Ainda vivíamos o período sombrio da ditadura militar quando Guilherme Arantes compôs “Amanhã”, em 1977. A canção nasce como um hino de esperança em dias melhores que viriam, apesar dos pesares. É uma proclamação de otimismo no futuro, ainda que o presente fosse marcado pela apreensão e pela incerteza.
“Amanhã! / Será um lindo dia / Da mais louca alegria / Que se possa imaginar.” Era o sonho de todo brasileiro: ver o amanhã pleno de alegria, libertar-se do estado de medo, opressão e ausência de liberdade em que o país estava mergulhado. “Será um lindo dia” simbolizava um futuro no qual ele acreditava — sereno, alegre, independente.
A canção procurava injetar ânimo, coragem e entusiasmo para a construção desse “amanhã”. Uma força que haveria de vingar, redobrada em destemor, para enfrentar os perigos, as ameaças e as pressões impostas pela ditadura à nossa gente. Havia ali a confiança de que os mistérios desapareceriam, de que os segredos do governo de força instalado no país seriam desvendados. Um novo sol voltaria a brilhar sobre nossa terra: claro, transparente, sem enganos ou falsas propagandas.
Guilherme acreditava que não haveria poder capaz de impedir essa luminosidade por vir. O jugo da violência e da opressão estava condenado ao fim. Não poderia continuar prevalecendo a força de uma minoria em detrimento dos desejos de todo um povo. Seus versos carregavam a crença profunda em dias melhores e alimentavam a expectativa de que a esperança — por menor que parecesse — seria cultivada e cresceria junto com a disposição de conquistar a liberdade e restaurar a democracia.
A canção estimulava a não sucumbir às dificuldades impostas, a não se intimidar com bravatas oficiais, a não se acovardar diante dos abusos de autoridade e da tirania. Manifestava a convicção de que a energia da maioria venceria as arbitrariedades de uns poucos. A pujança dos que desejavam ver um “novo dia raiar” fortaleceria a luta contra os poderosos de plantão.
O clima de ódio, perseguições, torturas e sanha repressiva estaria próximo do fim. Não viveríamos mais sob o peso do medo, do pavor permanente, da intranquilidade cotidiana. Alcançaríamos um tempo de paz, de congraçamento fraterno entre os brasileiros, de respeito aos direitos humanos, de justiça social e de um renovado amor à pátria. “Será pleno!”, completo de felicidade.
Hoje, a letra dessa canção volta a soar atual. Cada verso injeta ânimo para o enfrentamento daqueles que insistem em matar a democracia em nosso país.
Como diz Chico Buarque: “Esse silêncio todo me atordoa, e atordoado eu permaneço atento”. E ainda: “Sonhar um sonho impossível… Lutar quando é fácil ceder… Vencer o inimigo invencível… Negar quando a regra é vencer…”.
Guilherme Arantes e Chico Buarque nos lembram que lutar é indispensável e que tempestades passageiras podem se transformar em ventos arejantes, desde que estejamos dispostos a enfrentá-las. Mesmo quando parecemos inertes, é preciso permanecer atentos, porque, como ensina Geraldo Vandré, “quem sabe faz a hora, não espera acontecer”.

