Bocado mostra a maçã por dentro.

durval leal

A metáfora da maçã talvez seja uma das mais persistentes da humanidade.  Figurativamente, a maçã teria oferecido ao homem o livre-arbítrio: ao estender o fruto  a Adão, estabeleceu-se ali uma quebra de paradigma, um rompimento no elo de  fidelidade entre o Divino e o paraíso.

Ao longo do tempo, a maçã virou a “fruta do mal”, emblema do desejo explícito,  não apenas do que se quer, mas do que se imagina ser “o melhor”: as delícias terrenas,  o mergulho no infinito feminino, a atração do toque. Antes mesmo de povoar qualquer  coisa, o desejo já estava instalado no símbolo, no brilho, no vermelho puro.

E há um outro lado, mais prosaico e mais cruel: você escolhe, seleciona e compra  uma maçã lustrosa, perfeita, com toda a conformidade da forma e da aparência. A maçã atrai sua superfície promete. Mas basta abrir, por dentro, está estragada.

O que era promessa vira decepção; o que era brilho vira podridão. E é nessa hora que a metáfora perde a delicadeza e ganha a contundência: a aparência não apenas engana, ela se organiza para enganar. A casca, impecável, vira uma espécie de propaganda; o miolo, corrompido, é a contabilidade real.

É assim que eu tenho visto as instâncias do Estado, e aqui a indignação não precisa de floreio. No Executivo, quantos presidentes presos nos últimos 25 anos? No Legislativo, nem se fala: a corrupção é tratada como assunto de bastidor, quase um item de pauta não oficial.

Repete-se, com naturalidade inquietante, que “não há homem de bem”; se existe,

foi diluído na mistura morna do café com leite, espalhado em todas as cafeterias do  país, como se o costume de acomodar o princípio fosse tradição de família desde a  década de 1950. A cada dia, o Estado se denigre mais: tudo parece “verdadeiro”, mas a verdade, quando chega, chega atrasada e, quando chega, já vem com tutela, carimbo e discurso.

E então entra a toga. A toga cai bem nos ombros de suas majestades, os senhores e supremos ministros. Ela impõe, ela pesa, ela intimida, e por isso mesmo deveria ser mais exigente com quem a veste. Mas o que se vê, muitas vezes, é a toga como cenário: um figurino de solenidade para encobrir a política miúda.

O resultado é um país em que a liturgia substitui a ética, onde o gesto austero vira argumento e o que parece “supremo”, por vezes, mais uma marca do que uma função. E, no meio disso, o fato mais escandaloso é simples, quem tem dinheiro suficiente começa a agir. Decide como se pudesse comprar não apenas decisões, mas a própria ideia de decisão. Vamos corta a água da Lava Jato as operações não devem atingir nas alturas, se atingir pode tombar.

Não tenho desprezo por Mister Vorcaro. Ao contrário: o banqueiro do Master chega a exibir um refinamento de maldade, do tipo que, se fosse desenho animado, viria acompanhado de uma risadinha de Mutley, o cachorro do Dick Vigarista na Corrida Maluca. Hihihi!!!!

Em Brasília corre-se pelas benesses dos supremos

Porque há, sim, uma inteligência operacional nesse tipo de personagem: ele entende o mapa do poder, entende as portas, entende os rituais. E, principalmente, entende uma regra não escrita: tudo, um dia, passa e atinge o topo.

Como Mutley, testemunhando as trapaças do dono, o jovem banqueiro desenhou o percurso com método. Circulou pelo Congresso, agradou governadores, recebeu os “príncipes das emendas”, fez afagos na mídia, vestiu a camisa do clube preferido, colocou o clube no “banco”, então ele compareceu a todas as festas com os magistrais e personalidades que lhe franqueariam acesso e influência.

Chega a ser admirável, num sentido perverso: ele sabia que tudo chega ao Supremo. E, sabendo disso, fez tudo conforme o script, como quem monta um seguro para o futuro com cláusulas invisíveis, como as que derrubaram a Lava Jato.

Daí vem o ponto que parece síntese do nosso tempo: quem é, afinal, o homem mais poderoso do Brasil, do momento?

