O mercado digital brasileiro precisa de diálogo, não de rótulos

O mercado digital brasileiro deixou há muito tempo de ser apenas um espaço de comunicação. Hoje, ele é parte real da engrenagem econômica do país. O setor de marketing digital, publicidade e comunicação corporativa e institucional online movimenta dezenas de bilhões de reais por ano, sustenta milhares de empresas e gera empregos em áreas que vão da criação à tecnologia, da análise de dados ao jornalismo.

Por isso, é preciso cuidado com generalizações. Os erros de alguns não podem definir um setor inteiro. Como em qualquer atividade econômica, há exceções que precisam ser corrigidas, mas transformar casos pontuais em regra enfraquece um mercado que, na imensa maioria das vezes, atua com profissionalismo e responsabilidade.

Falo como dono de agência e como presidente da ABRADi Paraíba, acompanhando diariamente os desafios enfrentados pelo setor produtivo digital. O cotidiano das agências no Brasil é marcado por margens apertadas, clientes inseguros diante das mudanças rápidas do ambiente tecnológico, atualizações constantes das plataformas e um cenário regulatório ainda em construção. Mesmo assim, milhares de empresas seguem trabalhando de forma correta, gerando empregos qualificados, pagando impostos e ajudando marcas e instituições a se comunicarem melhor com a sociedade.

O debate sobre regulamentação é necessário e bem-vindo. Mas ele precisa ser conduzido com diálogo. A construção de regras para o marketing digital, para as mídias digitais e agora para a inteligência artificial não pode acontecer sem ouvir quem opera esse sistema todos os dias. Regulamentar sem escuta é correr o risco de criar normas que não organizam apenas dificultam.

Da mesma forma, é fundamental que as próprias plataformas digitais ampliem o diálogo com o setor produtivo. Elas ocupam hoje um papel estrutural na economia da comunicação. Suas decisões impactam diretamente agências, anunciantes, produtores de conteúdo e milhões de pequenos negócios que dependem do ambiente digital para existir. Um ecossistema saudável se constrói quando tecnologia, mercado e regulação caminham juntos.

Esse debate ganha ainda mais relevância com a chegada do chamado ECA Digital, que entra em vigor em março de 2026 e traz novos desafios para todo o ecossistema digital. A recente consulta pública conduzida pelo Ministério da Justiça, com contribuições do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) sobre mecanismos de aferição de idade no ambiente digital, aponta um caminho importante: regular com diálogo e governança multissetorial.

Proteger crianças e adolescentes no ambiente online é uma prioridade inegociável. Mas, para que essa proteção seja efetiva e não apenas simbólica, é fundamental que plataformas, agências e setor produtivo participem da construção dessas soluções. Sem essa escuta, corre-se o risco de criar normas bem-intencionadas, mas difíceis de aplicar na prática, gerando insegurança jurídica e impactos desnecessários para quem produz, comunica e empreende.

Regular é importante. Engessar, não. O Brasil precisa de normas claras, mas também de inteligência regulatória: leis que protejam o cidadão, fortaleçam a transparência e, ao mesmo tempo, preservem a capacidade de inovação de um setor que ainda está em plena expansão.

O avanço da inteligência artificial torna esse debate ainda mais urgente. A IA já faz parte da rotina das agências, da criação à análise de dados, do atendimento à estratégia. O desafio não é barrar a tecnologia, mas criar um ambiente onde ela avance com responsabilidade, segurança jurídica e participação ativa de quem está na ponta.

O que o mercado digital pede não é ausência de regras. É regra construída com escuta. Um ambiente onde governo, plataformas e setor produtivo caminhem juntos tende a gerar mais segurança, mais inovação e mais benefícios para a sociedade.

Mais do que rotular, é hora de dialogar. Porque um mercado que conversa evolui. E um país que escolhe o diálogo no lugar da generalização constrói um futuro digital mais forte, mais justo e mais sustentável.

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