Nordeste

Economista Tânia Bacelar alerta futuros governantes para a necessidade de reposicionamento do Nordeste no debate nacional


23/08/2022

Tânia Bacelar, é economista reconhecida nacionalmente pelo seu trabalho em prol do desenvolvimento regional

Portal WSCOM / Revista NORDESTE

Ainda dentro da pauta especial com abordagem e levantamento de pautas prioritárias para os futuros governadores dos estados nordestinos, a nova edição da Revista NORDESTE publicou entrevista com a economista Tânia Bacelar. Em contato com os jornalistas Luciana Leão e Walter Santos, ela abordou a necessidade e urgência para o reposicionamento dos estados nordestinos no debate nacional.

“O Nordeste é visto, predominantemente, como ‘região-problema’, visão antiga e que empana mudanças importantes ocorridas e, em especial, o potencial da região para ser parte das iniciativas estratégicas do desenvolvimento nacional”, frisa.

Tânia Bacelar é reconhecida nacionalmente pelo seu trabalho em prol do desenvolvimento regional, tendo atuado na Sudene durante 20 anos como economista e sido diretora de Planejamento Global de 1985/86.

A nova edição da Revista NORDESTE também está disponível para o leitor em edição virtual. CLIQUE AQUI para acessar.

Leia a entrevista com Tânia Bacelar, abaixo, na íntegra:

Reposicionamento do Nordeste como prioridade

Revista Nordeste – O que os novos governantes dos estados nordestinos precisam encarar como prioridades para a Região?

Tânia Bacelar – A primeira prioridade é a de reposicionar o Nordeste no debate nacional. Superar a visão dominante e equivocada que os centros de decisão do país e a grande imprensa (concentrada no sul/sudeste) têm da região. O Nordeste é visto, predominantemente, como “região-problema”, visão antiga e que empana mudanças importantes ocorridas e, em especial, o potencial da região para ser parte das iniciativas estratégicas do desenvolvimento nacional. Desta visão deriva o tratamento do Nordeste apenas como prioridade para as políticas sociais, em especial as assistenciais, e para as políticas compensatórias. Embora elas ainda sejam importantes, é hora de dizer um “basta” a essa visão e os governadores unidos têm força e legitimidade para propor um reposicionamento.

Nordeste: herança de hiatos

Herdeiro de um hiato importante, denunciado por Celso Furtado, quando em meados do século passado a industrialização, que comandou o desenvolvimento nacional, concentrou-se fortemente no Sudeste e em especial em São Paulo, o Nordeste exibe um dado estrutural: tem peso muito menor na economia nacional (15%) que na população (27%). Mas esse hiato se reduziu nas décadas recentes e a região, cujo PIB cresceu a ritmo superior à média, ganhou peso relativo na economia nacional e até no Valor de Transformação Industrial do país (8,5% em 2000 e 10,5% em 2018), enquanto as maiores metrópoles brasileiras (RJ e SP) apresentavam constante declínio industrial, como mostra C. CAMPOLINA em estudo recente para o IPEA.

Reprodução: Revista NORDESTE

Nordeste não é mais “terra de arribação”

Dois pontos são relevantes, hoje. O Nordeste mudou muito (e para melhor), e o Brasil está, neste momento, precisando construir um novo projeto de desenvolvimento para redefinir sua inserção num mundo em transformações profundas. Neste contexto, o Nordeste precisa ser visto como parte da solução no enfrentamento deste desafio nacional, região plena de potenciais (como demonstra seu papel) na transição mundial para a era das energias limpas, claramente percebido por grandes empresas mundiais, e não como “terra de arribação” (que não é mais) ou lócus da pobreza (que persiste como desafio e se ampliou no país inteiro) e, portanto, sendo visto apenas nas políticas sociais ou, quando muito, nas políticas regionais compensatórias. Para reverter esta imagem distorcida, as lideranças políticas, empresariais e acadêmicas, apoiadas pelas lideranças dos movimentos sociais, precisam atuar firmemente.

