O nosso conterrâneo Chico César compôs a música que integraria a trilha sonora da novela “A Indomada”, em 1977. Esta linda canção, gravada por Maria Bethania, fala de saudade, de solidão, de amor. Alguém que no silêncio da noite fica a pensar “Onde estará o meu amor?”.
“Como esta noite findará/E o sol então rebrilhará./Estou pensando em você…/Onde estará o meu amor?” O “eu lírico” na condição de solitário na noite, fica viajando na imaginação. E nessa viagem a presença da pessoa amada é permanente. Sabe que a noite chegará ao fim e com o nascer do dia o sol voltará a brilhar. Esse ciclo acontece também na nossa vida. Mesmo quando nos vemos na escuridão que nos assusta com os acontecimentos desfavoráveis da vida, logo tudo volta a clarear. Ele vive um instante de melancolia, tristeza, causado pela saudade e pelo silêncio da noite em que se vê sozinho. Mas sabe também que logo esse isolamento acabará, embora fique sem saber onde ela está naquele momento.
“Será que vela como eu?/Será que chama como eu?/Será que pergunta por mim?/Onde estará o meu amor?”. Na sua cabeça surgem várias interrogações na busca de respostas. Quer saber se ela, assim como ele, tem a preocupação com o seu bem estar. Quem assim age é porque cuida, zela, vela. E quando se ama, fica o pensamento a todo instante chamando por quem está apaixonado. Procura saber se são recíprocos esse pensar e essa vontade de estarem juntos. Nesse turbilhão de perguntas destaca-se a mais forte: onde ela estará? Isso provoca uma certa inquietação e alguma insegurança.
“Se a voz da noite responder/Onde estou eu, onde está você/Estamos cá dentro de nós/sós…/Onde estará o meu amor?”. A resposta que ouve no sossego noturno faz com que tenha a intuição de que, onde cada um esteja, haverão de estar na intimidade recíproca dominados pelo coração, “dentro de nós”. E “sós”, sem ninguém para interferir nesse devaneio, nesse prazer de vivenciarem mutuamente a alegria de uma vida a dois.
“Se a voz da noite silenciar/Raio de sol vai me levar/Raio de sol vai lhe trazer/Onde estará o meu amor?”. No entanto, mesmo que a noite se cale, não lhe dê as respostas que deseja, espera que com o raiar do sol seja levado ao encontro dela, na correspondência com que ela também seja trazida para junto dele. Enquanto isso não acontece continua a indagar: “onde estará o meu amor?”.
• Integra a série de crônicas “PENSANDO ATRAVÉS DA MÚSICA”.