Uma vez um colega me perguntou, depois de ler um texto meu, denunciando bandidagem, por que eu escrevia com raiva. Fiquei pensando em responder.
A pergunta não era simples. Talvez porque quem lê imagine que a indignação é raiva mal disfarçada. Mas eu não escrevo com raiva. Não tenho raiva de ninguém.
Às vezes tenho raiva de mim mesmo, isso é verdade. O que sinto profundamente é outra coisa. O que sinto é indignação, ela que nasce quando observo certos comportamentos humanos. Uma indignação que, às vezes, chega a doer.
Dói porque vejo atitudes que ferem aquilo que deveria sustentar a vida em sociedade: a ética pública. Dói porque algumas criaturas humanas, de baixas atitudes, conseguem ocupar espaços de poder na política, na justiça e no executivo. Não é um incômodo passageiro. É uma dor cívica que já dura quase os meus sessenta e dois anos. Uma dor de cidadão que observa o que acontece à sua volta.
Quando olho certas práticas, certas falcatruas, certos conluios, sinto indignação. Não é um sentimento teatral, não sou ator e representaria mal um hipócrita. É uma indignação real, que pesa na consciência de quem ainda acredita que viver em sociedade exige responsabilidade moral.
Talvez essa indignação tenha raízes na minha própria trajetória. Nasci com oportunidades. Estudei em escola pública, no Grupo Escolar, no curso primário; no Sagrado Coração de Jesus finalizei o primeiro grau. Estudei no Pio XII, no segundo grau. Estudei no CPU. Estudei na Universidade Federal da Paraíba. A educação pública me deu caminhos. Sempre ouvi em casa, e sempre digo e repito: “DIZE-ME COM QUEM TU ANDAS QUE EU TE DIREI QUEM ÉS”. Essa frase nunca foi apenas um ditado repetido. Foi um princípio que me acompanhou ao longo da vida.
Na minha casa, digo na casa dos meus pais, havia um tipo simples de disciplina moral. Meu pai veio da Ilha do Bispo e depois foi para Cruz das Armas, aqui em João Pessoa. Minha mãe veio de Areia-PB, de Vaca Brava. Conheceram-se entre Cruz das Armas e Marés, passaram dificuldades e trabalharam.
Não lembro de ter ouvido alguém dizer que o “Neguinho Durval Leal”, meu pai, era ladrão. Nunca vi notícia de jornal acusando meu painho de corrupção. Nunca ouvi falar de conluio ou de desvio de dinheiro público dentro da minha família.
E quando olho para trás, para tios, tias, avós, parentes próximos, não lembro de ninguém acusado de lesar o bem público ou enganar cidadãos. Isso não significa perfeição. Significa apenas uma coisa simples: havia limites morais. Havia vergonha diante da desonestidade.
Havia o entendimento de que a honra não se negocia. Talvez seja por isso que hoje certas práticas me causem tanta indignação. Porque quem cresce ouvindo exemplos de integridade não se acostuma facilmente com a banalização da corrupção.
Eu sempre tive opiniões. Sempre fui curioso. Sempre soube dizer não. Decidi desde cedo que não teria helicópteros nem piscina azul. Ao longo da vida coordenei instituições, elaborei projetos, executei filmes, participei de iniciativas culturais. Em nenhum momento alguém chegou e disse que eu deixei de pagar alguém ou que fiz negociata para ganhar dinheiro além do combinado.
Nunca apareceu uma acusação de falcatrua ou roubo de minha parte. E digo isso não como vanglória, mas como simples constatação. Fiz apenas o que deveria ser normal para qualquer cidadão que busca ética e preserva o seu tamanho.
Outra vez repito: “DIZE-ME COM QUEM TU ANDAS QUE EU TE DIREI QUEM ÉS”. Nunca andei com gente que estivesse nas páginas de jornal por corrupção. Pode até ter ocorrido de um amigo aparecer no jornal por um baseado, uma confusão menor onde compartilho. A vida tem dessas histórias. Mas nunca por roubo de dinheiro público. Nunca por esquemas ou organização criminosa. Por isso que afirmo novamente: NÃO É RAIVA O QUE SINTO. É INDIGNAÇÃO!!
A maior delas surge quando vejo vereador, deputado, juízes, promotores, delegados, senador, governador, presidente ou ministro, até do STF, envolvidos com a mais baixa das bandidagens. Todos são iguais perante a lei BANDIDOS!!
