Nesta véspera da premiação mais importante do cinema, as atenções do público, indústria e imprensa se voltam ansiosas a Los Angeles, palco da cerimônia do 98° Oscar©.
Cá nos trópicos, os motivos para celebração e euforia mantém o padrão Ainda Estou Aqui de orgulho nacional. Após a bem sucedida campanha do filme de Walter Salles que trouxe para o país o prêmio de Melhor Filme Internacional em 2025, O Agente Secreto domina torcidas e esperanças.
A disputa pela estatueta dourada apresentou recorde de indicações a um filme brasileiro neste ano. ‘O Agente Secreto’, último longa do pernambucano Kléber Mendonça Filho concorre em quatro categorias, incluindo Melhor Filme, a principal da noite. A obra iguala o recorde de indicações que até então apenas Cidade de Deus (Fernando Meirelles, 2002) havia conseguido.
Wagner Moura, protagonista da obra, concorre a Melhor Ator junto a figurões do mainstream hollywoodiano. Nas bolsas de apostas da imprensa especializada, a disputa tende a favorecer Michael B. Jordan, estrela de Pecadores, que se consolidou como favorito após vencer o SAG Awards, premiação do sindicato de atores da meca da sétima arte.
Paraibanos no elenco
Beto Quirino, Buda Lira, Cely Farias, Fafá Dantas, Flávio Melo, Joálisson Cunha, Márcio de Paula e Suzy Lopes são os oito atores paraibanos que integram o elenco do filme do pernambucano.
Em entrevista ao Portal WSCOM em fevereiro, Suzy Lopes, a Carmem do filme, comentou a repercussão da indicação e a expectativa de vencer nas categorias indicadas.
“Acredito. Claro que acredito. Temos bastante capacidade, temos uma qualidade incrível. Estou me permitindo acreditar. O elenco, a fotografia, a equipe. Eu acho que é muito incrível”, declarou.
Com bom humor, Buda Lira, o Anisio d’O Agente Secreto, projetou: ““Vai dar três, pelo menos. Melhor filme, melhor ator, melhor elenco. É nós.”

Paraibanos no elenco de O Agente Secreto / Imagem: Divulgação
Termômetros na imprensa
Duas das mais tradicionais listas de apostas da imprensa americana apontam o favoritismo de Pecadores em quatro das cinco principais categorias. A obra de Ryan Coogler é a mais indicada da história da premiação e descrita como um fenômeno cultural e técnico da A24.
O jornal New York Times e a revista Variety e suas extensas coberturas do Oscar© elegeram ‘Pecadores’ como a mais provável obra a vencer Melhor Filme, Melhor Direção, Melhor Ator e Melhor Roteiro Original.
Timothee Chalamet e Wagner Moura aparecem como prováveis ameaças a Michael B. Jordan — elogiada pela dramaticidade de seu personagem — na avaliação dos veículos.
O Times aponta Jessie Buckley como a vencedora quase certa na categoria de Melhor Atriz, tendo “varrido” a temporada de premiações e sem concorrentes à altura em termos de momentum. Na avaliação de seus jornalistas e críticos, Buckley deve enfrentar Renate Reinsve, do drama damiliar ‘Valor Sentimental’, sua única ameaça direta.
And the Oscars goes to…
O Portal WSCOM contatou jornalistas, cineastas, produtores e críticos paraibanos para fazerem suas avaliações e apostas da cerimônia que encerra a temporada de premiações.
Apesar da torcida em uníssono pelo bom desempenho da obra de Kleber Mendonça Filho, os consultados pelo portal destacaram a boa disposição da escolha das obras em todas as categorias, considerando equilibrada a disputa deste ano e alguns até preferiram não arriscar palpites.
Juan Vilar
Cineasta e diretor de “Fragmentária” e “Sick of Moving Images”
“Este domingo do Oscar com certeza permanecerá de alguma forma na memória do Brasil, seja por uma vitória histórica ou por uma derrota cuja ressaca demorará a cessar. Na corrida pelo melhor filme (em que, ironicamente, F1 está em último lugar), não duvido que a premiação apontará para as obras e temáticas nacionais — que para nós são estrangeiras. Sinners, uma investigação imagética e audível intensa que, sem dúvida, é o melhor trabalho de Coogler, ou Uma Batalha Após a Outra, uma das mais interessantes representações dos EUA pós-retorno dos movimentos neofascistas ao poder. O Agente Secreto talvez fure essa bolha e marque uma zebra, mas acho difícil; há mais chances em Filme Internacional.
Para direção, a mesma composição: será Ryan Coogler ou Paul Thomas Anderson? Apesar de amar o trabalho de Renate Reinsve, Jessie Buckley conseguiu em Hamnet uma das mais interessantes interpretações dos últimos anos, num trabalho coordenado por Chloe Zhao. Sobre atuação masculina, Chalamet caiu na motivação de seu personagem egocêntrico, e aí voltamos para os mesmos protagonistas: DiCaprio, Michael B. Jordan ou Wagner Moura? Torço pelo baiano.
