O artigo publicado neste espaço na semana que passou teve como tema o impacto do fim da escala 6×1 no processo inflacionário brasileiro. Um dos meus quatro leitores entrou em contato protestando contra o artigo porque entendeu que me posicionei terminantemente contra o fim da escala de trabalho atual.
No entanto, pensando como economista, acredito que, para além do aspecto social, a questão central do ponto de vista econômico sobre esta questão é, qual seria o impacto sobre a produtividade do trabalho em uma economia historicamente marcada por baixa produtividade relativa como a brasileira?
A análise exige compreender produtividade não apenas como horas trabalhadas, mas como eficiência marginal do trabalho, organização produtiva e incentivos institucionais.
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O Brasil apresenta produtividade do trabalho significativamente inferior à dos países desenvolvidos. Dados internacionais mostram que o trabalhador brasileiro produz, em média, menos por hora do que trabalhadores dos EUA, Japão ou países da Europa Ocidental. O problema não é simplesmente “trabalhar menos”, mas sim baixa produtividade marginal do capital e do trabalho.
Principais fatores para tal fato é baixo investimento em capital humano, tecnologia limitada em vários setores, alta informalidade, complexidade regulatória e organização produtiva pouco eficiente. Assim, discutir jornada sem discutir produtividade pode levar a conclusões equivocadas.
A teoria econômica sugere que existe uma relação não linear entre horas trabalhadas e produtividade. Após certo ponto, horas adicionais geram retornos marginais decrescentes. A fadiga física e cognitiva reduz eficiência. A produtividade por hora pode cair quando jornadas são excessivas. Esse fenômeno é observado em estudos de economia do trabalho e psicologia organizacional. Portanto, reduzir dias trabalhados não necessariamente reduz produção total, dependendo da reorganização produtiva.
Experimentos em países desenvolvidos indicam que reduções de jornada podem aumentar produtividade por hora, em melhora de bem-estar e redução de absenteísmo e turnover. Empresas podem compensar redução de horas com reorganização do trabalho. Exemplos incluem testes de semanas de quatro dias em países europeus e experiências corporativas globais. Contudo, existem diferenças estruturais importantes. Economias desenvolvidas possuem maior intensidade tecnológica. Setores de serviços avançados respondem melhor à redução de jornada do que comércio e serviços presenciais.
O Brasil possui características que tornam o impacto do fim da escala 6×1 mais complexo, pois tem forte ocorrência de serviços presenciais, tais como comércio varejista, alimentação, hotelaria e logística. Nesses setores, a produtividade depende muitas vezes de presença física e cobertura horária.
Apesar dos desafios, existem mecanismos que poderiam elevar a produtividade. Entre eles temos redução de fadiga e burnout, dado que trabalhadores mais descansados tendem a produzir melhor. Incentivo à reorganização empresarial através da automação, da digitalização e melhor gestão de processos pode resultar em atração e retenção de talentos etc.
Se mal implementado, o fim da escala 6×1 pode gerar aumento de custos unitários de produção e pressão inflacionária em setores intensivos em mão de obra, redução de empregos formais e aumento da informalidade. A literatura econômica mostra que reformas de jornada sem ganhos simultâneos de produtividade podem reduzir competitividade.
O fim da escala 6×1 não deve ser analisado apenas como uma questão trabalhista ou social, mas como uma transformação potencial no modelo produtivo brasileiro. Se acompanhado de políticas que incentivem inovação, qualificação e modernização organizacional, o fim da escala 6×1 pode contribuir para aumentar a produtividade por hora trabalhada. Caso contrário, há risco de aumento de custos e perda de competitividade em uma economia que já enfrenta desafios estruturais relevantes.