Política, pensamento e a coragem de falar

Hannah Arendt dizia que o maior perigo para a vida pública não é a presença do conflito, mas a ausência do pensamento. Essa ideia sempre me inquietou. Talvez por isso me incomode tanto observar pessoas afirmarem, com certo orgulho, que não debatem sobre questões da política, inclusive nos ambientes de instituições culturais. Como se a política fosse uma doença contagiosa, da qual bastaria manter distância para preservar a saúde moral.

A palavra “política”, hoje, foi sequestrada pela discussão fanática vinculada a opções partidárias. Tornou-se sinônimo de disputa eleitoral, de slogans vazios, de ataques pessoais. No entanto, a política, em sua origem mais profunda, é outra coisa: é o espaço onde os seres humanos aparecem uns aos outros, discutem o comum, constroem sentidos coletivos. Aristóteles já dizia que o homem é um animal político porque só se realiza plenamente na vida em comunidade.

O problema é que, ao reduzir política a partidarismo, abdica-se do pensamento. Gramsci advertia que a indiferença é uma das formas mais eficazes de dominação. Quando alguém se declara “apolítico”, na verdade, está aceitando que outros pensem e decidam por ele. A neutralidade, como já aprendi ao longo da vida, raramente é neutra: quase sempre favorece a ordem existente.

A política também se manifesta nas escolhas silenciosas: no que consideramos justo ou injusto, no que toleramos, no que denunciamos, no que preferimos esquecer. Norberto Bobbio lembrava que a democracia não é apenas um conjunto de instituições, mas uma cultura, um modo de pensar e de dialogar. Sem essa disposição para o debate, resta apenas a administração do poder por poucos.

Quando escrevo sobre educação, memória histórica, desigualdade social, soberania nacional, cultura e defesa da democracia, não estou fazendo campanha partidária. Estou exercendo aquilo que Kant chamaria de “uso público da razão”: a capacidade de pensar em voz alta sobre o destino comum. Isso pode desagradar, incomodar, provocar rótulos. Mas é, talvez, uma das poucas formas de preservar a dignidade do pensamento em tempos de ruído.

Recusar-se a pensar politicamente é, em última instância, recusar-se a pensar o mundo. E, como alertava Arendt, onde o pensamento se ausenta, instala-se a banalidade — não apenas do mal, mas também da mediocridade, da acomodação e do esquecimento.

Talvez a política, no seu sentido mais nobre, seja isso: a coragem de julgar, de falar, de não se esconder atrás do conforto da indiferença. Porque, mesmo quando nos calamos, estamos, de algum modo, participando da política — apenas do lado do silêncio. Eu fiz a escolha de não me omitir, nem me submeter a pressões e censura., de quem quer que seja.

Mais Posts

Tem certeza de que deseja desbloquear esta publicação?
Desbloquear esquerda : 0
Tem certeza de que deseja cancelar a assinatura?
Controle sua privacidade
Nosso site utiliza cookies para melhorar a navegação. Política de PrivacidadeTermos de Uso
Ir para o conteúdo