O voto da barata no inseticida

Manipulação

A metáfora do “voto da barata no inseticida” ajusta-se bem a práticas políticas que temos vivenciado em anos recentes no Brasil. Todos sabem que, quando o inseticida é acionado, a barata não tem qualquer chance de sobrevivência. Na comparação política, é como se ela própria ajudasse a escolher o produto que a eliminará.

No ambiente político contemporâneo, o debate racional vem sendo frequentemente substituído pela emoção, pelo ressentimento e pela desinformação. Esse cenário contribui para que muitos deixem de perceber que determinadas propostas podem atingir diretamente suas próprias condições de vida.

Não se trata, contudo, de uma metáfora ofensiva. Ela deve ser compreendida como um alerta. A democracia exige consciência política, memória histórica e espírito crítico para avaliar discursos e promessas. Sem esses elementos, cresce o risco de repetir um fenômeno que a história brasileira já conhece bem: parte do eleitorado sendo levada a apoiar projetos que acabam produzindo prejuízos aos seus próprios interesses.

A história do país está repleta de exemplos que ilustram essa contradição. Pessoas que apoiam medidas que retiram direitos conquistados com muito esforço. Trabalhadores que defendem políticas que fragilizam a proteção do trabalho. Cidadãos que se dizem patriotas, mas aplaudem lideranças políticas que chegam a pregar intervenções estrangeiras, em prejuízo da autonomia nacional. Indivíduos que se afirmam defensores dos direitos humanos reverenciando quem homenageia torturadores. Falsos democratas que demonstram nostalgia da ditadura militar. Mulheres que votam em candidatos declaradamente misóginos. Cidadãos comuns estimulando ataques às instituições que garantem suas próprias liberdades e sustentam o Estado Democrático de Direito.

Essa contradição não surge por acaso. É resultado de uma construção lenta e articulada. Começa com discursos inflamados que se repetem exaustivamente nas redes sociais, nos palanques e em certos meios de comunicação descomprometidos com a democracia. Ao final desse processo, surge a figura do “salvador”, aquele que promete tudo e apresenta soluções simples para problemas complexos.

E assim, quase sem perceber, a barata acaba votando no inseticida.

A história, no entanto, costuma cobrar um preço alto de quem escolhe o próprio veneno. Quando o efeito finalmente aparece, já é tarde para reclamar daquilo que foi ajudado a produzir. Por isso, mais do que nunca, é preciso lembrar: em democracia, o voto não pode ser guiado pelo ódio, pela mentira ou pela manipulação.

Caso contrário, continuaremos assistindo ao espetáculo paradoxal de cidadãos ajudando a construir as próprias armadilhas, como baratas que, iludidas, escolhem o inseticida que decretará o seu fim.

Mais Posts

Tem certeza de que deseja desbloquear esta publicação?
Desbloquear esquerda : 0
Tem certeza de que deseja cancelar a assinatura?
Controle sua privacidade
Nosso site utiliza cookies para melhorar a navegação. Política de PrivacidadeTermos de Uso
Ir para o conteúdo