentar, da sobrevivência e da dignidade de milhões de famílias brasileiras. O Bolsa Família não é um favor de governante, mas uma política pública de transferência de renda cuja importância social não pode ser ignorada por conveniências eleitorais.
O que espanta é a aparente confiança de Flávio Bolsonaro de que essas contradições passarão despercebidas. Talvez conte com a fidelidade de uma parcela de seus apoiadores, que aceita as declarações de campanha sem submetê-las ao necessário exame crítico.
A pergunta que fica é simples: Flávio Bolsonaro pretende manter o Bolsa Família ou extingui-lo depois de dois anos? As duas coisas não podem ser verdadeiras ao mesmo tempo. Antes de pedir o voto dos brasileiros mais pobres, ele precisa abandonar a ambiguidade e apresentar suas verdadeiras intenções.
Porque, quando se trata da sobrevivência de milhões de famílias, promessa de palanque não pode valer mais do que compromisso com a realidade.

