OPINIÃO: Filme INDEX e a consolidação de João Lobo no circuito internacional, por Thales Trigo, PhD, para site e Revista NORDESTE

João Lobo

O filme INDEX marca um ponto de inflexão na trajetória artística de João Lobo, consolidando sua passagem das artes visuais e da fotografia para um campo cinematográfico autoral de linguagem própria e consistente. A obra foi exibida como filme de abertura da 20a edição do Festival Internacional Aruanda, em João Pessoa, um evento que se consolidou como um dos principais espaços de observação crítica do cinema autoral brasileiro contemporâneo.

A escolha de INDEX para a sessão inaugural do festival foi interpretada por críticos e curadores como um reconhecimento da maturidade do trabalho cinematográfico de Lobo.

Não se trata de uma estreia isolada, mas do desdobramento de uma produção fílmica contínua, construída ao longo de décadas, que inclui curtas-metragens como Ágora (1986), Corpo e Alma (2000), O Essencial é Invisível (2008), Across Lens (2011) e Tessituras Urbanas (2012). Esses trabalhos revelam uma pesquisa persistente sobre imagem, tempo e materialidade, sempre em diálogo direto com sua produção em fotografia e artes visuais.

AMBIENTE

O contexto do Festival Aruanda reforça ainda a inserção de INDEX em um movimento mais amplo, frequentemente identificado como o “Cinema Paraibano na Contemporaneidade”. Esse conjunto de produções tem se destacado em mostras e festivais nacionais e internacionais por uma abordagem estética que privilegia o risco formal, a experimentação e a autonomia autoral, afastando-se deliberadamente de modelos narrativos convencionais.

Parte significativa da recepção crítica de INDEX reconhece que a formação de João Lobo nas artes visuais é decisiva para a singularidade do filme. Sua prática cinematográfica é frequentemente descrita como a de um realizador que “filma como quem fotografa”, no sentido preciso do termo: atenção rigorosa à luz, ao enquadramento, à textura da imagem e à relação entre figura e espaço.

O resultado é uma experiência visual marcada por lentidão, concentração e um tipo de hipnose perceptiva que desloca o espectador das narrativas tradicionais.

Antes de sua circulação em festivais de cinema no Brasil, o projeto INDEX já havia sido apresentado em importantes centros culturais europeus, com passagens por Lisboa e Madri. Essa trajetória inicial contribuiu para a consolidação do trabalho como uma obra
situada na fronteira entre cinema, instalação e exposição, o que ajuda a compreender sua distância consciente dos circuitos comerciais e das convenções do cinema industrial.

Nesse sentido, INDEX deve ser entendido como um projeto transmídia, articulando livro, exposição e filme como partes complementares de uma mesma investigação artística. O núcleo conceitual do projeto é a Pedra do Ingá, monumento arqueológico situado no agreste paraibano, conhecido por suas inscrições rupestres ainda não decifradas, datadas por pesquisadores em cerca de seis mil anos.

ELEMENTOS

O livro e a exposição reúnem registros fotográficos realizados com diferentes tecnologias — analógicas e digitais — enquanto o filme propõe uma experiência imersiva, construída para que o espectador perceba as Itacoatiaras não como objeto distante, mas como espaço sensorial.

A trilha sonora, desenvolvida em colaboração com o maestro Eli-Eri Moura, ocupa papel central na estrutura do filme. Longe de funcionar como simples acompanhamento, o som atua como elemento estruturante, traduzindo ritmos, tensões e ressonâncias da pedra em uma experiência sonora contemporânea, que amplia o alcance sensorial e simbólico da obra.

Ao reunir rigor formal, pesquisa estética prolongada e circulação internacional consistente, INDEX afirma João Lobo como um cineasta cuja obra ultrapassa fronteiras regionais ou nacionais. Trata-se de um trabalho que dialoga com debates contemporâneos do cinema de autor e das artes visuais, sustentando-se não pelo discurso promocional, mas pela coerência e densidade de sua linguagem artística.

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