Paulo Amilton analisa o sequestro de Maduro e a “abertura das portas do inferno” na geopolítica

Nicolás Maduro
Foto: Reprodução/Truth Social/@realDonaldTrump

Por Paulo Amilton Maia Leite Filho
“O negócio da América são os negócios”
– Calvin Coolidge (ex-presidente dos EUA)

Na madrugada do dia 3 de janeiro de 2025, soldados dos Estados Unidos (EUA) adentraram em território venezuelano e sequestraram seu presidente. Um presidente ilegítimo, diga-se de passagem, um ditador que perdeu as eleições de 2024 e não reconheceu o ganhador. Logo depois o mandatário americano, aquele que está sendo acusado de estupros de vulneráveis, anunciou que seriam os EUA quem assumiriam as rédeas do governo venezuelano e que atuações simulares na Colômbia e em Cuba seriam naturais. Isto sem falar que o segundo escalão americano já desenha como seria a administração da Groelândia.

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Tais comentários me fizeram pensar que a década de 2020 repete de forma muito parecida a década de 1920 e decidi fazer um paralelismo com os dois períodos, pois são momnetos de transição de uma visão de mundo para uma outra completamente diferente.

A década de 1920 emergiu de um período de profunda ruptura global, a Primeira Guerra Mundial. Da mesma forma, a década de 2020 nasce marcada por choques sistêmicos, como a pandemia de COVID-19.

Nos anos 1920, a ordem liberal internacional mostrou sinais claros de fragilidade. Nos anos 2020, observa-se novamente o enfraquecimento do multilateralismo e das instituições globais. A crise econômica de 1929 foi precedida por excessos financeiros e desigualdade crescente. Hoje, desigualdade, endividamento e bolhas de ativos reaparecem como tensões centrais que foram muito acentuadas pela crise dos subprimes de 2008.

Politicamente, os anos 1920 assistiram ao avanço de movimentos nacionalistas e autoritários. Nos anos 2020, populismos de direita e esquerda voltam a desafiar democracias liberais. O descrédito nas elites políticas foi um traço marcante dos entreguerras. Esse mesmo descrédito reaparece na desconfiança atual em partidos, parlamentos e imprensa.

Na década de 1920, novas tecnologias de comunicação, rádio e cinema, ampliaram a propaganda política. Nos anos 2020, redes sociais e inteligência artificial cumprem papel semelhante, em escala muito maior.

A polarização ideológica cresceu fortemente após a Primeira Guerra. Hoje, a polarização digital e identitária fragmenta o espaço público. Nos anos 1920, tratados internacionais tentaram preservar a paz, mas falharam. Na década atual, acordos globais enfrentam dificuldades para lidar com conflitos e clima. A Liga das Nações simbolizou uma governança global frágil. Organizações multilaterais atuais enfrentam críticas semelhantes quanto à sua eficácia.
O protecionismo comercial aumentou no fim dos anos 1920. Nos anos 2020, políticas industriais e barreiras comerciais voltam ao centro do debate. As tarifas impostas a todos os países do mundo pelos EUA é um descarado movimento de proteção comercial.

A instabilidade política dos anos 1920 abriu caminho para regimes autoritários nos anos 1930. Hoje, teme-se que crises sucessivas corroam normas democráticas consolidadas. A democracia é vista hoje como um problema e não como solução para as escolhas sociais.

Ambas as décadas refletem momentos de transição estrutural do capitalismo. Em 1920, do liberalismo clássico para o intervencionismo estatal. Em 2020, da globalização irrestrita para um modelo mais fragmentado. Em ambos os casos, a política reage a transformações sociais. O deputado republicano pelo estado de Nebrasca Don Bacon entendeu as repercussões políticas do sequestro do mandatário venezuelano ao dizer:

“Minha maior preocupação é a Rússia agora usá-la para justificar suas ilegais e barbaras ações contra a Ucrânia ou a China usá-la para legitimar a invasão de Taiwan”.

O recente discurso dos EUA de que o uso da força é politicamente legítimo reforça o discurso da Rússia de que a invasão da Ucrânia é um direito. E esta pode se sentir encorajada a querer de volta suas antigas repúblicas soviéticas, como Lituânia, Estônia e Letônia. A China, que já tem o discurso de que Taiwan é uma província rebelde, se sentirá estimulada a invadir a ilha. Exercícios militares são feitos cada vez mais perto das fronteiras da ilha.

Temos de volta a política de 1920 das esferas de influência. A América Latina inteira para Trump, as antigas repúblicas soviéticas para Putin e Taiwan, e regiões próximas, para Xi Jimping. O sequestro do ditador venezuelano pode ter aberto as portas do inferno de uma nova guerra mundial, como aconteceu com a década de 1920. Parafraseando Henrique de Navarra, Rei da França, Maduro vale bem menos do que uma missa.

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