Educação

Nova diretora do Centro de Educação aponta prioridades de gestão, admite dificuldade com redução orçamentária e diz defender processo democrático na UFPB

25/01/2021


Professora doutora Adriana Diniz assume a Direção do CE/UFPB a partir desta segunda (25) (Foto: Arquivo pessoal)

Por Walter Santos

A professora doutora Adriana Diniz está com novos desafios a enfrentar a partir desta segunda-feira (25) quando assume com seu vice, o professor Roberto Rondon, os destinos do Centro Educação (CE) da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), diante de uma conjuntura interna a merecer habilidade e postura na nova fase.

Em entrevista exclusiva concedida ao Portal WSCOM, ela avalia a realidade na Universidade, pontua várias propostas na direção do futuro, já identifica problemas com a redução orçamentária a preocupar e revela que apoiou a chapa vencedora na última consulta na UFPB. Ela destacou por fim o ano a dedicar ao significado da obra de Paulo Freire com centenário este ano.

Eis a integra da entrevista:

WSCOM – A agenda da UFPB programa posse de nova diretoria do Centro de Educação sob seu comando e professor Roberto Rondon. O que significa esse estágio na educação universitária?

ADRIANA DINIZ – Queremos instaurar, com a participação de todos e todas, uma nova cultura de gestão no Centro de Educação.

Isso significa a adoção de um novo modelo de gestão para o Centro de Educação, fundamentado em um conjunto de princípios que nortearão o nosso mandato, como a defesa da universidade pública, gratuita e de qualidade e da indissociabilidade do ensino, da pesquisa e da extensão; a gestão democrática da educação, com garantia da participação e da autonomia, com ética e transparência e paridade dos segmentos nos processos de tomada de decisão; a centralidade da pessoa humana na gestão, traduzida no necessário e amoroso cuidado com o outro – docente, técnico administrativo, discente, a comunidade –, bem como com a valorização e o reconhecimento profissional; o estímulo à inovação e promoção da inclusão e da sustentabilidade e o respeito à diversidade, à pluralidade de ideias e de propostas pedagógicas.

WSCOM – Como a Sra. pretende conviver com a parcela do CE que não votou na sua proposta?

ADRIANA DINIZ – A nossa gestão é uma porta aberta para o exercício do diálogo, da reflexividade, da crítica e da participação. No processo eleitoral, a nossa chapa denominou-se “Muda CE: participação na pluralidade”. Isso já expressa as bases com que vamos trabalhar, sem pretensão de homogeneidade de pensamentos e práticas, com respeito à diversidade de concepções, assegurando a participação dos diversos segmentos da comunidade educacional na elaboração do projeto acadêmico que queremos construir. Entendemos que a convergência se constrói a partir dos princípios que já elencamos. Sob essa perspectiva, há um lugar para todos e todas, incluindo aqueles que não votaram na nossa proposta. Do nosso ponto de vista, assumimos a Direção do Centro de forma republicana e buscaremos trabalhar sem distinção política.

WSCOM – Quais as principais propostas e desafios voltados aos três segmentos da comunidade universitária?

ADRIANA DINIZ – Considerando o contexto pandêmico, as principais propostas estão relacionadas à construção de um projeto de formação de profissionais da educação de modo a melhor atender às necessidades educacionais do Estado da Paraíba. O nosso Centro é responsável pela formação de pedagogos/as, como docentes da educação infantil e dos anos iniciais da educação, como gestores e como pesquisadores; também de psicopedagogos e de professores e bacharéis de ciências das religiões. Queremos fortalecer a graduação, como formação inicial aliada à formação continuada de professores; fortalecer também a pós-graduação; promover a pesquisa aliada à inovação educacional; fortalecer a extensão acadêmica aliada à educação básica, aos movimentos sociais e à cultura, numa perspectiva da educação popular. Temos ainda como proposta apoiar nossos estudantes de graduação e de pós-graduação para que possam cursar com êxito a Universidade. Não basta apenas garantir o acesso, precisamos garantir a permanência, a conclusão e inserção acadêmica, social e cidadã do estudante. Os discentes estão enfrentando fortes processos de exclusão que se agudizaram com o Covid 19. Precisam apoio institucional. Queremos apoiar, também, os nossos docentes nessa reconfiguração da educação, assim como qualificar ainda mais o corpo técnico para um melhor suporte ao desenvolvimento da nossa missão enquanto Centro de Educação.

