O avanço da idade traz transformações naturais ao organismo, e o sistema digestivo está entre os que mais sentem esses impactos. Cada vez mais adultos e idosos relatam desconfortos gastrointestinais, gases, distensão abdominal, refluxo e dificuldade para digerir alimentos que antes faziam parte da rotina, como leite, massas e derivados de trigo.
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De acordo com o médico gastroenterologista Marcelo Vicente Toledo de Araújo, o envelhecimento provoca alterações estruturais e funcionais no trato digestivo. “Há uma tendência de diminuição da secreção de ácido e enzimas digestivas, além de mudanças na flora intestinal, o que pode dificultar a digestão e aumentar sintomas como distensão abdominal”, explica. Segundo ele, também é comum o enfraquecimento dos esfíncteres, favorecendo quadros de refluxo gastroesofágico e outros desconfortos.

Foto: Marcelo Vicente Toledo de Araújo
Uma das queixas mais frequentes está relacionada à lactose. Mesmo pessoas que nunca tiveram problemas com leite podem passar a apresentar sintomas ao longo da vida. O nutricionista Sidney Bezerra de Lima destaca que isso ocorre, principalmente, pela redução progressiva da enzima lactase. “Quando o organismo não consegue quebrar a lactose corretamente, ela fermenta no intestino, causando gases, inchaço, cólicas e diarreia”, afirma.

Foto: Sidney Bezerra de Lima
Já Marcelo reforça que a queda na produção da lactase pode ser um processo natural, mas também pode estar associada a doenças intestinais que comprometem essa produção. “Nem sempre é apenas a idade. Por isso, é importante investigar”, alerta.
Já em relação ao glúten, os especialistas fazem uma distinção importante. O gastroenterologista esclarece que não existe uma relação direta entre envelhecimento e sensibilidade ao glúten. “A doença celíaca pode ser diagnosticada em qualquer idade, inclusive na velhice, principalmente quando os sintomas foram leves ao longo da vida”, explica. Segundo ele, o uso de vários medicamentos e a presença de outras doenças podem tornar a digestão mais lenta, dando a impressão de intolerância a certos alimentos, como massas e cereais.
O nutricionista acrescenta que a dificuldade em identificar o problema está ligada à presença ampla do glúten na alimentação cotidiana. “Ele está em pães, bolos, biscoitos e macarrão. Muitas pessoas convivem com o desconforto sem perceber a origem”, afirma. O diagnóstico, segundo ele, deve ser feito com exames e avaliação profissional, evitando restrições desnecessárias.
Outro fator relevante são os medicamentos de uso contínuo, muito comuns na terceira idade. Marcelo Araújo chama atenção para esse ponto. “Remédios para diabetes, como a metformina, podem causar diarreia e distensão; analgésicos favorecem constipação; antibióticos e antiácidos interferem na microbiota intestinal”. Esses efeitos podem ser confundidos com intolerâncias alimentares.
Os especialistas alertam que dificuldade de digestão nem sempre significa intolerância. Parasitas, doenças sistêmicas, sedentarismo, hábitos alimentares inadequados e até condições mais graves podem estar por trás dos sintomas. “Na medicina, não existe ‘sempre’ ou ‘nunca’. Cada caso precisa ser avaliado”, reforça o gastroenterologista.
Entre os alimentos que costumam gerar mais desconforto após os 60 anos estão os gordurosos, o álcool, o café, alimentos muito condimentados e alguns legumes fermentáveis. “No idoso, especialmente no diabético ou em quem retirou a vesícula, a digestão das gorduras tende a ser ainda mais lenta”, explica Marcelo Araújo.
Para melhorar a digestão na terceira idade, Sidney Bezerra destaca estratégias simples, como o aumento do consumo de fibras, água e alimentos de fácil mastigação. “Muitos idosos comem pouca fibra e bebem pouca água, o que compromete o funcionamento intestinal”, afirma. Ele também ressalta a importância de adaptar a textura dos alimentos, preferindo legumes cozidos no vapor, carnes moídas e proteínas de fácil digestão.
Ambos os especialistas afirmam que autodiagnóstico e dietas restritivas sem orientação podem trazer mais prejuízos do que benefícios. “Cortar leite, por exemplo, pode comprometer a ingestão de cálcio e afetar a saúde óssea”, alerta o nutricionista.