Em Filme Internacional, Sirat é o mais cruel e potente em montagem e fotografia. Mas a batalha verdadeira será entre Valor Sentimental e Agente Secreto: ambos não são as obras-primas de seus diretores (como Trier em seu filme anterior ou Kleber em Bacurau), mas estarão possivelmente definindo uma premiação em que nós, brasileiros, estaremos na torcida pelo segundo Oscar ao nosso cinema nacional.”
João de Lima
Cineasta, professor do Departamento de Artes e Comunicações da UFPB e membro da Academia Brasileira de Cinema
“Queria começar pela mudança de nomenclatura em 2026: agora é Melhor Filme Internacional. Vejo O Agente Secreto com bastante chance este ano, o que repetiria a façanha do ano passado para o Brasil, nos aproximando de países como Itália e França que já repetiram o feito. Como o Oscar é uma competição da indústria americana, a categoria de filme internacional é onde eu apostaria para o filme de Kleber Mendonça Filho vencer.
Houve a introdução da categoria Direção de Elenco, e aposto nO Agente Secreto também aqui. O ‘cast’ de atores é extraordinário; fizemos um debate com os atores paraibanos do filme e foi uma maravilha valorizar nossos quadros, considerando nossa tradição iniciada no cinema silencioso com Amazile Jurema. Temos dez artistas paraibanos no filme.
O elenco é tão bom que apostaria em Wagner Moura para Melhor Ator. Ele já vive nos EUA, tem repertório lá e apostou na carreira internacional no momento certo; tem chance, ao contrário do que diz a mídia brasileira. Para Melhor Fotografia, sugiro observar o trabalho do brasileiro em Sonhos de Trem; ele foi destacado por vir do documentário e enfrentou uma ficção muito legal sobre um homem absorvido por questões de consciência. Melhor Atriz é de Jessie Buckley; parece não ter chance para mais ninguém. Ator acredito que fica com Sean Penn pela tradição. Melhor Filme vai para Pecadores ou, com alguma surpresa, Formula 1.”
Cláudio Paiva
Jornalista e professor do Departamento de Comunicação da UFPB
“A festa do Oscar se tornou mais democrática, abriu-se para a multiculturalidade e para filmes de várias partes do mundo. Menos Rock e Rambo, menos aceleração e mais tempo para o telespectador pensar e refletir ao degustar a obra de arte. Cerca de 10.000 profissionais da indústria, membros da Academia, estão habilitados a votar. Essa cifra significa um avanço nas ações de inclusão, com eleitores espalhados por 93 países.
Este ano, a exibição do Oscar com ‘O Agente Secreto’ se tornou uma espécie de Copa do Mundo, com torcida organizada nas cidades. O Cinema Brasileiro (Nordestino e pernambucano) tem se destacado com desenvoltura no cenário mundial. E traz a presença forte de oito paraibanos: Buda Lira, Suzy Lopes, Cely Farias, Joalisson Cunha, Beto Quirino, Fafá Dantas e Flávio Melo demonstram que pequenas aparições podem gerar grandes performances.”
Meu palpite para o resultado da premiação:
Melhor Filme: Uma Batalha Após a Outra
Melhor Direção: Uma Batalha Após a Outra
Melhor Ator: Wagner Moura
Melhor Atriz: Jessie Buckley
Melhor Roteiro: Os Pecadores
Rodolpho de Barros
Cineasta e diretor de ‘A Ética das Hienas’ e ‘Animais na Pista’
“A edição deste ano do Oscar me parece particularmente interessante para observar como o cinema brasileiro tem ampliado sua presença e seu reconhecimento internacional. Para além da possibilidade de prêmios, o que chama atenção é a consolidação de um olhar autoral brasileiro que tem circulado cada vez mais em grandes festivais e premiações, evidenciando a diversidade estética e temática do nosso cinema.
O Agente Secreto tem, neste ano, encabeçado essa projeção internacional. O filme tem circulado com força no exterior e vem sendo destacado pelo trabalho de linguagem e por sua construção narrativa. A indicação de Adolpho Veloso reforça ainda mais esse momento, pois evidencia o reconhecimento do trabalho técnico de profissionais brasileiros em um circuito historicamente dominado por grandes indústrias.
É também um sinal de maturidade de toda uma cadeia criativa do nosso cinema. Nos últimos anos, o Brasil tem demonstrado grande capacidade de dialogar com o mundo sem abrir mão de suas especificidades culturais e sociais. Independentemente do resultado final da premiação, essa visibilidade reforça a vitalidade do nosso cinema e a potência criativa que continua surgindo em diferentes regiões do país.”
