Em nova crônica, Carlos Vieira expõe empobrecimento musical nos festejos juninos no Nordeste

Economista e presidente da CAIXA reflete sobre a perda de espaço do forró de raiz nas festas juninas e defende a memória musical nordestina.

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Carlos Vieira, presidente da Caixa. (Crédito: CAIXA/Divulgação)

Repercute desde o sábado passado, o conteúdo de crônica do economista/cronista Carlos Vieira, também presidente da Caixa Econômica Federal (CEF), abordando com texto reflexivo o nível do empobrecimento musical registrados nos festejos juninos do Nordeste.

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Eis o conteúdo na íntegra a seguir:

Porque hoje não é sábado!

Meu Cenário

A pé, ficava a cerca de meia légua da cidade. Chegava-se pela antiga Rua da Palha, nome dado àquela via periférica e cuja origem dispensa certidão de nascimento, por uma razão bastante óbvia.

Para lá me dirigi algumas vezes. Numa delas, cheguei à Fazenda Pé de Serra, à época propriedade de meu tio Adrísio, e deparei-me com uma cena interessante. Era o dia seguinte às núpcias de seu vaqueiro.

Este morava numa casa que, volta e meia, me rememora Flávio José. Na música Meu Cenário, há um retrato que estampa aquele tempo: um cheiro de amor e de perfume pelo ar…

A casa simples erguia-se numa pequena altura acima da planície, onde o capim crescia vigoroso e verdejante, enquanto os animais se fartavam em mastigar, ruminar e engolir a iguaria, na hora matinal em que o orvalho da terra já se despede com um silencioso “até amanhã”.

O cenário era perfeito para avocar a volúpia juvenil e, mesmo sem saber como e por quê, pressentir o que se faz numa noite de núpcias.

A vida simples é assim:

“Numa esteira, o meu sapato pisando o sapato dela;
Em cima da cadeira, aquela minha bela cela
Ao lado do meu velho alforge de caçador
Que tentação minha morena me beijando feito abelha
E a Lua malandrinha pela brexinha da telha
Fotografando o meu cenário de amor.”

O poeta nordestino conseguiu traduzir, em cenário musical e compasso de forró, aquilo que somente o nordestino conhece: a simplicidade amorosa da vida sertaneja, o romance que floresce entre o barro batido, o luar e o som da sanfona.

Por falar em forró, e sendo tempo de festejos juninos, vejo ao longe uma sanfona sendo arremessada contra o passado. Em seu lugar, instala-se uma batida estranha, oriunda de um sertanejo empastelado que, embora se anuncie popular, nada tem do sertão nordestino.

Daí nasce uma desilusão semelhante à de quem assiste ao desfazimento de um casamento. Rompe-se a união entre a cultura e o forró para substituí-la por uma amante sedutora, porém sem raízes, sem memória e sem pertencimento.

Receio que, quando despertarmos desse néctar artificial, doce apenas na superfície e avesso à nossa identidade, já seja tarde para replantar o forró original. Talvez ele se perca no tempo, restando apenas a lembrança daqueles que um dia dançaram ao som da sanfona, sob bandeirolas coloridas, pisando um chão de barro batido que também contava histórias.

Fraterno abs

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