Os EUA, a Venezuela e a ameaça de recolonização da América Latina

Os presidentes da Venezuela e dos Estados Unidos, Nicolás Maduro e Donald Trump (Foto: Reprodução)

Na manhã do último dia 03 de janeiro, o mundo acordou assustado com a notícia de que tropas norte-americanas tomaram de assalto a Venezuela e sequestraram o presidente Nicolas Maduro e a primeira-combatente, Cilia Flores. A operação ocorreu pela madrugada, com as tropas norte-americanas usando ferramentas de guerra cibernética (paralisando as defesas inimigas) e contando com a nítida supremacia das suas forças militares. Mesmo assim, informações mais recentes dão conta de cerca de 100 pessoas mortas em combate, inclusive guardas cubanos, encarregados da proteção ao chefe do governo venezuelano.

A vice-presidente, Delcy Rodrigues, militante fiel do projeto iniciado por Hugo Chavez, assumiu o cargo. Nicolás Maduro e Cilia Flores enviam mensagem, prestando apoio a Delcy Rodríguez. O governo interino tenta sobreviver e resistir, procurando se equilibrar entre, de um lado, a pressão avassaladora das armas dos inimigos imperialistas que lhes impõem um duríssimo bloqueio e, na outra ponta, o compromisso com as linhas centrais da revolução bolivariana e a lealdade ao governante ilegalmente apreendido. A pátria de Bolívar resiste, aguardando uma virada na conjuntura.

Porque os EUA atacaram a Venezuela? Podemos encontrar a resposta nas palavras do próprio presidente Donald Trump que, em entrevista coletiva, repetiu à exaustão o vocábulo “petróleo”. Como muitos sabem, o país sul-americano possui as maiores reservas mundiais do óleo negro, que ainda move a maior parte da economia mundial. Os EUA vivem um momento de perda de sua liderança econômica e política no planeta, em virtude da ascensão da China, que amplia sua área de influência no mundo. O governo trumpista tentaa barrar a influência crescente dos orientais, bem como seu acesso a novas fontes de energia. A agressividade do governo americano é proporcional ao avanço da decadência do “império”.

A Venezuela possui as maiores reservas de petróleo do mundo, cerca de 303 bilhões de barris, e tem nas últimas décadas sido um fornecedor importante para o mercado chinês. De acordo com o portal Brasil de Fato, em 2025, as importações do óleo mineral natural combustível venezuelano por parte da China alcançaram cerca de 470 mil barris por dia, representando aproximadamente 4,5% das importações marítimas totais do país.

O sequestro de Maduro e Cília representou uma clara violação às leis internacionais. Não se baseou em nenhuma deliberação de qualquer organismo multilateral (como a Organização das Nações Unidas – ONU e a Organização dos Estados Americanos – OEA). Também não houve autorização do Congresso estadunidense para que as Forças Armadas procedessem a operação.

O ataque se fundamentou na Doutrina Trump de política externa, segundo a qual os EUA têm o direito e o dever de intervir diretamente quando considerar que um país da região ameaça os seus interesses, seja através de sanções ou do uso da força. No começo do século XIX, o país norte-americano já se expandia, baseado no “destino manifesto”, que expressava a crença de que eles foram eleitos por Deus para dominar outros povos e territórios. O multilateralismo tem sido substituído pelo governo americano por um estilo belicista e isolacionista.

A Doutrina Trump replica a Doutrina Monroe, anunciada em 1823 pelo presidente dos EUA, James Monroe, que estabeleceu que a América não deveria ser mais colonizada por potências europeias e que os EUA não interferiram em assuntos do velho mundo, resumida no lema “A América para os americanos”, que objetivava coibir a recolonização e afirmar a liderança dos EUA. Ela acabou justificando o próprio imperialismo americano na região.

A estratégia ianque para o continente foi reforçada pelo Corolário Roosevelt (do início do século XX, que defendia a diplomacia quando fosse possível e a força quando se tornar necessário), de autoria do presidente Theodore Roosevelt. Conjugado com a Política do Grande Porrete, o Corolário foi o marco de um período de intervenção direta dos EUA sobre os países latino-americanos, em diversos momentos históricos. Nos tempos da “Guerra Fria” entre EUA x URSS, aquele país apoiou a fracassada invasão da Baía dos Porcos (Cuba, 1961) e participou ativamente de golpes de estado para destituir governos progressistas e nacionalistas em países como o Brasil, Argentina, Chile e Uruguai.

