A guerra dos EUA e Israel contra o Irã já dura mais de um mês e este missivista não encontra justificativa. Recentemente o atual presidente dos EUA declarou que a vitória seria a reabertura do estreito de Ormuz. O detalhe é que este estreito já estava aberto antes da guerra e se fechou por conta da guerra. Ou seja, não foi este o motivo.
Diante disto, passei a achar que o motivo era religioso, dado que o secretario de defesa americano afirmou em discursos que a guerra seria uma defesa do cristianismo. O atual secretário de Defesa dos Estados Unidos é Pete Hegseth e suas ideias religiosas são um dos aspectos mais discutidos de sua atuação política. Ele está ligado à igreja Communion of Reformed Evangelical Churches (CREC). Essa denominação é conhecida por posições teológicas conservadoras e hierárquicas. Um ponto central é que ele não separa claramente religião e ação governamental.
Críticos afirmam que isso pode sugerir uma ideia de guerra com “legitimação divina”. Como se fazia nos tempos da idade média. Atualmente são as ideias dos radicais islâmicos que derrubaram as torres gêmeas em Nova York e do estado teocrático do Irã.
Tremenda ironia se fazer uma guerra contra uma sociedade com o objetivo de ser igual a mesma. Acho que é por isso que vários pastores evangélicos no Brasil apoiam tanto o atual governo americano e, por tabela, esta guerra. Eles sonham em ter a autoridade de um Aiatolá. Que retrocesso.
A relação entre religião e política é uma das forças mais antigas e persistentes na organização das sociedades humanas. Quando essas duas esferas se entrelaçam, seus efeitos transcendem o campo institucional e alcançam diretamente a economia, moldando comportamentos, instituições e trajetórias de desenvolvimento.
Historicamente, a religião forneceu a base moral e simbólica para a legitimação do poder político. Desde os impérios antigos até as monarquias europeias, a autoridade dos governantes muitas vezes era justificada por fundamentos religiosos, como o “direito divino dos reis”. Mesmo após a secularização promovida por eventos como a Reforma Protestante, a religião continuou influenciando a política, agora de forma mais difusa, por meio de valores, normas sociais e identidades coletivas.
Do ponto de vista econômico, essa interação tem impactos profundos. Um dos exemplos mais clássicos é a tese de Max Weber em A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. Weber argumenta que certas doutrinas do Protestantismo, como a valorização do trabalho, da poupança e da disciplina, contribuíram para o surgimento do capitalismo moderno. Nesse sentido, a religião atua como um “incentivo invisível”, moldando preferências e comportamentos econômicos.
Por outro lado, quando a religião se mistura diretamente com o poder político, ela pode influenciar a qualidade das instituições econômicas. Em países onde há forte alinhamento entre Estado e religião, políticas públicas podem refletir princípios morais específicos, afetando decisões sobre tributação, gasto público, regulação de mercados e direitos individuais. Em alguns casos, isso pode gerar estabilidade e coesão social; em outros, pode levar à exclusão de grupos minoritários e à ineficiência econômica.
A literatura de economia institucional, especialmente associada a Daron Acemoglu e James A. Robinson, sugere que o desenvolvimento econômico depende da qualidade das instituições, se são inclusivas ou extrativistas. A religião pode reforçar ambos os tipos. Quando promove valores como confiança, cooperação e responsabilidade, contribui para instituições inclusivas. Mas quando legitima hierarquias rígidas e concentração de poder, pode sustentar instituições extrativistas que limitam o crescimento econômico.
Além disso, a religião influencia diretamente o comportamento econômico dos indivíduos. Normas religiosas podem afetar consumo (como restrições alimentares), poupança (valorização da austeridade), investimento (proibição de juros em algumas tradições) e até participação no mercado de trabalho (papéis de gênero). Esses fatores, agregados, impactam indicadores macroeconômicos como produtividade, taxa de poupança e crescimento do PIB.
No campo político contemporâneo, observa-se que líderes frequentemente mobilizam identidades religiosas para obter apoio eleitoral. Isso pode ter efeitos econômicos indiretos importantes. Por exemplo, políticas econômicas podem ser desenhadas não apenas com base em eficiência, mas também para atender a demandas simbólicas ou ideológicas. Em contextos extremos, conflitos religiosos podem gerar instabilidade política, afastar investimentos e prejudicar o crescimento.
No Brasil, embora o Estado seja formalmente laico, a influência religiosa no debate político é crescente. Bancadas religiosas no Congresso têm papel relevante em temas como políticas sociais, educação e costumes. Essa influência pode afetar a alocação de recursos públicos e o desenho de políticas econômicas, especialmente quando questões morais se sobrepõem a critérios técnicos.
Em síntese, religião e política formam uma interação complexa que molda profundamente a economia. A religião não apenas influencia valores individuais, mas também estrutura instituições e orienta decisões políticas.
Quando essa relação favorece instituições inclusivas e comportamentos produtivos, pode impulsionar o desenvolvimento. Contudo, quando reforça exclusões ou distorções políticas, pode representar um obstáculo ao crescimento econômico. O desafio das sociedades modernas é equilibrar a liberdade religiosa com a necessidade de instituições políticas e econômicas eficientes e inclusivas.
Lembrem-se. Quando vocês entram numa casa religiosa, de maneira inocente e honesta, estão procurando os auspícios de Deus, mas também estão dando apoio a visão política e econômica daquele que diz que é o elo entre vocês e Deus.