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Paraíba

21/11/2019


“Desafio é mostrar o pensamento de Celso Furtado às novas gerações”, diz Rosa Freire D´Aguiar

Viúva do economista esteve na UFPB para planejar o centenário do autor, criador da Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (Sudene)

Jornalista Rosa Freire em visita à UFPB. Crédito: Beatriz Barros

Portal WSCOM

O economista Celso Furtado deixou sua terra natal (Pombal, PB) para entrar na história e cultura brasileiras. Falecido em 20 de novembro 2004, é considerado um dos maiores intelectuais públicos do país. Participante de uma linhagem de autores como Antônio Cândido, Florestan Fernandes e Sérgio Buarque de Holanda, comprometidos com a ideia de pensar o Brasil, Celso Furtado completaria 100 anos em 2020.  Rosa Freire D´Aguiar, viúva do ex-ministro e criador da Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), visitou esta semana a reitora da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), professora Margareth Diniz, para planejar as homenagens ao autor de “Formação Econômica do Brasil”, uma obra clássica do economista. Na entrevista abaixo, Rosa Freire diz que o maior desafio é apresentar o pensamento de Celso Furtado às novas gerações.

Ascom/UFPB: A senhora está divulgando a obra “Diários Intermitentes de Celso Furtado – 1937-2002”, com ênfase na trajetória dele. Como a senhora pode recortar a recepção da obra de Celso Furtado neste período, relativamente longo?

Rosa Freire d´Aguiar: De fato como você diz a obra pega um período longo de 65 anos da vida dele – desde os 18 anos, bem jovenzinho até poucos anos antes dele morrer. O Celso não era propriamente um diarista, no sentido de ele chegar em casa e anotasse o que acontecia. Ele recorria aos diários quando estava em momentos de muita angustia, ansiedade, aflição por alguma coisa não estava andando bem ou nas providências políticas ou negociações – por exemplo no caso da Sudene que foram muito difíceis as negociações para aprovar a lei da Sudene em 1959; ou então quando ele viajava e descobria coisas novas. Nestes momentos ele recorria ao diário. Tudo isso monta uma espécie de retrato da época em que ele viveu.

Ascom/UFPB: O Celso Furtado tem um capítulo impar na política, na economia e na cultura brasileiras. Na sua percepção qual o momento mais significativo, mais marcante, em que ele se sentia, digamos assim, mais importante para a Nação?

Rosa Freire d´Aguiar: Importante, não sei. Teve vários momentos, por duas vezes ele foi ministro de Estado, ele foi chamado para criar o plano tri-anual no final do governo João Goulart. Mas o que eu posso dizer é que ali onde o Celso deu o mais dele, teve mais ânimo e empenho e também competência, foi na criação da Sudene. A Sudene foi idealizada por ele, foi implantada por ele e dirigida por ele de 1958 até 1964. E foi uma luta muito grande, porque o projeto do Celso era absolutamente racional e que escapava, digamos assim, das manobras políticas, de uma certa condescendência de políticos do Nordeste, e eu incluo a Paraíba nesta minha frase, que faziam corpo mole e não queriam que a lei fosse aprovada porque iam perder o controle das verbas federais; depois tinha a coisa dos donos de engenho, dos latifundiários. Essa gente toda não podia ouvir falar de reforma agrária, que estava no plano da Sudene. E você quando você falava em reforma agrária muita gente achava que era comunismo e não era, nunca foi. Eu diria que ali, durante aquela experiência, o Nordeste foi uma espécie de momento síntese da vida dele como homem público.

Ascom/UFPB: A Sudene é uma grande marca nesse processo e ainda hoje ela tem momentos de alta e momentos de baixa. Na sua leitura, pelo seu acompanhamento da vida de Celso, a senhora avalia que no momento em que vivemos – de ascensão do neoliberalismo – tem espaço para um pensamento como o de Celso Furtado?

Rosa Freire d´Aguiar: Acho que em primeiro lugar teria que separar duas Sudenes. A Sudene até 1964, quando o Celso esteve lá, e a Sudene pós-1964. Por que eu digo isso? Não é uma questão de pessoas. Claro que teve Superintendente de extremo interesse pelo Nordeste, mas é que a estrutura governamental mudou. A Sudene na época de Celso era equivalente a um Ministério. Então o Celso tinha status e despachava direto com o presidente da República; ele era representante – vis- à- vis, de nove estados nordestinos. Depois de 64 a Sudene passou a ser uma repartição de um Ministério. Ela se encaixou no ministério de Obras Públicas, no ministério de Aviação, no ministério do Planejamento e no ministério da Integração Nacional, mas sempre como uma repartição, uma autarquia dentro de um ministério. Isso muda. O superintendente da Sudene não tem mais acesso ao presidente da República, ele tem que se reportar ao ministro. Então o plano dele é um plano com muito menos força política.  Isso eu acho que mudou muito. Se a Sudene hoje tem seus altos e baixos, talvez essa seja uma das razões – quer dizer, a estrutura governamental da Sudene mudou e já mudou há muito tempo. Se o pensamento de Celso tem validade hoje eu vou dizer que sim. Não vou dizer que todo o pensamento dele, porque Celso tem uma obra grande, mais de 30 livros publicados, alguns quase de combate político, mas os livros dele de teoria, de história econômica e os que explicam a questão regional, a questão do Nordeste, são de uma atualidade grande. Eu às vezes pego e tenho a impressão que foram escritos há um mês atrás, de tão atual. Porque não estão necessariamente descrevendo uma realidade de momento. São muito mais livros de diagnósticos, de propostas para solucionar alguns graves problemas nacionais. E obviamente que isso continua, até porque Celso foi um teórico do subdesenvolvimento e embora a palavra não se use mais hoje em dia, o subdesenvolvimento continua sem parar no Nordeste, nas periferias das grandes cidades. Não estou falando só do Nordeste, estou falando do Rio de Janeiro, onde moro, na periferia e nos bairros chiques você ver as pessoas dormindo nas ruas, sendo mal atendidas nas repartições e nos serviços públicos. Quem quiser pensar em resolver estes problemas terá que passar necessariamente pela obra do Celso.

Ascom/UFPB: No próximo ano a gente tem o centenário de Celso Furtado. E a senhora inclusive conversava com a reitora da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Margareth Diniz, que o desafio é levar a obra dele para a juventude. Como a senhora imagina fazer isso?

Rosa Freire d´Aguiar: Bem, isso é um pouco o que me move. Quer dizer, o que me alegra é quando tem um lançamento, um debate. Eu fui a vários lançamentos e debates recentes e quando eu chego vejo que tem gente jovem interessada em saber um pouco do Celso, quem ele foi, o que escreveu me deixa muito feliz. Eu estive há pouco em Ouro Preto onde teve um encontro regional de economia e tinha centenas de estudantes lá. A ideia é sempre fazer em recintos universitários porque aí você chega as novas gerações. A criação de prêmios Celso Furtado é uma iniciativa boa porque você move os estudantes jovens, da graduação ou mestrado e doutorado a escrever sobre Celso e para isso eles tem que ler a obra dele. Então esse tipo de atividade universitária é a melhor forma de homenagear, porque o jovem já tem alguma maturidade para ler os textos dele – que são de um economista, de um historiador. E a partir daí eles vão em frente e pelo menos alguma coisa do pensamento dele pode continuar.