Economia & Negócios

OPINIÃO: Liberalismo e Globalismo: A face da Nova Ordem Mundial, por Wilson F. Menezes

23/01/2020


O professor Wilson Menezes, da UFBA

Wilson F. Menezes



Liberalismo. Apenas uma palavra, mas seu significado abala alicerces interpretativos do funcionamento das estruturas sociais. Existem muitas formas de uso para o termo liberalismo: o moral, permissivo em termos de hábitos e costumes; o político, quando é permitida a existência de uma estrutura multipartidária, garantindo uma representação diferenciada do vários agrupamentos sociais e o econômico, que remete imediatamente a uma estrutura de mercado para o bom funcionamento da economia. Ademais, nos Estados Unidos um liberal pode ser caracterizado como sendo de esquerda, logo mais intervencionista; enquanto na França, por exemplo, ele é definitivamente de direita. No que concerne à interpretação econômica, o nascimento do liberalismo acompanha o grande desenvolvimento das forças produtivas e a ideia de auto regulação da atividade econômica. A sociedade de mercado passa, em vista disso, a constituir uma nova forma de funcionamento social, em substituição àquela em que a força dos contratos, à la Rousseau, quando definia o pacto político para promover a divisão dos riscos e resultados entre os participantes do “jogo” social. Claro que a ideia de contrato social acalmava interiormente a sociedade, sem contudo alcançar os mesmos efeitos quando se tratasse das relações entre nações. Em linguagem da teoria dos jogos, isso pode ser atribuído ao fato de que as relações internas constituíam um jogo de soma não-nula, de maneira que a cooperação entre os indivíduos de uma mesma nação permitia um ganho para todos, mas as relações entre as nações eram vistas como sendo um jogo de soma zero, ou seja, cada ganho de um país, necessariamente significava uma perda de mesma magnitude para seu oponente. Assim, por um lado, acordos e contratos asseguravam internamente a paz social; por outro, a guerra era a forma de solução dos conflitos externos.

O liberalismo econômico permite levar ao plano internacional aquilo que já se aplicava no plano interno. Assim é que as relações de mercado, como forma por excelência para solução dos conflitos, passam a conceber as necessidades e os interesses comandando as relações entre as nações. Claro que isso não elimina a guerra, mas abre a possibilidade de se encontrar soluções por meio de mecanismos não-bélicos ao admitir jogos de soma não-nula nas relações internacionais. Política, direito e conflitos são então substituídos pelo mercado. Desde então os confrontos passam a ser substituídos por cooperações entre as nações que comercializam seus produtos, mudando a natureza das relações internacionais ao se imprimir uma nova forma de divisão internacional do trabalho. Desarma-se a violência através da ação dos mercados, os quais se auto regulam por meio de uma “mão invisível”, neutra por natureza, eficiente por definição. A liberdade de escolha através de transações voluntárias entre compradores e vendedores fornece o sistema de preços cujo funcionamento não requer nenhum tipo de direção e coordenação. Ainda não foi inventado um sistema melhor.

No entanto, no final do século XIX, uma política expansionista abre caminho para o que veio a ser caracterizado como fase imperialista do capitalismo. Inicialmente por parte da burguesia inglesa, ao perceber a incompatibilidade de seu sistema colonial com as necessidades de um desenvolvimento econômico genuinamente capitalista, delega ao Estado suas decisões políticas. Abre-se uma nova trajetória em que a expansão econômica passa a ser o grande objetivo ou a nova forma de domínio do mundo. Essa modalidade de domínio vai permitir o crescimento industrial e o aumento do nível das transações comerciais para além das fronteiras nacionais. “Expandir por amor à expansão”, esse foi o lema, de maneira que os resultados dessa expansão ultrapassaram as possibilidades da produtividade intrínseca das pessoas. Claro que uma reação passa a ser exercida por parte das nações que sofrem perdas. O mecanismo imperialista consistia em deixar aos conquistados suas respectivas leis, religiões, línguas e expressões culturais, ao tempo em que administrava os negócios, principalmente os financeiros, conjuntamente com pessoas locais. Enfim, colocar o dinheiro para produzir dinheiro, dificultando para grande parte das populações locais a percepção desse mecanismo em que as nações imperialistas expandiam seus respectivos poderes sem criar um corpo político para isso. Os lucros industriais passaram então a ser substituídos por comissões financeiras e juros. Inicia-se uma onda especulativa, parecendo crer que a acumulação era ilimitada para o capital, nesse momento em que o domínio político alcançava seu aspecto hegemônico, mesmo que para alguns essa seria a última fase do sistema capitalista.

