Endividamento das famílias brasileiras atinge inéditos 81,6% em maio, aponta CNC

A facilidade de acesso a ferramentas de consumo imediato contrasta com as elevadas taxas de juros mantidas no mercado financeiro nacional.
(Foto: Freepik )

O endividamento das famílias brasileiras voltou a subir e bateu um recorde histórico em maio, atingindo 81,6%. De acordo com a pesquisa da Confederação Nacional do Comércio (CNC), este é o maior patamar já registrado na série do levantamento, impulsionado por contas a vencer no cartão de crédito, carnês e empréstimos.

Siga o canal do WSCOM no Whatsapp.

O percentual de famílias que se consideram muito endividadas continuou a avançar em maio, alcançando 17,0%, o maior percentual desde junho de 2024, e gerando maior cautela com o endividamento. Cabe destacar, contudo, que a percepção de endividamento captada pela pesquisa possui caráter subjetivo, refletindo a avaliação individual de cada família sobre seu grau de comprometimento financeiro. Dessa forma, o indicador não configura, necessariamente, situação de superendividamento, mas expressaa percepção dos consumidores sobre sua condição financeira, influenciada por fatores culturais e pela relação de cada indivíduo com o crédito.

O percentual de inadimplência também mostrou crescimento no mês e no ano, ao variar para 29,9% em maio. O percentual de famílias que relataram não possuir condições de quitar as dívidas em atraso manteve-se em 12,3% pelo terceiro mês consecutivo. Mesmo com o início do processo de redução da Selic, os juros médios para as pessoas físicas continuam em patamar alto, reduzindo apenas 0,3 ponto percentual entre fevereiro e março.

O cartão de crédito permanece como a modalidade de crédito mais utilizada pelas famílias (84,6%), seguido pelos carnês de loja (16,1%) e pelo crédito pessoal (13,1%), evidenciando a predominância de linhas de curto prazo no comprometimento do orçamento doméstico. Outro complicador é a opção mais procurada ser justamente a que apresenta maior taxa de juros, sendo de 428,3% a.a. para o cartão rotativo.

Apesar dessa elevação do percentual de famílias inadimplentes, o tempo médio de atraso teve ligeira redução para 65,0 dias, após permanecer três meses em 65,1 dias. Sendo que 49,3% das famílias reportaram inadimplência superior a 90 dias, o menor nível desde o início do ano. O que pode refletir, entre outros fatores, a evolução recente da renda média captada pela PNAD Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua) e o maior controle inflacionário, que contribuem para preservar a capacidade de regularização financeira das famílias.

Corroborando a melhora desses fatores, em relação ao comprometimento da renda, o percentual dos consumidores que têm mais da metade dos rendimentos vinculados às dívidas também teve redução (18,7%). A maior parte das famílias (55,7%) continua possuindo entre 11% e 50% da renda comprometida, com incremento na parcela com menos de 10% da renda comprometida, um fator positivo para o perfil do endividamento. Dessa forma, o percentual médio de comprometimento da renda com dívidas retraiu para 29,3% em maio, o menor resultado desde maio de 2019 (29,3%).

Outro fator favorável e que auxilia o menor comprometimento da renda foi o aumento do percentual de famílias com mais de um ano comprometidas com dívidas, que alcançou 33,3%, o maior nível desde abril de 2025 (33,4%). Com a possibilidade de maior prazo para pagamento, a amortização mensal é suavizada e dá maior fôlego para os consumidores.

Embora o endividamento mantenha trajetória de avanço e a inadimplência venha se deteriorando, há relativa estabilidade na parcela de famílias sem condições de quitar dívidas em atraso. Os resultados recentes indicam condições financeiras mais favoráveis para as famílias, com prazos mais vantajosos, levando a um menor comprometimento da renda e à redução do tempo de contas atrasadas.

As projeções da CNC apontam continuação da elevação do endividamento nos próximos meses, acompanhada de ligeiro crescimento das contas em atraso. No entanto, com o Desenrola 2.0, lançado em maio deste ano, aumentam-se as expectativas sobre o endividamento e a inadimplência dos brasileiros. A primeira versão iniciou em julho de 2023, abrangendo a população com renda acima de 2 salários mínimos, e teve sua segunda fase em outubro do mesmo ano, com a parcela de menor renda. O maior impacto ocorreu no nível de endividamento, que foi de 77,8% em média em 2023, tendo uma desaceleração de 0,1 p.p. no ano. Apesar da variação singela, foi o primeiro recuo após quatro anos de alta do indicador de média anual.

Ao detalhar os resultados mensais, a desaceleração do endividamento iniciou-se no próprio mês de julho e seguiu por mais quatro meses. Já a inadimplência apresentou um resultado defasado e começou a retrair três meses após o início do programa, em outubro, apresentando recuo durante cinco meses. Apesar do impacto do programa federal, esses resultados não podem ser relacionados apenas ao Desenrola, tendo também uma melhora do mercado de trabalho na época, com avanço da massa salarial de 6,8% em 2023.

“Inadimplência avança, porém com perfil de endividamento mais positivo.”

Famílias de menor renda apresentam maior aumento da inadimplência

Ao analisar os dados desagregados por faixa de renda, observa-se que o avanço anual do endividamento ocorreu na maioria das categorias, com maior intensidade entre as famílias com renda acima de dez salários mínimos (+3,8 pontos percentuais), seguidas pelas que possuem até três salários (+3,7 p.p.).

Em relação à inadimplência, o avanço mensal concentrou-se principalmente entre as famílias de menor renda, avançando 1,7 p.p., bem acima das outras faixas.

Dinâmica semelhante é observada no indicador de famílias que declararam não ter condições de quitar dívidas em atraso. As famílias com renda até três salários registraram o único crescimento na comparação com maio do ano passado.

Os resultados mostram que as famílias de maior renda têm conseguido administrar melhor suas dívidas. Apesar do avanço no endividamento, evitam um aumento proporcional da inadimplência. Isso indica maior capacidade financeira para absorver o endividamento sem comprometer de forma relevante sua capacidade de pagamento, enquanto as de menor renda precisam recorrer ao crédito para seu consumo, mesmo avançando nas possibilidades de não conseguirem arcar com esses custos.

A Pesquisa Nacional de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic) é apurada mensalmente pela CNC desde janeiro de 2010. Os dados são coletados em todas as capitais dos estados e no Distrito Federal, com aproximadamente 18 mil consumidores.

Crédito: Brasil 247

Mais Posts

Tem certeza de que deseja desbloquear esta publicação?
Desbloquear esquerda : 0
Tem certeza de que deseja cancelar a assinatura?
Controle sua privacidade
Nosso site utiliza cookies para melhorar a navegação. Política de PrivacidadeTermos de Uso