A Diversidade regional como um ativo

Outra oportunidade deste momento está no potencial do Brasil, ao construir um novo projeto de futuro, valorizando a maravilhosa diversidade regional da qual é portador. No século XX, a concentração econômica e regional dominou a diversidade regional, mas ela é um ativo estratégico para o engate do Brasil nos novos tempos mundiais. E o Nordeste também é portador de uma rica diversidade ambiental, econômica, cultural…

Revista Nordeste – O Nordeste já não é o mesmo. A economia mudou. O que ainda falta para que os políticos e investidores encarem a região como um bom celeiro de oportunidades?

Tânia Bacelar – As mudanças foram muito amplas e profundas. Cito, a seguir, apenas algumas. E muitos investidores já conseguem perceber potenciais latentes – como as grandes empresas voltadas à energia eólica ou a produção do hidrogênio verde, para dar um exemplo. Em meados do século passado, por exemplo, o NE era carente de energia elétrica e hoje é exportador de energia e vai ampliar este protagonismo. Enquanto o setor automotivo declina no Sudeste, o Nordeste atraiu empreendimento moderno, que se implantou em Pernambuco: um complexo que busca dialogar com as novas tendências mundiais do setor e que revolucionou a secular pauta de exportações de PE, desbancando os tradicionais produtos do complexo açucareiro. E há muitos empreendedores nordestinos que resistem na crise brasileira, ousam e se reinventam. É o caso do Grupo Moura, em Pernambuco (que implantou Centro de Pesquisa sobre acumuladores dos novos tempos) ou da cearense BRISANET (que disputou, ao lado das grandes, e ganhou nos lotes regionais do 5G, expandindo-se no Nordeste). São apenas dois exemplos. Mas tenho boas surpresas a cada dia…

Resignificar os Complexos Econômicos

Por sua vez, os velhos complexos econômicos regionais não são mais os mesmos. O açucareiro busca agora valorizar sua face produtora de energia da biomassa e se autodenomina sucro-energético e o tripé (gado x algodão x policultura) que estruturava a socioeconomia do amplo espaço semiárido desmontou (com o fim do algodão embutido no latifúndio pecuário) propiciando uma releitura dos potenciais do bioma Caatinga (que requer investimento forte em conhecimento científico – sobretudo os da bioeconomia – e em inovação para valorizar suas riquezas latentes, como se quer fazer na Amazônia). Há novos polos de produção agrícola (como os polos de fruticultura irrigada ou de sequeiro, a produção de algodão orgânico e colorido…) e de base pecuária (como polos leiteiros ou polos de avicultura). O oeste nordestino, integrante do bioma cerrado, antes pouco ocupado, engatou na dinâmica do agronegócio exportador (estruturando o que se chama hoje de MATOPIBA). A agricultura de base familiar – voltada à produção de alimentos – viu crescer o protagonismo feminino e busca apoio das Universidades e Centros de Pesquisa para dar um salto de qualidade, especializando-se na produção de alimentos orgânicos, saudáveis, como demanda a sociedade contemporânea. O sucesso das “feirinhas agroecológicas” nas diversas cidades nordestinas é sinal de novos tempos.

O protagonismo significativo do “Velho Chico”

A presença do PISF (Projeto de Integração do São Francisco) é outro ativo novo, que pode, se bem utilizado, associado à revalorização do “Velho Chico”, dar novos rumos ao desenvolvimento do Nordeste Oriental. Mas, talvez, a maior mudança na realidade rural nordestina seja a recente convivência com um longo período de seca, sem frentes de trabalho, sem humilhação, sem emigração. As politicas sociais do pós CF/88 tem, neste caso, um forte poder explicativo para o fim de um velho flagelo social.