Na atualidade, tem-se uma mudança na forma de dominação quando comparada com o imperialismo. Essa ideia encontra-se partilhada por, pelo menos, três correntes de ação: Globalismo, Islamismo e Comunismo, cujo ponto em comum é o objetivo de destruir os valores da civilização ocidental para impor uma sociedade planetária, cujo teor necessariamente será totalitário. A primeira corrente forja uma ação em um plano internacional a partir de instituições tipo ONU e Clube de Roma, bem como de ONGs financiadas com muito dinheiro proveniente dos Rockefeller e Rothschild, mas também dos Gates e Soros. A segunda corrente do Islamismo busca um choque religioso através do conflito entre o islamismo e o cristianismo-judaísmo, religiões que forneceram as bases morais do ocidente. A forma de ação tem sido, nos últimos tempos, através do processo migratório que invade os países ocidentais, em particular na Europa, levando o islamismo como verdadeiro cavalo de Tróia a países como França, Inglaterra e Alemanha.

Quanto ao Comunismo, desde os anos 60 percebe-se uma alteração na natureza de sua ação. Essa corrente deixa de lado a via eminentemente econômica, mesmo porque ela está completamente falida, e passa a uma atuação nos planos cultural, jurídico e religioso. Nessa nova modalidade de ação, espera-se corromper os hábitos e costumes, aniquilar o apego transcendental do homem e destruir a ordem jurídica das sociedades ocidentais. Para tanto entra em cena a ralé cultural, a baixaria comportamental e a vulgaridade do lupen social, tendo em vista alcançar o caos generalizado da sociedade, quando então se construiria a nova sociedade a partir do nada, tal como se escreve em uma folha de papel em branco. Antes disso, dei-me meu chapéu e apontarei a grandeza da estupidez dessa gente.

Em reação a tudo isso, assiste-se na atualidade um retorno ao nacionalismo. Isso é constatado através das políticas dos Estados Unidos com Trump (Partido Republicano) e da Inglaterra com Johnson (Partido Conservador). America First e Brexit abrem novas formas de posicionamento no cenário internacional com esperanças revividas e promessas de independência e autodeterminação dos povos, cujo principal resultado é limitar as ações globalistas, que nos dias atuais substituem as políticas imperialistas unificadoras e impostas a toda humanidade. Nacionalismo liberal é respeito aos hábitos, costumes, religião e cultura permitindo que cada povo trace seu próprio destino com instituições livres e soberania. Minha família, minha religião e minha língua são sentimentos recuperados, que certamente irão permitir uma reorganização do mundo por meio das nações independentes e soberanas, que competem entre elas mesmas através das leis de mercado, mas que também abrem possibilidades de acordos e negociações, desde que sejam proveitosos para as partes envolvidas.

Sem medo de errar, pode-se então afirmar que as relações estabelecidas entre o atual governo brasileiro e o governo americano são mais que salutares, ao se reconhecer que se trata de um jogo de soma positiva para as duas nações, ou seja, ambas têm boas perspectivas de ganhos. Em uma linguagem da teoria dos jogos diz-se que: “Ninguém é contra mim, cada um é a favor de si próprio”. Isso pode ser traduzido parafraseando Juracy Magalhães: O que é bom para o Brasil, que seja também bom para os Estados Unidos. A postos citoyens!

*O artigo semanal é resultado de uma parceria entre o Portal WSCOM e o Departamento de Economia da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Márcia Batista da Fonseca é professora associada do Departamento de Economia na Universidade Federal da Paraíba.



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