Quando a verdade incomoda, quase sempre surgem esforços deliberados para diluí-la, anestesiá-la ou distorcê-la. Não se trata de ingenuidade, mas de estratégia. Minimizar seus efeitos ou negar realidades históricas é, muitas vezes, um expediente consciente de exploração política. Na era da chamada “pós-verdade”, a inversão de sentidos tornou-se prática recorrente: o que foi real passa a ser tratado como mentira; o que foi violência é travestido de “excesso”; o autoritarismo é rebatizado como ordem.
Causa indignação observar a insistência em rejeitar a verdade histórica sobre os anos mais sombrios do Brasil republicano, quando um golpe militar interrompeu a democracia e instaurou, por mais de duas décadas, um regime baseado na censura, na perseguição política, na tortura e no silenciamento. Não foram fatos isolados nem desvios pontuais: foi um projeto de poder. Ainda assim, há quem se empenhe em fragmentar esses acontecimentos para esvaziar seu significado histórico e político. A mídia instrumentalizada e o discurso político oportunista foram — e continuam sendo — usados como ferramentas de falseamento da memória coletiva.
Por conveniência ideológica, insiste-se em negar a objetividade da verdade histórica, aquela que deixou marcas profundas, corpos feridos e instituições deformadas. Uma ideologia dominante, alienada e deliberadamente alienante, despreza a narrativa real dos fatos e tenta impor versões adulteradas às gerações que não viveram aquele período. Trata-se de um esforço consciente de deseducação histórica. Por isso, a sociedade não pode se permitir esquecer — sobretudo quando o passado que se tenta apagar carrega lições duras, porém essenciais, para a preservação da democracia.
A história não pode ser interpretada ao sabor das conveniências políticas do presente, quase sempre rasas e passageiras. O passado não se altera por decreto, nem por discursos inflamados nas redes sociais.
Quando a memória ainda pulsa, não basta recorrer apenas a estatísticas ou pesquisas frias: é preciso ouvir os testemunhos de quem viveu os acontecimentos. Eu fui testemunha desse período que hoje tentam reescrever. E decidi registrá-lo não por vaidade pessoal, mas por responsabilidade histórica. Além da vivência direta, e recorri a pesquisas em jornais da época, aos relatórios das Comissões da Verdade — nacional e estadual — e a entrevistas com personagens centrais desse tempo de exceção. Esse trabalho resultou no livro Eu Vivi a Ditadura Militar, publicado pela Editora A UNIÃO.
Destruir, ocultar ou relativizar informações que permitam o acesso ao conhecimento do passado, sob pretextos políticos, é adotar deliberadamente a lógica do esquecimento. É negar um direito constitucional: o direito à memória coletiva.
Resgatar as verdades históricas da ditadura não é revanchismo, como tentam rotular seus críticos, mas um ato pedagógico e democrático. É um alerta às gerações atuais e futuras para que jamais naturalizem o autoritarismo nem tolerem novas aventuras golpistas. Relembrar é um dever de memória — e também um dever cívico.
Como adverte a pensadora canadense Régine Robin, “os esquecimentos sistemáticos em forma de perdões ou de anistias são outra maneira de realizar o apagamento do passado das sociedades”. Sua reflexão é especialmente atual diante das tentativas de normalizar a violência política e de conceder anistia a quem atentou — ou ainda atenta — contra o Estado Democrático de Direito. Esquecer não é reconciliar; é legitimar. E uma sociedade que legitima o apagamento do seu passado abre espaço para que ele se repita.