Educação

“O Brasil compreendeu a mensagem de Paulo Freire?”, por Éder Dantas


18/09/2021

Paulo Freire / professor Éder Dantas (Reprodução)



Neste domingo, dia 19 de setembro, comemora-se o centenário do maior educador brasileiro e um dos mais importantes e renomados do mundo. Paulo Reglus Freire nasceu há cem anos, na cidade doo Recife, capital de Pernambuco. Educador e filósofo, ele é oficialmente considerado o patrono da educação brasileira, pela Lei Federal nº 12.612/2013.

Freire começou a atuar como educador no final da década de 1940. Em 1961, como diretor do Departamento de Extensões Culturais da Universidade de Recife, ele montou uma equipe com o objetivo de alfabetizar 300 cortadores de cana em 45 dias. Além de Pernambuco ele estendeu a sua atuação em outros estados do Nordeste, marcados pelo analfabetismo e pela intensa exploração da mão-de-obra camponesa.

Na Paraíba, ajudou a criar a Campanha de Educação Popular – Ceplar, que teve atuação marcante na educação das classes populares paraibanas, interrompida pelo golpe civil-militar de 1964 e se constituiu num laboratório para o desenvolvimento de sua pedagogia, à serviço dos oprimidos. Alguns dos projetos importantes, que o tiveram como referência, à época, foram a campanha “De pé no chão também se aprende a ler”, no Rio Grande do Norte e os “Centros Populares de Cultura”, ligados à União Nacional dos Estudantes – UNE.

Seu método de alfabetizacão de adultos ganhou fama, associado à noções de cidadania e participação política. O então presidente João Goulart decidiu adotar o método Paulo Freire como uma política oficial do Ministério da Educação em seu governo. Esta teria sido, inclusive, uma das causas de sua destituição pelos mílicos. Eles consideravam Freire um homem perigoso.

Perseguidos e censurados no Brasil, Paulo Freire e sua obra ganharam o mundo. Chile, América Latina, Europa, EUA… A mensagem freireana ganhou asas, tendo como porta-vozes educadores, intelectuais, ativistas sociais, políticos e governos progressistas. Seus livros como “Pedagogia do Oprimido”, “Educação como Prática da Liberdade”, “Pedagogia da Esperança”, “Pedagogia da Autonomia”, “Professora, Sim. Tia, não” e “A importância do Ato de Ler”, dentre muitos outros, tornaram-se best-sellers na área. Consagrado internacionalmente, ele tornou-se o brasileiro mais homenageado, tendo recebido 35 títulos de Doutor Honoris Causa em universidades nacionais e estrangeiras. Hoje é um autores mais citados em trabalhos científicos no mundo, em educação,

Nos anos 1980, Freire voltou ao Brasil (com a Lei da Anistia) e foi Secretário de Educação da cidade de São Paulo no governo de Luiza Erundina. Faleceu em 1997.

Paulo Freire / professor Éder Dantas (Reprodução)

Paulo Freire foi um crítico da chamada “educação bancária” (que via a criança como um depósito de dados, a ser preenchido pelo “todo-poderoso” professor. Ele defendeu uma pedagogia problematizadora, crítica, dialógica, a serviço da transformação da sociedade. Como diz o pesquisador Afonso Scocuglia, é um erro perceber Paulo Freire como um pensador do passado. Se a história da educação já reserva lugar de honra para ele, o debate pedagógico contemporâneo tem nas suas ideias uma referência fundamental no debate sobre a aprendizagem..

Quando se fala em direito à educação, metodologias ativas de aprendizagem, aprendizagem colaborativa, educação não-sexista, educação contextualizada, pedagogia anti-racista, inclusão sócio-educativa, escola multicultural, educação não-violenta, educação emocional e outros conceitos que apontam para uma escola dialógica, plural, democrática e, acima de tudo, humanista, há uma (ou muitas) centelha (s) do pensamento freireano ali.

Para o educador, escola não é fábrica capitalista, para ser gerida de forma autoritária e produtivista. Como dizia Anísio Teixeira, um dos autores do Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova de 1932, a escola, notadamente a escola pública, é a máquina que prepara a democracia. Freire, por sua vez, levava essa ideia às últimas consequências, pensando uma educação voltada para a construção da cidadania, que alcance muito além dos muros da escola. Ele dava muita importância às práticas de educação informal, desenvolvidas no local de trabalho, em meio à comunidade.

O Brasil estaria com indicadores educacionais bem melhores e vivendo um ambiente mais democrático e tolerante, se tivesse posto em prática as ideias freireanas. Mais recentemente, temos visto fortes ataques à figura de Paulo Freire, partindo de setores ultrareacionarios. Movimentos sociais da educação, inclusive, tiveram que recorrer ao STF para impedir preventivamente agressões a Paulo Freire e seu legado, por parte do bolsonarismo, por ocasião das comemorações seu centenário.

Quem dera, políticos, autoridades governamentais e suas equipes educacionais decidissem buscar, na obra freireana, uma fonte de iluminação para a busca de solução para nossos problemas. Muitos atores sociais, governos e instituições pelo mundo afora incorporaram um olhar freireano sobre os atos de educar, aprender e de como garantir o direito à educação. Já está passando da hora do Brasil compreender o legado e, sobretudo, a mensagem deste educador pernambucano, nordestino, brasileiro, cidadão do mundo.

*Doutor em educação, professor do Departamento de Psicopedagogia da Universidade Federal da Paraíba – UFPB.



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