O caso do Banco Master e o risco sistêmico no sistema financeiro

Foto: Divulgação/Banco Master
Por Paulo Amilton Maia Leite Filho

O recente debate em torno do Banco Master reacendeu uma discussão clássica da teoria econômica e da regulação bancária, qual seja, como evitar que problemas em uma instituição financeira se transformem em risco sistêmico. Em economias modernas, bancos não são apenas empresas privadas comuns; eles são nós centrais de uma rede de crédito, pagamentos e confiança. Quando um banco enfrenta dúvidas sobre solvência ou liquidez, o problema pode rapidamente se espalhar para o restante do sistema.

Risco sistêmico ocorre quando a falência ou fragilidade de uma instituição gera efeitos em cadeia capazes de afetar todo o sistema financeiro. Esse fenômeno foi amplamente discutido após a crise de 2008, especialmente com o colapso do Lehman Brothers.

Existem três canais principais de propagação, que são contágio financeiro, onde instituições estão interligadas por empréstimos, derivativos ou operações interbancárias. Corrida bancária, na qual os depositantes passam a retirar recursos simultaneamente. E, por fim, efeito de informação, quando o mercado passa a desconfiar de outras instituições semelhantes. Assim, mesmo um banco médio pode gerar instabilidade caso exista perda de confiança generalizada.

A própria estrutura dos bancos cria vulnerabilidade sistêmica. Bancos operam captando depósitos de curto prazo e concedem empréstimos de longo prazo. Essa estrutura é eficiente para financiar a economia, mas cria um problema clássico descrito por economistas como Douglas Diamond e Philip Dybvig, vencedores do Nobel de Economia de 2022. Se muitos depositantes resolvem sacar ao mesmo tempo, mesmo um banco solvente pode quebrar por falta de liquidez. Por isso existem instituições como banco central, seguro de depósitos e regulação prudencial. No Brasil, o principal instrumento de proteção aos depositantes é o Fundo Garantidor de Créditos (FGC).

O caso do Banco Master passou a chamar atenção por algumas características que despertam preocupação em analistas financeiros. Estas foram captações agressivas via CDBs com juros elevados, crescimento acelerado do balanço e exposição a ativos considerados mais arriscados. Esse modelo de negócios pode funcionar em períodos de estabilidade, mas cria sensibilidade à confiança do mercado. Se investidores passam a questionar a qualidade dos ativos do banco, pode ocorrer retirada de recursos, aumento do custo de captação e pressão sobre liquidez. O problema deixa de ser apenas microeconômico, do banco, e passa a ter potencial macroprudencial.

O perigo sistêmico surge quando o mercado passa a fazer o chamado “efeito dominó informacional”. Investidores começam a perguntar: outros bancos médios têm o mesmo modelo? Existem ativos semelhantes no sistema? O seguro de depósitos cobre tudo?

Esse fenômeno ocorreu em crises históricas, como a crise bancária americana de 1930, a crise financeira global de 2008 e episódios recentes envolvendo bancos regionais nos EUA em 2023. Mesmo instituições que não têm relação direta podem sofrer corridas preventivas.

Recentes informações sobre o Banco Master levaram a gerar grande preocupação no mercado financeiro brasileiro. Até o momento houve o retorno dos recursos daqueles que investiram em CDB, que são garantidos pelo FGC. Mas existe muito mais dinheiro aplicado em Fundos de Investimentos.

Fundos de investimento são veículos financeiros que reúnem dinheiro de vários investidores para aplicar em diferentes ativos, como títulos públicos, ações, imóveis ou crédito privado. Em vez de cada pessoa investir individualmente, o dinheiro é administrado por um gestor profissional, que decide onde aplicar os recursos do fundo. Em termos simples, um fundo funciona como um “condomínio de investidores”. Cada participante compra cotas, que representam uma fração do patrimônio total do fundo.

Siga o canal do WSCOM no Whatsapp.

Pois bem, informações dão que só a XP investimento colocou R$ 20 bilhões em fundos administrados pelo Banco Master. O NuBank investiu mais uma soma considerável. Boatos afirmam que o Banco Itaú também está muito exposto aos fundos do Master. Isto sem falar no Banco Regional de Brasília (BRB), que colocou R$ 12 bilhões no já moribundo Banco Master.

Vários veículos de comunicação informam que o Banco Master comprou precatórios de difícil resgate e colocou o valor de face destes em seus balanços para convencer agentes financeiros a investirem nos fundos de investimentos geridos por ele.

Um dos casos foi o do Grupo João Santos de Pernambuco. Este grupo tem um processo de cobranças de dívidas tributárias junto a Receita Federal (RF). Um dos ativos oferecidos à RF é um precatório de R$ 1,2 bilhões.

Este precatório está dado à RF, mas o Banco Master, por caminhos não revelados, comprou-o ao Grupo João Santos por R$ 180 milhões, mas colocou nos seus balanços que tem este recebível pelo valor de face dele, ou seja, R$ 1,2 bilhões. Quem participou dos fundos administrados pelo Master, confiando que ele tem entre seus ativos esta soma, comprou gato por lebre.

Uma determinada hora, os investidores vão querer seus recursos de volta e vão terminar exigindo que o Tesouro Nacional entre bancando o prejuízo, alegando que perderam confiança no sistema financeiro brasileiro. Numa economia, o sistema bancário depende fundamentalmente de confiança. Bancos não quebram apenas por perdas contábeis, muitas vezes quebram porque a confiança desaparece antes que o problema seja resolvido.

Mais Posts

Tem certeza de que deseja desbloquear esta publicação?
Desbloquear esquerda : 0
Tem certeza de que deseja cancelar a assinatura?
Controle sua privacidade
Nosso site utiliza cookies para melhorar a navegação. Política de PrivacidadeTermos de Uso
Ir para o conteúdo