Existe na política contemporânea brasileira, uma família que se julga com status de realeza. Seus integrantes, ao conquistarem poder político e econômico, passaram a imaginar que vivemos em uma monarquia, onde a linha sucessória se define pelo sobrenome. Nem mesmo os Orleans e Bragança expressam esse sentimento de forma tão ousada. Estes, ao menos, podem explorar um reconhecimento histórico, ainda que sem qualquer validade jurídica no campo político. O título de “família real” é apenas simbólico.
Com o propósito de oficializar esse vínculo com a monarquia, o ex-presidente da República chegou a cogitar a indicação do deputado Luiz Philippe de Orleans e Bragança, descendente do último imperador do Brasil, como companheiro de chapa na eleição de 2018, por sugestão do parlamentar Eduardo Bolsonaro. Ao trazer o coração de Dom Pedro I ao Brasil, tinha a intenção de vincular, no imaginário popular, sua própria imagem à do imperador. A historiadora Lilia Schwarcz chegou a afirmar: “É como se ele fosse um libertador. Como se desse golpes da legalidade, assim como Dom Pedro teve de dar um golpe em sua nação, em seu próprio pai, para garantir a soberania. Penso que quer se ver nesse lugar.”
Em uma entrevista concedida em 2019, Fernando Henrique Cardoso já percebia essa vocação para a nobreza demonstrada pelo então presidente: “Nós estamos assistindo ao renascimento de uma família imperial de origem plebeia. É curioso isso. Geralmente, na República, as famílias não têm esse peso.” Encarnando o espírito dos imperadores romanos, condecorou a si mesmo, em plena pandemia da covid-19, com o título de grão-mestre da Ordem Nacional do Mérito Científico, honraria normalmente concedida a personalidades nacionais e estrangeiras que se distinguiram por relevantes serviços prestados à ciência, à tecnologia e à inovação. Nada mais inapropriado para quem negou a ciência, boicotou a compra de vacinas e cortou investimentos nos setores de ciência, tecnologia, educação e cultura.
Esse clã político não admite se afastar do poder. O chefe agia como se fosse um governante do Brasil imperial, e não se conforma com a perda desse título. Na impossibilidade de permanecer no exercício do poder — ainda que tenha tentado por meio de tramas golpistas —, não aceita que o candidato da oposição na próxima eleição presidencial seja alguém que não carregue o seu sobrenome. Insiste em implantar o modelo do “presidente-pai”, um pater familias autoritário e severo diante daqueles que se rebelam contra sua vontade.
Trata os filhos por numerais: zero um, zero dois, zero três e zero quatro, como se fosse a ordem de herança do poder, inspirado nos regimes monárquicos. A relação de parentesco é a condição principal para que se herde o capital político que conseguiram construir. Embora seja uma família emergente no cenário político, seus integrantes tomaram gosto pelo poder e não querem transferi-lo a ninguém que não pertença à sua própria linhagem genealógica.