O tempo pandêmico nos ensina o quanto o cuidado e o autocuidado são dimensões importantes. Estamos no aguardo da vacina. Queremos o retorno das aulas presenciais apenas de modo seguro para docentes e discentes.
Temos desafios que nos são impostos pelo contexto pandêmico, mas, mais que isso, pela forma como o governo federal entende o papel das Universidades Federais na superação da pandemia e de tantos outros graves problemas da sociedade brasileira, inclusive educacionais. A consequência disso é a restrição orçamentária, que é o nosso maior desafio. Para se ter uma ideia, no orçamento de 2021 contamos com menos de 60 mil reais para manter a nossa escola de educação básica, a EEBAS, com mais de 200 alunos, e estamos com demanda para mais 50 novas matrículas. Isso é insuficiente e exigirá uma série de ações no campo da gestão junto ao Reitorado da Universidade.

WSCOM – A Sra. toma posse em meio a uma conjuntura na qual o reitor nomeado sobre contestação judicial. Como conviver neste cenário?

ADRIANA DINIZ – O nosso grupo se elegeu alinhado à proposta da Professora Terezinha e da Professora Mônica, candidatas à Reitoria, na defesa da gestão democrática da educação, no esteio do previsto na Constituição Federal e amparado na vasta literatura dessa área. Acreditamos que não há sociedade democrática sem uma educação democrática, por isso é tão importante assegurar a ampla participação dos diferentes segmentos como forma de legitimação de um projeto de educação inclusivo e que colabore para o desenvolvimento da sociedade com justiça social. Não vemos isso no atual reitorado, pela forma como assumiu a gestão da UFPB, porque integrou a lista tríplice tendo tido zero voto na assembleia dos conselhos superiores. Em razão desse fato, há uma luta política na Universidade na atualidade.

Assim, enquanto aguardamos a decisão judicial, participamos dessa luta pelo retorno da democracia e da autonomia universitária, e pretendemos ter uma atuação voltada para a gestão do nosso Centro, esperamos desenvolver o diálogo institucional e administrativo com o reitorado com o propósito de garantir o melhor funcionamento do Centro e o atendimento às demandas da comunidade.

WSCOM – Quando outros setores da sociedade, especialmente profissionais com nível superior podem ter acesso a programas de especialização universitária ?

ADRIANA DINIZ – De fato, a sociedade contemporânea exige formação ao longo da vida profissional, sendo insuficiente apenas o curso de graduação. Para tanto, contamos no Centro de Educação com a pós graduação tanto lato sensu (especialização) como stricto sensu (mestrados e doutorados) como qualificação de alto nível para profissionais de diversas áreas, em especial da educação, tanto na modalidade acadêmica como profissional. Possuímos programas acadêmicos na área de educação (PPGE) e de ciências das religiões (PPGCR), e programas profissionais na área de políticas públicas, gestão e avaliação da educação superior (PPGAV), voltado para técnicos das Instituições Federais de Ensino Superior, bem como o programa de pós graduação em gestão das organizações aprendentes (PPGOA), voltado para profissionais liberais das diferentes áreas. Anualmente, são disponibilizados Editais de seleção pública abertos à sociedade em geral, dentro das especificidades de cada um.

WSCOM – Quais os projetos de intercâmbio externo à UFPB a merecer atenção de sua gestão?

ADRIANA DINIZ – A articulação com a educação básica, com os sistemas públicos de ensino, da região metropolitana e adjacências, encontra centralidade em nossa proposta. Queremos recolocar o lugar do Centro de Educação nesse projeto. Vamos conversar com o Secretário de Estado da Educação, Professor Cláudio Furtado, bem como com os secretários municipais de educação. Mas, entendemos que as demandas de ensino, de pesquisa e de extensão não se esgotam com a educação formal, sendo a educação não formal um campo relevante para o diálogo e o desenvolvimento de projetos comuns, como os movimentos sociais, sindicatos, organizações do terceiro setor, entre outras. Queremos fortalecer os projetos já existentes, que são inúmeros, e queremos abrir novas frentes de atuação. Queremos um Centro de Educação aberto ao diálogo com a sociedade, temos um corpo docente e técnico bastante qualificado que queremos apoiar e ampliar nossa presença localmente, e também regional, nacional e internacionalmente.

WSCOM – Algo especial ?

ADRIANA DINIZ – Para 2021, um projeto relevante é o da comemoração do centenário de Paulo Freire. Queremos mobilizar os educadores e educadores em torno a isso. O contexto nos pede esperança e comprometimento político e pedagógico, a releitura do pensamento de Freire muito tem a nos ensinar e a nos fortalecer. Vamos esperançar, como diria o grande mestre.



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