Quando comecei a me entender como gente, na faixa dos treze a quatorze anos, tive o privilégio de acompanhar meu pai nas visitas que ele fazia frequentemente a José Américo de Almeida. Anos depois, meu pai passou a levar meus irmãos, Eliziario, Wilson e Wilton, ainda crianças, em suas idas à casa desse ilustre paraibano. Talvez ele fizesse isso de propósito, com a intenção de proporcionar aos filhos a oportunidade que pouca gente da nossa geração teve: conhecer pessoalmente aquele que já se fazia merecedor da admiração e do respeito de todos os brasileiros.
Na praia do Cabo Branco, sempre assessorado por sua competente secretária, Lourdinha Luna, o Ministro José Américo de Almeida, como era tratado, passava horas em bate-papo com meu pai. Eu assistia a esses encontros com especial interesse. Lembro-me com orgulho de ter ouvido dele, certa vez, a seguinte afirmação: “Deusdedit, essa sua vocação para a pesquisa faz com que você saiba mais da minha vida do que eu próprio. Você me traz à memória fatos de que eu já nem me recordava”. Meu pai sempre foi “americista” e, em razão dessa simpatia pelo político e pelo escritor, dedicou-se a pesquisar cada vez mais sobre aquele homem que marcou época na nossa história. É indispensável registrar aqui quem era José Américo de Almeida, embora sua biografia seja conhecida em todo o Brasil.
Eu ficava impressionado com o jeito como ele falava: trincando os dentes, quase sem abrir a boca. Enquanto conversava com meu pai, manifestava a preocupação de dar atenção a mim e aos meus irmãos, oferecendo suco de caju e frutas tropicais. Sem muito afago, mas com sua personalidade ímpar, ele se curvava diante de nós no desejo de oferecer um mimo, um tratamento de cuidado e desvelo. Era interessante: quem merecia toda a reverência inclinava-se em um gesto de mesura em nossa direção.
Tive a honra de contar com a sua presença na cerimônia do meu casamento com Robélia, mãe de minhas filhas Candice, Cristiane e Cibelle, mesmo sabendo que a noiva era filha de um dos mais ferrenhos críticos de sua trajetória política, o conceituado advogado Alfredo Pessoa de Lima.
O casarão da praia do Cabo Branco foi o local escolhido para o seu retiro voluntário das atividades políticas. No entanto, o local continuava sendo visitado pelos grandes nomes da política nacional. Presidentes da República, governadores e autoridades das mais diversas esferas da administração pública brasileira vinham em busca de seus conselhos e orientações.
Considerado um dos maiores oradores da nossa história, em um de seus pronunciamentos, José Américo explicou sua decisão de isolar-se naquela casa do litoral paraibano (onde hoje funciona a Fundação que leva seu nome):
“Fixei-me nesta praia, bloqueado pela linha oceânica e tendo agora na minha posição à frente a colina verde, como uma cauda do Cabo enlaçado. Passei por terras firmes sem me deixar prender, e aqui enterrei os meus pés, na areia litorânea, como se tivesse criado raízes, como os coqueiros ao lado, sempre erectos, balançando-se e assanhando-se, mas sem mudar de lugar, plantados nos seus destinos. Essa solidão aparente não me separou da vida. Não troquei a alma, que tem asas e antenas para a sensibilidade do mundo. Não se fechem essas portas para não darem a ideia de um túmulo, porque dentro há uma chama ainda acesa. E essas largas varandas, esse amplo terraço, são como janelas escancaradas.”
Como não me envaidecer dessa oportunidade rara que meu pai me proporcionou? Estive frente a frente e, mais do que isso, recebi a atenção de um dos maiores ícones da literatura e da política do Brasil.

