WSCOM Entrevista: Bianca Bin e Edson Fieschi falam sobre “Job”, thriller teatral que discute saúde mental e tecnologia

Em entrevista pingue-pongue, atores comentam a montagem brasileira do sucesso da Broadway, em cartaz no Intermares Hall, e refletem sobre internet, exaustão no trabalho e violência digital

Bianca Bin e Edson Fieschi em cena de 'Job', thriller teatral em cartaz em Cabedelo. (Foto: Divulgação)

O premiado espetáculo “Job”, sucesso da Broadway que ganhou versão brasileira com direção de Fernando Philbert, chega ao Intermares Hall, em Cabedelo, para curta temporada neste fim de semana. Na montagem, Bianca Bin e Edson Fieschi conduzem um suspense psicológico que parte da história de uma moderadora de conteúdo afastada do trabalho após um surto e obrigada a passar por avaliação terapêutica para tentar retornar à função. A partir desse encontro, a peça amplia o debate sobre saúde mental, violência digital, ética, tecnologia e exaustão no ambiente de trabalho.

Em entrevista à repórter Cristiane Cavalcante, os dois atores falaram sobre a origem do projeto, o processo de preparação dos personagens e os temas que atravessam a montagem. Bianca destacou o mergulho em relatos de moderadores de conteúdo e o impacto emocional provocado pelo material pesquisado. Edson ressaltou a atualidade do texto, o embate de gerações presente na dramaturgia e o modo como a peça provoca o público a refletir sobre anonimato, crueldade e os limites da vida digital.

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Confira a entrevista:

WSCOM: Como surgiu o interesse de vocês por “Job”?

Edson Fieschi: Eu assisti a Job na Broadway, fiquei enlouquecido com a peça, comprei os direitos e chamei essa diva para fazer comigo. É um espetáculo que fala muito sobre tecnologia, internet e sobre um tema muito atual. A história é a de Jane, personagem da Bianca, que trabalha como moderadora de conteúdo de uma grande big tech. Até que um dia ela tem um grande surto, é filmada, viraliza na internet e acaba afastada do trabalho. Para voltar, ela precisa procurar um terapeuta, que sou eu, o Loyd.

Bianca Bin: O que me chamou atenção de imediato foi justamente isso: a peça trata de um universo muito contemporâneo, mas por um viés humano e profundo. É uma história que fala de ética, da nossa relação com o trabalho, da nossa relação com a própria tecnologia e com a saúde mental. Minha personagem é a Jane, e a peça é um suspense eletrizante, com uma virada do meio para o final sobre a qual eu nem posso falar muito, para não dar spoiler.

WSCOM: A peça coloca em cena duas visões de mundo bem diferentes. Como isso aparece na história?

Edson Fieschi: O meu personagem é um terapeuta de outra geração, um baby boomer dos anos 1960 e 1970. A personagem da Bianca critica essa geração e, de certa maneira, responsabiliza esse universo por parte do que está acontecendo hoje. E ele tenta escapar disso com argumentos que também começam a convencer. Se não convencem ela, convencem a plateia.

Bianca Bin: Isso é muito interessante, porque as duas narrativas fazem muito sentido. O público fica se perguntando o tempo todo em quem deve acreditar. Acho esse exercício muito rico, porque a peça não entrega respostas fáceis. Ela provoca.

 WSCOM:Como foi o processo de preparação para chegar a esses personagens?

Bianca Bin: Primeiro, eu nem sabia que existia essa profissão de moderadora de conteúdo. Eu achava que eram os robôs que davam conta de filtrar o conteúdo impróprio. Mas não, ainda existe uma pessoa responsável por limpar tudo aquilo que os robôs não conseguem fazer. Então fui atrás dessas pessoas, busquei entrevistas, depoimentos, e a gente encontrou muita coisa muito interessante. Teve, por exemplo, o relato de uma mulher que trabalhava com isso e que disse que, depois que começou na função, não conseguia mais cumprimentar as pessoas, pegar na mão delas, porque passou a sentir nojo da humanidade. É um submundo digital, um universo muito tóxico.

Edson Fieschi: No meu processo, eu vou muito no que está escrito no texto. A gente analisa palavra por palavra e vai entendendo o que aquele personagem está querendo dizer com aquilo. O texto já carrega muita força e muita tensão.

WSCOM: O quanto esse material de pesquisa mexeu com vocês?

Bianca Bin: Mexeu muito. São questões muito profundas, que jogaram a gente em lugares também profundos. A peça discute não só esse universo da moderação de conteúdo, mas também ética no trabalho, saúde mental, pressão por desempenho e a própria relação com a tecnologia. A gente vive uma era em que tudo é meta, tudo é performance. Então até que ponto isso vale a pena? Essa peça me fez repensar muito a minha própria relação com a tecnologia. Acho que esse é o convite mais importante que a gente faz com o espetáculo: um convite à reflexão. Só de ouvir certos relatos, eu já acessava lugares muito profundos e que mexiam muito comigo. Tive sensação de soco no estômago, enjoo. No processo criativo, isso mexeu com o meu corpo, me deixou enojada, com o estômago muito sensível. Existem reações que são físicas.

Edson Fieschi: Com muita reflexão. Antes, a gente explorava a nossa mente, e hoje não, agora a nossa mente é explorada por algoritmos, por pesquisa de mercado,  anúncios, consumo, então tudo faz parecer que é você quem está dominando, mas não é, e isso  é uma coisa que a gente tem que perceber que é preciso as vezes fazer um pouco também de detox, pra poder refletir e se questionar: “será que eu acho isso mesmo?”, “será que eu gosto daquilo, ou estão me fazendo gostar daquilo?”.

