Brasil

OPINIÃO: Os Fake Numbers e a democracia em vertigem, por Paulo Amilton

13/02/2020


Na imagem, o chefe do Departamento de Economia da UFPB, Paulo Amilton

Por Paulo Amilton Maia Leite Filho

 

Em 1954, Darrel Huff publicou o livro “how to lie with statistical”. Traduzindo livremente temos “como mentir com estatística”. Huff não era estatístico, mas um jornalista que ressaltava como o uso de medidas e gráficos estatísticos podem distorcer a realidade e criar conclusões incorretas. Toda pessoa, seja ele empresário, cientista, jornalista, membro de um governo, ou de outra função qualquer, se vale de alguma medida estatística para dar credibilidade aos seus argumentos. Isto se deve porque existe a noção de que números não mentem.

Como diz Huff na introdução de seu livro, “a linguagem secreta da estatística, tão atraente em uma cultura voltada para os fatos, é empregada para apelar, inflar, confundir e levar a simplificações exageradas. Métodos e termos estatísticos são necessários para relatar dados de tendências sociais e econômicas, condições de negócios, pesquisas de opinião e censos. No entanto, sem redatores que usem as palavras com honestidade e conhecimento, e sem leitores que saibam o que elas significam, o resultado só pode ser um absurdo semântico.”

Temos aí em 1954 a descrição das Fake News que usam os Fake Numbers para dar credibilidade e força as suas argumentações. Vamos a alguns exemplos bem atuais. Recentemente a ONG Britânica OXFAM soltou uma estatística afirmando que o impeachment da presidente Dilma Roussef gerou um aumento na desigualdade de renda brasileira. De fato, a desigualdade de renda no Brasil é obscena, os 1% mais ricos no Brasil detém 28% da renda gerada pelo processo produtivo. No entanto, esta estatística é de 2015 e, portanto, antes do processo de impeachment. Observem bem, nos anos do governo de FHC, a parcela abocanhada pelos 1% mais ricos no Brasil era de 25% da renda gerada. No final do governo Lula chegou em 30%.  Ou seja, não foi nos governos ditos liberais que aumentou a desigualdade no Brasil. No governo Lula houve diminuição da desigualdade da renda oriunda do trabalho. Mas os detentores de ativos financeiros aumentaram suas parcelas de renda, por isso que piorou a distribuição da renda agregada.

Outro argumento é que o impeachment foi implementado para que as reforma da previdência e do teto dos gastos fossem aprovados com o intuito de aumentar a capacidade do Estado de pagar os rentistas por meio dos juros pagos pelo serviço da dívida pública. O melhor ano para os rentistas foi 2015, também antes do impeachment. Não precisou de reforma da previdência nem do teto de gastos para obter isto.

Outra estatística interessante é a que fala de desemprego. Argumenta-se que nos governos petistas o desemprego atingiu o menor patamar da história. Isto é parcialmente verdade. A taxa atingiu o menor patamar da série histórica. Dois números de uma série só tem o condão de ser comparados se usarem a mesma metodologia para serem obtidos. A série atual, e que foi usada para fazer o comentário de que a era petista gerou o menor desemprego, tem a mesma metodologia a partir de 2012, ou seja, depois do governo Lula. A série anterior usava uma metodologia estabelecida na década de 1990. Nos anos do governo Sarney tivemos taxas de desemprego de 3%. Se pegarmos séries anteriores com outras metodologias temos números menores ainda. Na ditadura militar tivemos anos com 2% de desemprego.

Esses Fake Numbers, e mais um sem número, foram usados para justificar que houve um golpe no impeachment da presidente Dilma e que a democracia brasileira está em vertigem. Antes a esquerda mundial, e a brasileira aí inserida, sempre foi tolerante com ditaduras que seguiam seus ideais. Genocida, só o direitista Adolf Hitler. Joseph Stalin, Pol Pot não eram genocidas. Apenas indivíduos buscando um novo homem. Um ser humano que valorizasse o bem-estar coletivo em detrimento do bem-estar individual.  Para a esquerda, só o Brasil, Uruguai, Argentina, Peru, Bolívia tiveram ditaduras.  Cuba tem apenas um governo autoritário. Nunca perseguiu homossexuais, apenas tem um programa de conversão de preferências sexuais ao estilo do proposto pelo deputado federal Marco Feliciano do Partido Social Cristão (PSC).

Agora a esquerda não apenas condena as ditaduras de direita. Condena também as democracias que elegem governos de direita. O corolário desta condenação é, se a democracia eleger um governo de esquerda, ela está firme, mas se ela eleger um governo de direita, ela está em vertigem.  O documentário que descreve o impeachment da presidente Dilma não foi contemplado com o Oscar no último domingo. Pode ser que alguém use como argumento pela não obtenção do Oscar o fato de que apenas 16% dos membros da academia de artes e cinema de Hollywood são negros e 32% são mulheres, ou seja, que a academia é dominada por fascistas e que um golpe aconteceu.

 

*O artigo semanal é resultado de uma parceria entre o Portal WSCOM e o Departamento de Economia da Universidade Federal da Paraíba (UFPB).  

 


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