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Coronavírus: Prof. Paulo Fernando Cavalcanti vê erros de diagnóstico e equívocos em medidas do BNDES

23/03/2020


Por Walter Santos

As medidas e análises de conjuntura anunciadas neste domingo pela direção do BNDES para fazer frente à grave situação sócio-econômica no Brasil advinda do Coronavírus visando contribuir com o setor produtível nacional estão equivocadas e tendem a conviver com sérios problemas. Esta é a Opinião do especialista e professor de Economia da UFPB, Paulo Fernando Cavalcanti Filho, em entrevista à Revista NORDESTE

Conforme comentou, o diagnóstico está errado: o presidente do BNDES acredita que a crise será rápida, em 6 meses superada, assim que o pico da crise passar. Isso é um erro que nenhum país do mundo está considerando.

Segundo ele, a crise se prolongará após o pico da crise da pandemia, pois empresas falidas não voltam à ativa depois que a epidemia passa, setores e cadeias produtivas tendem a ser rompidas, gerando problemas de fornecimento, problemas no fornecimento global de insumos e componentes interrompem produção local .

Alem do mais, acrescentou, o desemprego, que crescerá, demorará para ser reduzido, estagnando o consumo das famílias por muito tempo. A economia mundial derretendo irá impactar o Brasil até 2021/2022, pelo menos, encolhendo mercados externos, reduzindo o fluxo de investimento direto estrangeiro, aumentando o protecionismo das economias.

TRATAMENTO TÍMIDO E IRREAL

Para ele, a magnitude tímida dos recursos na ordem de 55 bilhões anunciados é muito pouco. Em 2009 o BNDES utilizou 190 bilhões para combater a crise. 10 anos atrás. O PIB brasileiro é de 7 trilhões de reais.  55 bilhões não chega nem a 1% do PIB brasileiro. A Espanha lançou um pacote de 15% do seu PIB. O governo dos EUA anunciou pacote correspondente a 5% do PIB.

OUTRO ERRO

Ele garante que a decisão de devolução dos recursos do FGTS é errada. Dos R$ 55 bilhões anunciados, R$ 20 bilhões são recursos do FGTS  que o BNDES vai devolver ao governo para ele distribuir aos trabalhadores com direito a saque.

O professor afirma categoricamente:.

– Está errado. É uma insensatez.  8, o destino que estes recursos do FGTS podem servir aos trabalhadores (renda para as famílias sobreviverem ao desemprego) já está disponível para estas pessoas (o recurso é dos trabalhadores e não do governo e parte deles não sacaram os recursos) e pode ser feito de forma muito melhor e eficaz com um amplo programa de renda mínima para trabalhadores informais, de aplicação imediata e sem ônus para os pobres. Há recursos na Conta Única do governo federal, em posse do banco central, no valor de 1,2 trilhão de reais. Estes recursos podem ser mobilizados como gastos extraordinários.

Alem disso, analisa, o fim do absurdo teto de gastos (que nenhum país do mundo jamais implantou) é a melhor medida. O FGTS é recurso do próprio trabalhador, que o governo federal vai fazê-los gastar para que o próprio  governo não gaste (o contrário do que os países estão fazendo).

Segundo, o BNDES usa estes recursos do FGTS  para financiar suas linhas de crédito às empresas. Sem estes recursos, o banco terá uma capacidade MENOR  de financiamento. Ou seja, o governo está aproveitando a crise para REDUZIR o tamanho do BNDES no momento em que mais precisamos dele, o que é um crime de lesa-pátria, motivado pela torpe união entre uma ideologia liberal nociva e uma insensatez administrativa descomunal.

MAIS EQUÍVOCO À VISTA

De acordo com ele, o foco na ação indireta está errado: o presidente do BNDES enfatizou que o banco vai focar sua ação no suporte às operações do sistema financeiro, para mitigar o risco deles e tentar induzi-los a emprestar ao setor produtivo  privado.  Na crise de 2008, o FED (banco central dos Estados Unidos) foi forçado a realizar operações de liquidez diretamente a determinados segmentos do sistema produtivo, pois o sistema financeiro captava a injeção de liquidez do FED, mas não repassava ao setor produtivo, provocando o chamado “empoçamento de liquidez”.

No Brasil, adiantou, na crise de 2008, foram os bancos públicos (BNDES,BNB,BASA,BB,CEF) que fizeram este papel diretamente. Adiamento de juros e amortização (alongamento das dívidas empresariais) é CORRETO mas INSUFICIENTE. Correto, pois diminui os riscos de uma onda de inadimplência financeira entre as empresas que fazem parte da carteira do BNDES e de seus operadores indiretos, com repercussões ao longo das cadeias produtivas.

Por fim, acrescenta que, mas é insuficiente para garantir a manutenção do nível de atividade econômica destas mesmas empresas que, diante da redução generalizada nas demandas, reduzindo seu faturamento, elas poderão contrair seus gastos (poupando recursos financeiros) para pagar a dívida que ficou acumulada para o futuro.

SEM MEDIDA ORIENTADORA

O especialista avalia que o BNDES não anunciou nenhuma medida orientadora da produção: o banco não está atuando como orientador da necessária reconversão produtiva de setores que, enfrentando forte queda de demanda e com maquinaria ociosa , poderia redirecionar seu mix de produção para itens demandados pelo setor público (compras governamentais), que, assim, criariam demanda para estes setores (garantindo um mínimo fluxo de caixa) e ampliaria a oferta de bens que se tornarão escassos,  especialmente na área de saúde, mas também ao longo de cadeias produtivas importantes.

Conforme observa, a ABIMAQ (associação brasileira da indústria de máquinas) acabou de anunciar a intenção de mobilizar empresas para produção de respiradores mecânicos para UTIs dos hospitais, mas nenhuma medida anunciada pelo BNDES sinaliza que haverá amplo apoio a estas iniciativas urgentes.

CONDICIONAMENTO POLÍTICO IMPRÓPRIO

Na avaliação do professor, o uso político do BNDES como moeda de troca: O BNDES anunciou que, seguindo orientação do Ministério da Economia, irá apoiar estados e municípios com recursos financeiros, mas quer condicionar o apoio às condições  do “plano Mansueto” e ao “PL do pacto federativo”, ou seja, vai atrasar os recursos para pressionar os estados e prefeituras a aceitarem medidas que foram elaboradas ANTES da crise e que já eram criticadas à época. Isso cria tensão política em um momento em que precisamos de cooperação e agilidade.

Para ele, Governos estaduais estão estatizando, temporariamente, hospitais privados que estavam fechados (a prefeitura de João Pessoa decidiu isso para 2 hospitais ) e precisam de recursos para rápida reforma e instalações.

SEM ABRIGAR DIFERENÇAS REGIONAIS

Na sua analise, por fim observa que a ausência de critérios Regionais: Nenhuma das medidas considera as grandes desigualdades regionais entre o Nordeste e o resto do país.

Para ele, as condições de empresas, trabalhadores e população socialmente fragilizada são muito mais graves na região Nordeste, o que exigiria medidas específicas do BNDES para a Região, articuladas à Sudene e ao Banco do Nordeste.

Além do mais, frisa que os governos estaduais do Nordeste  possuem uma carteira de mais de 60 projetos incluídos no PRDNE (Plano Regional de desenvolvimento do Nordeste) e que poderiam receber apoio do BNDES e BNB para início imediato. São projetos geradores de emprego e renda no curto prazo e com grande impacto no médio prazo para permitir a recuperação futura da economia nordestina.


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