WSCOM: A peça também fala sobre violência digital e anonimato. Esse é um dos temas centrais?

Edson Fieschi: Sem dúvida. O grande perigo da internet, e a peça fala muito sobre isso, é o anonimato. Você não sabe quem é quem. Não tem rosto. É um tema em que o que mais aflige, eu acho, é justamente esse anonimato da internet, que protege as crueldades cometidas por aí. E tudo isso reflete violência. Misoginia é violência, pedofilia é violência, estupro é violência, maus-tratos contra animais são violência.

Bianca Bin: E essas violências não têm um tipo, não têm uma cara. Pode ser qualquer um. Pode ser alguém sentado ao seu lado no cinema, alguém que cruza com você no trânsito. Isso é muito assustador e está muito presente na peça.

WSCOM: “Job” também provoca reflexão sobre o uso da tecnologia?

Bianca Bin: Muito. Minha personagem fala uma coisa que eu acho central: ao mesmo tempo em que os celulares despertam depressão, ansiedade e pioram sintomas, eles também nos dão acesso à maior coleção de arte e conhecimento da história da humanidade. Então depende muito do uso que se faz desse aparelho. No fim, isso também reflete a nossa saúde mental, o quanto a gente está adoecido.

Edson Fieschi: Hoje, a gente tenta se aproximar de quem está longe e acaba se afastando de quem está perto. As pessoas estão mais solitárias com a tecnologia. Então a peça também convida o público a pensar sobre o que estamos fazendo com essas ferramentas e sobre o lugar que elas ocupam na nossa vida.

WSCOM: A peça dialoga com debates atuais sobre burnout, excesso de trabalho e perda de qualidade de vida?

Bianca Bin: Sim, embora a peça trate de um momento em que isso já aconteceu com a personagem. Ela já surtou e só pode voltar ao trabalho mediante autorização de um terapeuta. Mas esse ponto de partida levanta, sim, uma reflexão sobre a nossa relação com o trabalho, o quanto estamos sendo pressionados a cumprir metas, a performar cada vez mais. Hoje, o trabalho está no celular, está em casa, está no momento de lazer. Você continua recebendo e-mail, demanda, mensagem, quando deveria estar no seu tempo off. Isso está muito desequilibrado. Com a chegada da tecnologia, isso se acentuou ainda mais. A nossa relação com o trabalho ficou muito desigual em relação à vida privada, ao tempo de qualidade com a família, com os filhos, com a casa. A tecnologia afastou as pessoas e também sobrecarregou.

Edson Fieschi: E afasta da família também, porque você não vê os filhos. É muito triste o que acontece. Vai virando uma bola de neve.

WSCOM: Em meio a tantos temas duros, o que a peça oferece como reflexão final?

Bianca Bin: Acho que o contraponto de tudo isso é entender que o elemento humano jamais vai ser superado. Não tem robô, não tem inteligência artificial que atinja o elemento humano. O que a gente tem para oferecer é a nossa humanidade, a nossa sensibilidade à dor do outro, a empatia.

Edson Fieschi: Exatamente. O personagem dela é a última linha de defesa. Os robôs fazem muita coisa, mas, no fim, ainda é uma pessoa que precisa decidir. Esse critério, essa ética, essa sutileza, só a gente tem.

Bianca Bin: A ética não está na inteligência artificial. O que separa a gente da IA é justamente a ética, a humanidade. É isso que nos salva.

Sobre o espetáculo

A montagem brasileira de “Job” é assinada por Borges & Fieschi Produções Culturais, com realização regional da Imaginária Entretenimentos. Escrito pelo norte-americano Max Wolf Friedlich, o thriller estreou em 2023 no circuito independente dos Estados Unidos, ganhou projeção, chegou à Broadway e depois passou a circular em outros países. No Brasil, a peça foi traduzida por Alexandre Tenório e lançada em São Paulo no segundo semestre de 2025.

Jobe é um espetáculo teatral que acompanha Jane, interpretada por Bianca Bin, uma moderadora de conteúdo que trabalha em uma grande empresa de tecnologia. Após um incidente no trabalho, um vídeo em que ela aparece em crise de burnout viraliza na internet. Afastada das funções, ela é encaminhada para uma avaliação psicológica com o terapeuta Loyd, vivido por Edson Fieschi, que poderá autorizar ou não seu retorno. A partir desse encontro, a peça desenvolve um thriller psicológico sobre saúde mental, ética no trabalho, vigilância digital e os impactos da hiperconectividade. O texto também propõe uma reflexão sobre o crescimento do mundo virtual e sobre quem controla os limites e os riscos desse ambiente.

Elenco

Bianca Bin construiu uma trajetória de destaque na televisão, no cinema e no teatro. Protagonizou novelas como Cordel Encantado, Joia Rara e O Outro Lado do Paraíso, além de atuar em produções recentes do streaming e em montagens teatrais que lhe renderam indicações a prêmios.

Edson Fieschi tem mais de 40 anos de carreira e é um nome consolidado do teatro brasileiro. Com trajetória marcante também na televisão, participou de novelas de grande repercussão e construiu uma carreira reconhecida por trabalhos no palco e na TV.

Direção

A direção é assinada por um dos nomes de maior destaque do teatro contemporâneo brasileiro, com formação ligada a Aderbal Freire Filho, Domingos Oliveira e Gilberto Gawronski. Entre seus trabalhos recentes estão montagens premiadas e de ampla circulação, como Todas as coisas maravilhosas, Três mulheres altas, Órfãos e Contos negreiros do Brasil.

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