José Lacerda
Cineasta e diretor de ‘Meu Lugar’ e realizador cultural
“Como realizador, observo o Oscar 2026 como uma edição atravessada por disputas simbólicas. Em Melhor Filme, aposto em Hamnet. Vejo no longa uma valorização da presença feminina, sendo a única diretora indicada. É uma obra de grande peso emocional e rigor técnico, respaldada pela experiência de Spielberg. Em Direção, reforço a aposta em Chloé Zhao; sua potência artística reside na capacidade de conduzir uma dramaturgia humana com economia de gestos e força visual.
Melhor Ator: não há dúvidas de que Chalamet chegou como favorito, mas a Academia costuma surpreender. Acredito na maturidade interpretativa de Wagner Moura. Sua trajetória carrega uma qualidade técnica sólida e carisma que o consolidou em Hollywood. Wagner vem preparando esse terreno há anos, construindo um alicerce que hoje pode resultar no reconhecimento máximo. Cannes e o Globo de Ouro já reconheceram, mas falta avisar à Academia que o cinema é do mundo.
Melhor Atriz: Jessie Buckley é uma das forças mais contundentes, com uma atuação que ancora fragilidade em potência. Em Melhor Roteiro, destaco Valor Sentimental. O texto traduz com delicadeza a magnitude autoral de Joachim Trier, desenvolvendo a trama com densidade sem recorrer a clímax artificiais. A força está na intensidade que nasce do silêncio e da observação.”
Marcel Vieira
Jornalista e professor do Departamento de Comunicação da UFPB
“Acredito que o Oscar este ano tem uma das melhores seleções de filmes dos últimos tempos. Não há, de antemão, nenhum grande favorito para levar tudo, mas um conjunto expressivo de filmes potentes. A seleção internacional é muito forte e vários filmes estrangeiros se metem nas categorias principais. ‘Valor Sentimental’ e ‘O Agente Secreto’ promovem um cinema com grande força dramática e segurança no estilo da direção.
Dos grandes estúdios, ‘Uma Batalha Após a Outra’ e ‘Pecadores’ vão disputar os prêmios principais. ‘Marty Supreme’, que é um filme que gosto bastante, talvez não consiga muito. Minhas apostas nas principais categorias são:
Melhor Filme: Uma Batalha Após a Outra
Melhor Direção: Paul Thomas Anderson
Melhor Ator: Michael B. Jordan (embora torça por Wagner Moura)
Melhor Atriz: Jessie Buckley (avassaladora com Agnès Hathaway)
Melhor Roteiro Original: Pecadores (ainda que eu goste mais de Foi Apenas um Acidente)
Melhor Roteiro Adaptado: Uma Batalha Após a Outra
Melhor Filme Internacional: O Agente Secreto (pra deixar o Oscar cheio de pirraça…)
Kubistchek Pinheiro
Jornalista e editor de Cultura do Portal MaisPB
“Melhor filme é algo difícil de afirmar porque gostamos de uns e torcemos por outros, mas afinal somos brasileiros empolgados. Se eu disser que O Agente Secreto é bom, talvez eu esteja no espelho, mas não sou Narciso. O filme é bonito, mas é longo, o que não tira a grandeza, mesmo sabendo que é difícil ganhar o Oscar — tomara que eu esteja errado.
Vi Uma Batalha Após a Outra e ainda estou na batalha para ver outros. Gostei de Frankenstein, uma sensação prazerosa desde garoto. Acho que Hamnet: A Vida Antes de Hamlet merece ganhar; tem um roteiro que cria uma hipótese sobre a vida pessoal de Shakespeare e Jessie Buckley como sua esposa é o centro da trama muito bem articulada.
Não vi Marty Supreme, Sonhos de Trem e Valor Sentimental. Destaco Pecadores, que recebeu um número recorde de indicações; torço por esse, vi o trailer e quero ver completo. Gosto de cinema, mas não sou crítico, apenas faço elogios e dou pancadas quando o filme é ruim. Vamos esperar por amanhã. Eu não vejo a premiação ao vivo porque durmo cedo para caminhar às 4h40. Depois que o sol chega, eu vejo quem ganhou.”
Patriotismo e boas energias
Os palpites revelam um raro consenso entre cineastas e jornalistas da Paraíba: a confiança absoluta na força de O Agente Secreto e na atuação de Jessie Buckley. Enquanto a categoria de Melhor Filme Internacional é vista como a maior chance real de o Brasil conquistar sua segunda estatueta, Buckley é apontada como uma força imbatível em Melhor Atriz por seu papel em Hamnet. Já na categoria de Melhor Ator, o nome de Wagner Moura surge não apenas como um desejo patriótico, mas como uma aposta técnica viável, rivalizando diretamente com gigantes como Sean Penn e Michael B. Jordan.
Onde assistir
A 98ª edição do Oscar acontece neste domingo, 15 de março. Para o público brasileiro, a transmissão oficial começa a partir das 20h, logo após o Fantástico, na TV Globo, enquanto os canais TNT e a plataforma Max iniciam a cobertura do tapete vermelho às 18h30.