BRASIL 247 – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva teria manifestado irritação com a conduta do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), na relatoria do inquérito do Banco Master, chegando a dizer a auxiliares que o magistrado deveria deixar a Corte, por renúncia ou aposentadoria. Lula acompanha de perto o andamento do caso e as repercussões políticas e institucionais sobre a atuação do relator.
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As informações foram relatadas pela Folha de S.Paulo, que afirma ter colhido depoimentos de interlocutores segundo os quais Lula, em conversas reservadas com ao menos três auxiliares, fez comentários considerados duros sobre Toffoli e sinalizou que não pretende defendê-lo diante das críticas que se acumulam contra o ministro.
Irritação no Planalto e cálculo político
De acordo com os relatos citados, Lula pretende chamar Toffoli para uma nova conversa sobre sua conduta no inquérito. Os dois já discutiram o assunto no fim do ano passado. Apesar do tom dos desabafos atribuídos ao presidente, colaboradores duvidam que Lula leve adiante a ideia de pedir formalmente ao ministro que se afaste do tribunal ou mesmo que abra mão da relatoria do caso.
O incômodo, segundo aliados, tem um componente institucional: Lula estaria preocupado com o desgaste do STF provocado por notícias que passaram a expor ligações envolvendo parentes do ministro e estruturas relacionadas a fundos que integram a teia do Banco Master. Na avaliação do presidente, a credibilidade do Supremo e a confiança pública no andamento da investigação entraram no centro da crise.
O sigilo e o temor de abafamento
Outro ponto que teria ampliado o desconforto no Planalto é o regime de sigilo imposto ao processo. Segundo a reportagem, Lula reclamou com auxiliares do “sigilo elevado” e demonstrou receio de que o caso seja abafado, alimentando a percepção de impunidade em investigações que envolvem cifras bilionárias e atores com trânsito político.
Na visão exposta por aliados, o presidente defende que as investigações avancem e que o governo sustente, de forma coerente, uma postura pública de combate a fraudes sem seletividade. A preocupação é dupla: evitar que a narrativa de blindagem se imponha e impedir críticas sobre supostas interferências do Executivo em apurações sob responsabilidade do Judiciário.
Em uma fala atribuída a Lula e reproduzida no texto-base, o presidente teria reforçado essa linha ao comentar o contraste entre o peso da punição sobre os mais pobres e a tolerância com fraudes em grande escala:
Lula: “Não é possível que a gente continue vendo o pobre ser sacrificado enquanto tem um cidadão do Banco Master que deu um golpe de mais de R$ 40 bilhões”
Um caso que pode atingir diversos campos políticos
A reportagem descreve ainda a avaliação, no entorno presidencial, de que a investigação pode atingir políticos de oposição e deve prosseguir mesmo que respingue em governistas. Nesse contexto, o Planalto enxerga risco político tanto na hipótese de estagnação das apurações quanto na de escalada do caso com novos nomes e conexões.
O texto aponta que Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, teria ligações com políticos do centrão e também com aliados do governo do PT na Bahia. É mencionada, ainda, a relação do empresário baiano Augusto Lima, ex-sócio do Banco Master, com figuras do governo, como o ministro da Casa Civil, Rui Costa, e o senador Jaques Wagner, líder do governo.
A decisão de sigilo e a cronologia do desgaste
Segundo o relato, Lula monitora o inquérito desde o fim do ano passado e teria ficado intrigado com a decisão de Toffoli de colocar sob sigilo elevado um pedido da defesa de Daniel Vorcaro para levar as investigações ao STF. A medida, conforme descrito, ocorreu uma semana antes de o jornal O Globo revelar que o escritório de advocacia de Viviane Barci, esposa do ministro Alexandre de Moraes, tinha contrato mensal de R$ 3,6 milhões para defender interesses do Banco Master.
Ainda segundo o texto-base, um aliado teria resumido o sentimento do presidente como desconfiança de que o caso terminaria em “uma grande pizza”, expressão que traduz, no debate político brasileiro, a ideia de que escândalos acabam sem consequências proporcionais.
O almoço no Planalto e a cobrança por desfecho
Em dezembro, Lula teria convidado Toffoli para um almoço no Palácio do Planalto, com a participação do ministro da Fazenda, Fernando Haddad. A conversa, descrita como amistosa, teria sido usada pelo presidente para reforçar que tudo o que o governo desvendasse deveria ser levado “às últimas consequências”, e para aferir se a disposição no Supremo seria a mesma mesmo após a decretação do sigilo.
De acordo com os relatos apresentados, Toffoli teria dito que nada seria abafado e que o sigilo era justificável. Lula, então, teria afirmado que o ministro faria a coisa certa. O texto também registra que Lula teria dito, segundo informação do colunista Lauro Jardim confirmada pela Folha, que a relatoria representaria uma oportunidade para Toffoli “reescrever sua biografia”.
As críticas ao relator e a resposta de Toffoli
O texto-base afirma que Toffoli está sob pressão por sua postura na supervisão do inquérito. As críticas incluem o regime de sigilo imposto ao caso, a viagem de jatinho com um dos advogados da causa e negócios que associariam familiares do ministro a um fundo de investimentos ligado ao Banco Master.
Segundo o relato, Toffoli teria dito a interlocutores que, neste momento, descarta abdicar do processo por não ver elementos que comprometam sua imparcialidade. Ele teria sustentado que nem a viagem na companhia do advogado nem a sociedade entre seus irmãos e o fundo de investimentos afetariam sua atuação como relator.
O texto também menciona que, historicamente, o STF só reconheceu impedimento ou suspeição de ministros em casos de autodeclaração, o que ajuda a explicar por que o relator resiste a qualquer movimento de afastamento.
Um vínculo antigo e frustrações acumuladas
A crise também é atravessada por um histórico político e pessoal. Lula foi responsável pela indicação de Toffoli ao STF e, segundo o texto-base, coleciona decepções com o ex-advogado do PT. Entre elas, é citado o episódio em que Toffoli impediu Lula de ir ao velório do irmão, Genival Inácio da Silva, o Vavá, quando o presidente estava preso em Curitiba.
A reportagem afirma que Toffoli pediu desculpas a Lula anos depois, em dezembro de 2022, após a eleição do presidente. Vavá morreu em janeiro de 2019.
O próximo passo e o impasse institucional
O cenário descrito aponta para um impasse: de um lado, Lula quer sinalizar compromisso com investigação e punição de fraudes, sem blindagens; de outro, precisa evitar que qualquer gesto seja interpretado como pressão indevida sobre o Supremo. Nesse equilíbrio delicado, a ideia de uma nova conversa com Toffoli aparece como tentativa de reduzir o dano institucional e, ao mesmo tempo, preservar a linha política do governo.
O foco do Planalto, conforme retratado no texto-base, é que a investigação avance com credibilidade, sem que o STF seja arrastado para uma crise de confiança ampliada. Para Lula, o custo maior não está apenas nas disputas em torno da relatoria, mas no risco de o país assistir, mais uma vez, a um caso de grandes cifras perder força no caminho, alimentando a sensação de que o sistema pune o andar de baixo e protege o andar de cima.