O senhor da lança, o “Rei dos Unos”, o defensor da democracia, o “mais supremo dos Supremos”, tão supremo que nem cabelo precisa ter, porque está protegido do uso
do Capiloton, que não o atingirá.

E então, o “incrível” Master Vorcaro assina contrato com uma banca, o escritório de advocacia da mulher e dos filhos do ministro das fake news. Um contrato “das estrelas”, além do Supremo: uma fortuna que, segundo o jornal O Globo, passaria de 120 milhões em três anos. NÃO HÁ SUSPEIÇÃO (!?)

E não parou aí: um torcedor do verdinho, o supremo dos “pig” teria sido convidado para o Peru, para delícias dos Andes, melhores vinhos, melhores piscos, e  ainda para assistir à final da Libertadores da América,de jatinho para ver o amado verdão. NÃO HÁ SUSPEIÇÃO (!?).

Tudo cuidadosamente traçado, só não levou os irmãos sócios, como quem ergue  uma cerca em um Resort contra incêndio, e, depois, posa de guardião de provas para  serem maculadas, e seguir o rito constitucional, tem cheiro de fumaça extingue o  processo. NÃO HAVERÁ SUSPEIÇÃO, MINISTÉRIO PÚBLICO(!?).

No Legislativo, comprou, aliou-se, sentou com os mestres do Centrão que  comandam o Brasil há vinte anos ou mais. Pagou emendas, dinheiro vivo, chamou todos a investir no seu CDB com 140% de retorno, um óbvio tão gritante que só poderia prosperar onde o óbvio virou método. E o sistema bancário, que compra sentimento com números, aceitou durante anos essa manipulação de juros absurdos como se fosse normalidade. Temos o Fundo Garantidor, nada faltará.

Não é “vigarista de um dia” foi tudo projetado. E, num país que transformou a  Corrida Maluca em modelo de governança, não falta personagem: talvez não haja Penélope Charmosa, mas há carecas no Castelo Mal-Assombrado, há os irmãos Pedreiras, há a corrida pelo ouro, pelo metal, pelas verdinhas, e há, sobretudo, a certeza de que, mais cedo ou mais tarde, o Banco Central apareceria.

Então ele correu para se proteger: no Legislativo, no Judiciário, no mercado, e com narrativas dos influencers, aqueles que não são percebidos pelos Supremos.

Mudamos o fruto, mas não mudamos o vício: hoje a banana numa República de Bananas está ficando muito cara, só à ética virou a antiga banana, pois perdeu seu valor, mas se equipara a maçã que continua estragada por dentro.

A ganância humana esse “livre-arbítrio” mal compreendido, segue sendo o miolo podre protegido por uma casca brilhante. E aqui, por mais absurdo que soe, “temos que dignificar” Master Vorcaro: ele soube se proteger, soube manipular becas e togas brilhantes que se julgam acima dos ditames da Lei e da Constituição.

Conseguiu comprar muitos, talvez “todos” na sensação popular, e hoje, consciente e cinicamente, ameaça delatar: porque gravou, porque registrou, porque  pode “mostrar o que a van viu”, revelando o que criaturas supremas fazem com a nação.

Diz-se que o exemplo vem de cima. Vem, sim, quando não está à venda. Porque, quando o andar de cima negocia princípios como quem liquida estoque de maçã vencida, o andar de baixo da República de Bananas aprende rápido: caráter vira detalhe, ética vira adereço e a regra passa a ser o cinismo organizado.

Move-se pela convicção de que tudo tem preço e quase nada tem consequência

Os pilares que sustentaram o Ocidente, o direito romano, a razão grega e a moral judaico-cristã, não ruíram por ataque externo: foram polidos até perder a aspereza, lustrados até virar decoração em balcão de atacado.

E o cidadão de bem, esse figurante persistente, permanece com a maçã aberta na mão. Vê o cancro da fruta, sente o cheiro, reconhece a podridão, e afirma:

CASCA BONITA NÃO BASTA PARA PORCOS.

A Fábio Pedro

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