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Especialista paraibana aponta indícios de “racismo institucional” no caso de motoboy negro detido pela PM após sofrer tentativa de homicídio

Além da tentativa de homicídio, devido ao tratamento a que Everton foi submetido, levantaram-se apontamentos que o motoboy também foi vítima de racismo, mas agora o réu é a própria Brigada Militar.


21/02/2024

(Foto: Reprodução/ Redes Sociais)

Anna Barros/ Redação Portal WSCOM



No último sábado (17), um homem negro foi vítima de tentatiza de homicídio no Rio Grande do Sul, mas no final, acabou sendo detido pela Brigada Militar. O motoboy Everton Guandeli, de 40 anos, foi submetido a facadas por um idoso branco ao tentar realizar a entrega.

Além da tentativa de homicídio, devido ao tratamento a que Everton foi submetido, levantaram-se apontamentos que o motoboy também foi vítima de racismo, mas agora o réu é a própria Brigada Militar.

O Portal WSCOM teve a oportunidade de conversar com a Dra. Francisca Leite, advogada civilista paraibana e membra da Comissão Nacional de Diversidade Racial da OAB, que pontuou que, no caso de Everton, houve sim racismo.

(Foto: Divulgação)

“É uma conduta racista. Tanto é que o homem branco foi conduzido para a cadeia no banco do carona. O homem negro não. Olha o tratamento diferenciado: ele foi no porta-mala do carro e algemado”, declarou. 

Francisca também falou sobre a justificativa de que Everton poderia ter insultado os agentes de segurança ou ter desacatado a autoridade presente, segundo ela, essa é uma forma de buscar impunidade. “Essa é uma forma que a polícia tem, geralmente, para não serem punidos mediante os crimes de violência policial”, disse a advogada.

O caso de Everton exemplifica um princípio que ocorre não somente dentro das corporações de segurança pública, como também fora delas. “Se há pessoas pretas por perto, são as primeiras suspeitas”, explicou.

Repercussão

Um vídeo do ocorrido viralizou nas redes sociais e, após o boom, autoridades políticas se pronunciaram sobre o caso.

Silvio Almeida, ministro dos Direitos Humanos, utilizou a plataforma X, antigo Twitter, para mostrar sua revolta sobre o acontecido. “O caso do trabalhador negro, no Rio Grande do Sul, que tendo sido vítima de agressão acabou sendo tratado como criminoso pelos policiais que atenderam a ocorrência, demostra, mais uma vez, a forma como o racismo perverte as instituições e, por consequência, seus agentes.”, declarou.

O ministro seguiu dizendo que é preciso que as instituições passem a “analisar de forma crítica o seu modo de funcionamento”, e que “práticas de governança antirracista devem ser adotadas.” Após citar a ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco, a mesma também se pronunciou na plataforma.

“As imagens causaram revolta, com razão, pelos indícios de racismo institucional.” declarou a ministra.

Anielle também ressaltou que sua equipe, juntamente com o Ministério da Justiça e o Ministérios dos Direitos Humanos, acompanhará os desdobramentos da investigação.

Em contrapartida à indignação dos ministros, o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB), determinou no domingo (18) a abertura de uma sindicância para que a Corregedoria da Brigada Militar estadual apure as circunstâncias da abordagem. E declarou, também no “X” que possui “absoluta confiança na Brigada Militar”.

Racismo no Rio Grande do Sul
No ano de 2022, o estado do Rio Grande do Sul registrou o número de 47 denúncias por injúria racial ou racismo no primeiro semestre, 135% a mais do que as 20 do mesmo período de 2021, segundo dados da Secretaria de Segurança Pública (SSP-RS).

Pele Alvo: a bala não erra o negro.

A violência policial direcionada a pessoas negras não são casos isolados, segundo o boletim Pele alvo: a bala não erra o negro, 87,35% dos mortos pela polícia em sete estados brasileiros (Bahia, Ceará, Pará, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro e São Paulo) eram negros.

O estudo foi feito pela Rede Nacional de Observatório de Segurança Pública. O levantamento aponta que a cada quatro horas, uma pessoa negra é morta no Brasil em ação policial.

Embora a exposição da revolta da população negra seja mais latente na atualidade, o grupo de rap Racionais MC’s já deixava claro em suas músicas a indignação da comunidade negra e, principalmente, periférica sobre as violências sofridas através dos agentes de segurança.

E foi justamente a partir deste contexto que a escola de samba paulistana Vai-Vai resolveu homenagear o álbum ‘Sobrevivendo no Inferno’ em uma de suas alas no carnaval de 2024. A ala apresentava policiais como demônios nas fantasias e gerou reações negativas de deputados e delegados da direita.

(Foto: Mariana Pekin)


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