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Bióloga paraibana relata ‘caos’ na Itália com salto no número de mortes pelo Coronavírus: “Estado é de calamidade e guerra”

18/03/2020


A bióloga paraibana Alanne Rayssa.

Por Wallyson Costa

EXCLUSIVO – A bióloga Alanne Rayssa viajou à Itália no dia 13 de fevereiro para fazer parte do seu doutorado em genética, iniciado na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), em Roma, capital do país. Natural de Queimadas, no Agreste paraibano, a pesquisadora não imaginava que, dias depois, os casos de Coronavírus explodiriam no Norte italiano.

“Na véspera da viagem, comprei 12 máscaras descartáveis e um álcool em gel pequeno para fins de prevenção no aeroporto ou caso houvesse algum caso na Itália, mas não tinha a expectativa de que fosse acontecer no país esse caos que vejo hoje”, disse em contato com o Portal WSCOM.

Alanne relatou que a população italiana não parecia preocupada até então. Com os casos concentrados na região Norte do país, as medidas necessárias de precaução contra a Covid-19 não foram tomadas ao sul.

A situação se agravou rapidamente. De 4 casos no dia 20, para 323 no dia 25 de fevereiro. O Governo Italiano fechou o acesso a cidades da região Norte. Mesmo assim, há relatos de que pessoas conseguiram deixar a região ainda naquele dia de trem.

Foram fechadas escolas e museus, parques, clubes e restaurantes, cancelados grandes eventos culturais e esportivos. Restaram abertos hospitais, supermercados e farmácias. Foi proibido o aperto de mão e qualquer tipo de contato físico entre as pessoas e a distância mínima deveria ser de 1 metro.

Neste momento, a jovem paraibana já usava máscaras de proteção e álcool em gel. Ela estagia em um grande hospital de Roma, chamado Regina Helena, referência no tratamento de câncer em idosos, principal grupo de risco da doença.

“Eu tinha em mente essa grande responsabilidade de não portar o vírus ali. Nos dias sucessivos, a Itália acompanhava pela TV os casos crescentes no Norte do país e a tentativa das autoridades de conter o vírus. As atitudes foram graduais e locais, em vez de emergenciais. Parece que não se deu conta na época de como a situação poderia se agravar”, revela a jovem.

Em 8 de março, a Itália decretou confinamento a toda região da Lombardia e diversas outras províncias. Um dia depois, a medida foi estendida para todo o país. Quase 10 mil casos já eram registrados.

Em Roma

Roma fica na região central da Itália. Alanne conta que foi proibido o aperto de mão e instituído o distanciamento de 1 metro entre cada pessoa após o decreto governamental.

“Fui para o laboratório, era visível no rosto de toda a equipe de pesquisadores a preocupação. Todos estavam quietos, preocupados, tentando manter a distância (muito diferente do comportamento de 15 dias anteriores, quando o assunto não era o vírus). Fomos proibidos também de almoçar juntos na mesma sala, como de costume”, lembrou.

Caixas de supermercado trabalhando em isolamento.

Ainda foram paralisados todos os serviços não essenciais, e a população entrou em quarentena. “Tudo fechou de um dia para outro”, disse.

“A cidade parecia uma cidade fantasma. No caminho de volta para casa, passei em quatro supermercados e duas farmácias em busca de álcool e máscaras, mas não havia mais nenhum produto disponível. Além disso, todos os estabelecimentos começaram a controlar a entrada dos clientes, no qual os estes, desde então, são obrigados a esperar em uma fila do lado de fora do estabelecimento, com um metro de distância entre cada pessoa e só é possível entrar alguém quando o próximo cliente sair. Todas essas medidas foram de um dia para o outro e isso acabou me causando problemas para dormir e ansiedade nos primeiros dias, visto que eu continuava saindo de casa para trabalhar no laboratório. A cada dia antes de sair, eu tinha todo um protocolo rígido de segurança, visando não contaminar ninguém no hospital e em casa e isso causa um grande estresse psicológico. Colocava a máscara (tive que desinfetá-las em casa para reciclá-las), levava o álcool em gel no bolso, e fazia do meu casaco um “jaleco” para usar na rua; evitava tocar nas superfícies de ônibus, elevadores e metrôs”, contou.

Nesse ponto, grande parte dos seus colegas pesquisadores, cerca de 80 pessoas, já haviam deixado de ir trabalhar, relata. Apenas oito continuaram a frequentar o local de trabalho.

Fila pra entrar no supermercado.

“Decidi ficar em casa nos dias seguintes, para cumprir a determinação do Estado e pela minha saúde mental que estava abalada com essa situação de estresse. Outra medida que adotei – e que me ajudou muito no processo de quarentena – foi parar de assistir TV, pois eu percebi que ficava muito mal com as notícias repetitivas e intermináveis sobre o surto. Desde então, tenho acompanhado apenas a curva de crescimento exponencial da epidemia na Itália e no mundo através da internet. Além disso, tenho divulgado informações sobre a importância e como se proteger no vírus, compartilhando minha experiência com os brasileiros – que parecem estar ainda em processo de negação”, comentou.

Pânico e solidariedade

Houve um pânico inicial na população no início do período de quarentena, segundo a paraibana. Cidadãos de Roma chegaram a ir fazer compras à meia-noite, esperando em filas do lado de fora de um supermercado sob baixas temperaturas, com medo de que faltasse alimentos.

Passado o sentimento inicial, a solidariedade emergiu. A situação atual é de “certo comodismo” e adaptação à situação de calamidade, segundo Alanne.

“Neste período começaram os aplausos e canções diariamente às 18h nas varandas dos prédios. Além disso, existe um movimento muito forte nas redes sociais ‘#iorestoacasa’, ou ‘eu permaneço em casa’, como apelo para que as pessoas respeitem a ordem de quarentena. Eu já consigo ver da minha varanda mais pessoas e carros pela rua em relação à semana anterior. Além disso, já me acostumei a acompanhar as estatísticas durante o café da manhã, observando que todos os dias somam-se 2 mil casos e 200 mortes no país. Em seguida, tento estabelecer uma rotina dentro de casa, trabalhar na medida do possível e praticar algum hobby”, disse a paraibana.

Situação atual

Nesta quarta-feira (18), a Itália registrou o maior número de mortes em um dia desde o início da pandemia. Foram 475. O número total de mortos chegou a 2.978.

“Atualmente no país o estado é de calamidade e guerra, principalmente no Norte, que segue com os recordes de casos e mortes”, disse Rayssa.

Curva de crescimento dos casos de coronavírus na Itália.

Ela comenta que os atendimentos emergenciais estão saturados e há uma espera de até 3 dias para o sepultamento dos cadáveres. 100 médicos já vieram a óbito.

“As UTIs estão saturadas e prevê-se uma última medida das autoridades – a mais difícil ao meu ponto de vista – que é o não atendimento a pessoas com mais de 80 anos (e também os em pior situação) a fim de economizar os recursos restantes para o que possuem mais chances de sobrevivência.  Passei a acompanhar também os casos no Brasil e tento orientar a população para a realidade do que é o Coronavírus e torcendo para que não ocorra lá o que está acontecendo aqui”, revelou.

A Itália já conta 35.713 pessoas contaminadas pelo Coronavírus. De ontem para hoje, houve um aumento de 4.207 diagnósticos. 14.363 pessoas estão internadas em hospitais apresentando sintomas.  12.090 estão em isolamento domiciliar e 2.257 estão em UTIs.


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