O reflorescimento das cidades médias x educação

Por sua vez, no ambiente urbano, a metropolização desenfreada em poucas cidades (concentradas no litoral) cedeu espaço para um movimento célere de florescimento de cidades médias (estudo que lastreou o Plano Regional de Desenvolvimento, recém elaborado pela SUDENE, identificou 43 delas espalhadas pela região). Aliás, parte significativa do impulso econômico dessas cidades médias dialogou com a expansão e interiorização do sistema universitário, cujo crescimento superou de longe o das demais regiões do país e começa a dar seus frutos com a oferta de uma mão de obra jovem, qualificada e comprometida com o desenvolvimento regional, ativo antes inexistente. Uma politica firme de apoio à inovação pode fazer florescer novos padrões produtivos Nordeste adentro, onde a importância de colocar o NE no coração de uma nova politica de C,T&I do país. E por falar em inovação, ecossistemas na área de TIC se consolidaram e buscam se ampliar no Nordeste. É o caso do Porto Digital, no Recife, ou de ecossistemas semelhantes na Paraíba, Ceará, Bahia… O Porto Digital abriga, hoje, 350 empresas, mobilizando cerca de 15 mil empregados. E cresceu durante a pandemia. Entre 2015 e 2021 o faturamento quase dobrou (94%) enquanto o número de colaboradores expandiu-se em 50%, indicando um forte aumento da produtividade, segundo dados disponíveis. Polos importantes de serviços especializados também se consolidaram na região, nos serviços médicos, jurídicos, de engenharia consultiva, de apoio à gestão empresarial… A economia criativa, símbolo do século XXI, também tem se ampliado, baseada no nítido e reconhecido potencial da produção cultural regional. E tem força para crescer muito mais, sendo protagonista relevante no contexto nacional.

Reprodução: Revista NORDESTERevista Nordeste – As novas economias que surgiram, como a do mar, do sol, do vento estão caminhando para tornar os estados nordestinos como portadores de novos negócios. Quais experiências exitosas os novos governantes precisam estar atentos e fazer acontecer para apoiar?

Tânia Bacelar- Não só na economia ocorreram mudanças, no Nordeste. As oportunidades que você citou estão visualizadas nos planos estratégicos estaduais, que foram construídos em vários estados. Enquanto o Governo Federal fechava o Ministério do Planejamento, o Nordeste pensava seu futuro… . Mas, um velho desafio nacional e regional é o nível de educação de nossa população, sobretudo face às exigências dos novos padrões produtivos mundiais. O Nordeste, nos anos recentes, deu exemplo ao Brasil neste campo. O modelo cearense para o ensino fundamental e o pernambucano para o ensino médio e profissionalizante, em tempo integral, são, hoje, referências nacionais e geraram avanços indiscutíveis. Tais experiências exitosas podem e devem ser patrocinadas pelos novos governantes nordestinos e do país inteiro. Os governantes nordestinos precisam também estar atentos a novas oportunidades e escolhas nacionais, como o exemplo do apoio ao Complexo Econômico da Saúde, que os tempos de pandemia iluminaram, e que aparece em programas de candidatos à Presidência da República. A proposta é estratégica, mas não pode ser reduzida ao apoio ao complexo industrial da saúde (como na visão sudestina). É fundamental tratar indústria e serviços de saúde, como propõe a FIOCRUZ. E interessa ao Nordeste que assim o seja (pois a região já abriga vários polos destes serviços, inclusive dos maiores e mais avançados do país, embora não seja forte na indústria). Tal ampliação, no entanto, interessa ao país, pois ela é fundamental para nos atrelar à revolução 4.0, que já avança neste segmento via tele serviços, e, sobretudo, para ampliar o emprego, pois é nos serviços que ele se potencializa, fazendo o link entre desenvolvimento econômico e social.

Revista Nordeste- Em sua visão, quais ainda seriam os principais gargalos nos nove estados nordestinos?

Tânia Bacelar – A herança de tempos pretéritos, que ainda pesa forte, sobretudo na velha e concentrada estrutura fundiária, no profundo hiato social que marca a região; insuficiências na base de infraestrutura econômica e social; padrões educacionais ainda desafiadores, em especial em tempos de ruptura como o que vivemos no mundo, aliados à imagem distorcida que os centros de poder têm da região, como destaquei inicialmente. São gargalos estruturais. Face aos tempos presentes, o Nordeste está construindo uma agenda inovadora que encara desafios do futuro próximo: iniciativas voltadas para a promoção da economia circular, para a regeneração de biomas, para a promoção da descarbonização ou para enfrentar a adaptação a eventos extremos… Mais uma razão para estar com protagonismo no ambiente nacional, que enfrenta desafios semelhantes, mas com especificidades regionais nítidas.



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