O desgaste na relação entre o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e o secretário estadual de Governo, Gilberto Kassab (PSD), se intensificou nas últimas semanas e já é tratado como insustentável por interlocutores de ambos os lados. Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, aliados afirmam que Kassab deve deixar a gestão estadual até abril.
O clima, que vinha se deteriorando desde o ano passado, atingiu novo patamar em meio a disputas por espaço político, articulações partidárias e declarações públicas que evidenciaram o mal-estar.
Expansão do PSD e incômodo na base
Um dos principais focos de tensão é a atuação de Kassab para fortalecer o PSD em São Paulo. À frente da Secretaria de Governo — responsável pela articulação política e pela gestão de emendas e convênios com prefeituras — o dirigente teria multiplicado por sete o número de prefeitos filiados à legenda.
Segundo a Folha, o movimento incluiu a filiação em massa de prefeitos e deputados de partidos que integram a própria base aliada. Integrantes de outras siglas passaram a acusar Kassab de usar sua influência na máquina pública para fortalecer o PSD, inclusive com suposta facilitação na liberação de convênios.
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De acordo com a publicação, até meados do ano passado Tarcísio afirmava a interlocutores que seu secretário “vendia na praça” um comando da máquina pública que não detinha. O incômodo também reverberou em partidos aliados: em dezembro, o PP chegou a ameaçar lançar candidato próprio ao Palácio dos Bandeirantes, citando “crescente descontentamento” de prefeitos e queixas sobre falta de atenção do governo.
Disputa pela vice e investigação
Outro ponto de atrito envolve a composição da chapa para a tentativa de reeleição de Tarcísio em 2026. Kassab é apontado como interessado na vaga de vice, hoje ocupada por Felício Ramuth (PSD), que também pleiteia permanecer no posto. O presidente da Assembleia Legislativa, André do Prado (PL), surge como outro nome cotado.
O cenário se agravou após o vazamento de que Ramuth é investigado pela Justiça de Andorra sob suspeita de lavagem de mais de US$ 1,6 milhão — cerca de R$ 8,3 milhões. O vice-governador nega as acusações. Nos bastidores, aliados especularam que o vazamento poderia ter partido de Kassab ou de André do Prado, hipótese negada por ambos.
Procurado, André do Prado declarou que “jamais faria” algo do tipo. Kassab, por meio de assessoria, afirmou que “nega e lamenta o baixíssimo nível das intrigas apócrifas que circulam”. Questionado, Tarcísio afirmou que “fofoca antes de eleição sempre tem” e negou que a investigação influencie a formação da chapa.
Troca pública de declarações
A crise ganhou dimensão pública após entrevista concedida por Kassab ao UOL, em janeiro, ao comentar a relação de Tarcísio com o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Ao falar sobre a postura do governador, afirmou: “Uma coisa é gratidão, reconhecimento, lealdade. Outra coisa é submissão”.
A declaração foi mal recebida pelo governador, que respondeu afirmando que sua relação com Bolsonaro é de “gratidão e amizade”, “absolutamente nada a ver com submissão”. Dias depois, durante agenda em Itapecerica da Serra, reforçou: “Às vezes querem rotular lealdade como submissão. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Infelizmente, amizade e lealdade na política viraram atributos raros”.
No dia seguinte, Kassab publicou nas redes sociais mensagem dizendo ter sido privilegiado “com bons amigos e conselheiros”, gesto interpretado nos bastidores como resposta indireta.
Saída no horizonte
Nos bastidores, a saída de Kassab é tratada como questão de tempo. Segundo a Folha, Tarcísio já teria comunicado a auxiliares que quem permanecer na gestão deverá estar focado exclusivamente na administração, e não na disputa eleitoral.
Aliados afirmam que o governador soube pela imprensa, no fim do ano passado, da intenção de Kassab de antecipar sua saída para coordenar as eleições. Em conversa posterior, teria solicitado ser avisado previamente para escolher o substituto. Kassab teria interpretado que, caso deixasse o cargo naquele momento, não poderia indicar o sucessor, o que teria adiado a formalização da saída.
Interlocutores avaliam que o secretário deve permanecer até o fim da janela partidária, no início de abril, período em que parlamentares podem trocar de partido sem perda de mandato. A estratégia seria evitar que um rompimento público provoque debandada de deputados do PSD e enfraqueça a legenda.
Paralelamente, aliados de Kassab apontam como demonstração de força a reunião convocada por ele com três presidenciáveis do PSD — Eduardo Leite (RS), Ronaldo Caiado (GO) e Ratinho Junior (PR) — interpretada como recado sobre o peso do partido na disputa paulista.
Com o ambiente deteriorado e as divergências já expostas publicamente, a permanência de Kassab no primeiro escalão do governo paulista é vista como insustentável, em meio a uma disputa que envolve controle político, articulação partidária e ambições eleitorais para 2026.