A bandidagem de levar vantagem. A bandidagem de usar o poder para enriquecer. A bandidagem de transformar cargos públicos em instrumentos de enriquecimento pessoal. ISSO REVOLTA. ISSO INDIGNA. Porque quem ocupa cargo público deveria servir à sociedade, não servir ao próprio bolso.
Foi então que entendi a pergunta do meu colega. Ele achava que eu escrevia com raiva. Mas não. Eu escrevo com indignação. Tenho indignação contra ladrão. E tenho indignação contra aqueles que se calam diante do ladrão. Porque ninguém acusa alguém de ladrão sem motivo. Nenhum Ministério Público abre investigação sem indícios. Nenhuma ata judicial surge do nada. Existe sempre alguma prova mínima.
O que dói é ver o povo tratado como se fosse ignorante. Como se fosse incapaz de perceber o que acontece. Como se fosse pequeno demais para compreender os jogos de poder. É triste quando o cidadão é tratado como reles vassalo por quem deveria representá-lo.
Mais triste ainda quando esse tratamento vem de alguém que ocupa um cargo público nas supremas cortes, não acontece nada: são aposentados com todas as regalias, algo que nenhum homem ou mulher do bem conseguem ter. Porque nesse momento a autoridade deixa de ser autoridade e passa a ser apenas um marginal vestido de poder, é BANDIDO.
Quando dois ou três desses se juntam, já não estamos falando apenas de corrupção individual. Estamos falando de organização criminosa. E infelizmente há organizações criminosas espalhadas por vários setores da sociedade.
Algumas estão no tráfico de drogas. Outras exploram pessoas. Outras roubam dinheiro público através de contratos espúrios, fraudes administrativas e conluios políticos. Todas têm algo em comum: vivem da exploração da sociedade que julgam ingênuas.
Há ainda aqueles que vestem capas simbólicas de super-heróis. Dizem representar a consciência moral do país. Dizem ser guardiões da Constituição. Mas, em certos momentos, comportam-se como as mais desprezíveis criaturas. Fingem honestidade enquanto usufruem do poder. Fingem defender a sociedade enquanto a exploram. Isso gera indignação profunda. Não é uma discussão ideológica. É uma questão moral. Como explicar um contrato de 129 milhões em honorários!?
E confesso: às vezes a indignação se transforma em algo próximo da raiva quando vejo o déjà-vu da política brasileira. Governadores presos voltando à cena pública como se nada tivesse acontecido.
Ver o caso da Paraíba em que o governador e sua organização, segundo acusações do Ministério Público, assaltaram, por oito anos, a saúde e a educação do Estado, muitos foram PRESOS por corrupção. NÃO É ILAÇÃO.
Agora, estes políticos condenados chegam reaparecendo como candidatos. Esses senhores autoridades do crime vêm dizendo que tudo não passou de “mero engano”. A memória coletiva é curta. Mas temos de alertar, lembrar é difícil.
Mas engano não existe nesse nível. O homem é produto do meio. E o meio político molda comportamentos. Quando o ambiente tolera corrupção, a corrupção se multiplica. Quando o poder protege seus próprios membros, a justiça enfraquece.
Ver o atual caso do Banco Master com dois ministros do STF envolvidos, com os parceiros da casa tentando acobertá-los. Mas engano não existe nesse nível.
O homem é produto do meio. E o meio político molda comportamentos. Quando o ambiente tolera corrupção, a corrupção se multiplica. Quando o poder protege seus próprios membros, a justiça enfraquece.
Quando o povo é tratado como massa manipulável, a democracia se deteriora.
Por isso respondo ao meu colega, que me cancelou por lembrá-lo de ter familiares que foram acusados de fazer parte da organização criminosa da Paraíba.
Eu escrevo com indignação. Escrevo porque acredito que ainda existe diferença entre honestidade e desonestidade. Escrevo porque acredito que o caráter importa.
Talvez seja por isso que escrevo. Não por raiva. Mas porque a indignação ainda é o último sinal de que a consciência de um cidadão continua viva.
E porque continuo acreditando naquele velho princípio que aprendi cedo: “DIZE-ME COM QUEM TU ANDAS QUE EU TE DIREI QUEM ÉS”.
AOS ATORES VENAIS, QUE SE VENDEM POR TRINTA DINHEIROS.