A Doutrina Trump é a reimplantação de um modelo colonialista na relação entre os EUA e a Venezuela. As medidas anunciadas por Trump e sua equipe retiram totalmente deste país a autonomia política e econômica, em especial, na venda e na utilização dos recursos petrolíferos, principal fonte de riqueza do país. Especialistas da ONU condenaram o bloqueio naval imposto pelos EUA contra navios petroleiros que adentram e partem da costa venezuelana. Os bloqueios são considerados uso da força militar contra outro país, o que é vedado pela Carta das Nações Unidas.

Não cabe aqui um debate aprofundado e específico sobre o regime venezuelano (precisaremos de um texto específico sobre), mas falhas em governos e nos sistemas políticos dos países são comuns e merecem ser apontados, a exemplo dos próprios EUA. Vamos lembrar que o próprio Trump denunciou fraudes no sistema eleitoral norte-americano e apoiou a tentativa de um golpe de estado, como no episódio da invasão do prédio do Capitólio (local onde o Congresso se reúne) em 2021. Que moral tem o presidente americano de querer consertar outro país?

Numa postagem nas redes sociais, o presidente dos EUA, Donald Trump, chegou a publicar uma postagem que o apresenta como “presidente interino da Venezuela”, num total desrespeito com a soberania de um outro país.

O episódio acendeu o sinal amarelo para outras nações latino-americanas que tem diferenças com o governo dos EUA. Recentemente, o presidente Donald Trump afirmou que o país irá iniciar operações terrestres contra os cartéis de drogas que “estão controlando o México”. A Colômbia também sofreu ameaças do governo Trump. Nos último dias, o chefe de estado estadunidense disse que também Cuba deve “fazer um acordo antes que seja tarde”, numa clara ameaça ao governo da ilha. Temos que barrar um possível processo de recolonização.

A resistência contra o colonialismo e pela autodeterminação dos povos é fundamental neste momento e as pessoas começam a atentar para isso. Um exemplo é o manifesto internacional de intelectuais contra o ataque dos Estados Unidos à Venezuela que recebeu a assinatura do presidente da Colômbia, Gustavo Petro, e do Nobel da Paz Adolfo Pérez Esquivel. O documento critica a ação norte-americana e a associa a antigas práticas de dominação colonial, apontando para uma escalada de violações da soberania latino-americana e do direito internacional. O texto também conta com a adesão de nomes como o respeitado economista Jeffrey Sachs, da historiadora Aviva Chomsky, filha de Noam Chomsky, e o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, dentre outros.

No Brasil, segmentos de esquerda e movimentos sociais, a exemplo do Movimento dos Trabalhadores Rurais – Sem-Terra (MST) tem se solidarizado aos venezuelanos. O movimento tem sido parceiro do governo bolivariano na implementação de iniciativas voltadas ao desenvolvimento da agricultura familiar e da agroecologia por lá.

É um erro tratar o episódio do ataque à Venezuela como um fato isolado. A ação do governo Trump é um projeto de dominação mais amplo. Primeiro a conquista de um país isolado, depois um continente inteiro sob o jugo de Washington.

Como um dos líderes da América Latina, o Brasil precisa acompanhar essa situação e agir para defender a soberania dos diversos países e da região como um todo, como começou a fazer. No ano passado, o Brasil sofreu sanções tarifárias do “irmão do Norte”. Apesar da situação ter sido amenizada, nada assegura que Trump e sua turma venham a assistir, de braços cruzados, a uma possível reeleição do presidente esquerdista Lula da Silva no pleito deste ano. Nosso país poderá ser a “bola da vez”.

É preciso resistir a um projeto autoritário, que ameaça com a reconversão da América Latina à condição de colônia. Foi contra isso que lutou o herói libertador Simon Bolívar, que doou sua vida pelas causas da independência e da unidade latino-americana e que preconizava que “a liberdade é o único objetivo digno de sacrifício da vida dos homens”. A paz, o respeito às diferenças e o entendimento precisam prevalecer num mundo cada vez mais interdependente, com uma governança global mais justa e democrática.

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