Internacional

Morre Kissinger, o idealizador do massacre do Camboja e outros horrores

Kissinger morreu hoje aos 100 anos e os horrores que perpetrou não podem ser esquecidos.


30/11/2023

Paulo Henrique Arantes / Brasil 247

Há pouco tempo destacávamos neste espaço a infelicidade de Pedro Malan, ex-comandante da economia durante os anos neoliberais de Fernando Henrique Cardoso, no Estadão, ao sugerir a Lula o modelo Henry Kissinger de tratar assuntos internacionais. Lembramos, à época, que a forma como o presidente brasileiro é recebido e ouvido mundo afora tornava inepta a tentativa de Malan.

Kissinger morreu hoje aos 100 anos e os horrores que perpetrou não podem ser esquecidos. O ex-secretário de Estado costumava ser cultuado pela inteligência ímpar e o talento diplomático. Pontualmente, por ter aproximado Richard Nixon e Mao Tsé Tung há 50 anos. Mas o que o diferenciava dos pares diplomáticos era a frieza com que idealizava ações como a invasão do Camboja, por exemplo, cujo resultado foram milhares de mortos civis em um país neutro na guerra do Vietnã.

Vale reprisar o que escrevemos aqui há poucos meses.

Há farta literatura biográfica sobre Kissinger, quase sempre classificando-o como paranoico. Seymour Hersh, em “The Price of Power”, de 1983, trata-o como um paranoico presunçoso, oscilante entre a crueldade e a bajulação, a buscar antes de tudo o avanço na carreira.

Talvez a obra mais completa, documentalmente, seja “Nixon e Kissinger – Parceiros no Poder”, de Robert Dallek, publicada em 2007. São 700 páginas que nos brindam logo na “orelha” com sentenças como estas: “Nixon e Kissinger tramaram ações inescrupulosas, como o devastador bombardeio do Vietnã do Norte em dezembro de 1972 – sorrateiramente decidido quando o Congresso dos Estados Unidos estava em recesso. Também conspiraram contra Salvador Allende no Chile, apesar dos muitos relatórios, procedentes de todos os lados do governo americano, afirmando que o socialista não era uma ameaça. Ainda fizeram de tudo para encobrir os escândalos mais variados que rondavam os salões da Casa Branca, e que resultaram no caso Watergate e na renúncia de Nixon”.

Outra obra biográfica sobre Henry Kissinger, menos documental e mais espirituosa, é “A Sombra de Kissinger”, esta de 2015, de Greg Grandin. O autor nos dá conta de que, “produto de uma nova meritocracia pós-guerra, Kissinger rapidamente aprendeu a usar a mídia, manipular jornalistas, cultivar elites e influenciar a opinião pública em seu beneficio”.

Grandin nos apresenta Kissinger como “um mestre em promover a proposição de que as políticas dos Estados Unidos e a violência e a desordem no mundo não têm nenhuma relação, em especial quando se tratava de prestar contas pelas consequências de suas próprias ações”.

A sinistra figura, hoje falecida, contribuiu fortemente para a ascensão do que hoje se convenciona chamar de Nova Direita. Mais uma vez, vale citar Greg Grandin: “Ao longo de sua carreira, ele (Kissinger) promoveu um conjunto de premissas que seriam adotadas e ampliadas por intelectuais neoconservadores e formuladores de políticas: de que palpites, conjeturas, vontade e intuição são tão importantes quanto fatos e informações sérias para orientar políticas, de que conhecimento demais pode enfraquecer a determinação, de que a política externa precisa ser arrancada das mãos de especialistas e burocratas e entregues a homens de ação e de que o princípio da autodefesa prevalece sobre o ideal de soberania”.

Tais princípios “kissingerianos” mantêm vivo o imperialismo americano.



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